22 maio 2015

O Quarto Ato: A Resolução

Encerrar uma história nunca é fácil. Se a maioria dos iniciantes costuma patinar logo no Primeiro Ato, tanto eles quanto escritores mais experientes sofrem na hora de dar um ponto final para a sua trama. Há muitas variáveis em jogo, muitas possibilidades para errar, muitas tentações que surgem na ansiedade de finalizar aquele trabalho que te ocupou pelos últimos meses ou anos. Daí surgem resoluções fáceis, preguiçosas, incoerentes e, em grande parte, insatisfatórias.
Meh...
Este é um grande pecado. Um final nunca deve ser insatisfatório. Na verdade ele precisa ser NO MÍNIMO satisfatório. Claro que sempre miramos alto, sempre queremos que nossos finais sejam bombásticos, impressionantes, inesquecíveis, etc. Mas, para alcançarmos esse grau, é essencial que ele seja, de novo, no mínimo satisfatório ao leitor.

E o que é um final satisfatório? O mocinho derrota o bandido, beija a mocinha e juntos cavalgam na direção do sol poente? Pode ser. Mas também pode ser uma reviravolta que subverte todas as expectativas criadas nos atos anteriores. Pode ser o trágico sacrifício final do protagonista. Um final satisfatório não precisa ser necessariamente um final feliz. Pode ser que a resolução gere implicações catastróficas. Pode até ser que o antagonista vença.
Na verdade, não importa como sua história irá terminar. O que importa é que, quando o leitor fechar seu livro pela última vez, ele deverá levar sua história com ele para sempre. Pode ser na forma de um questionamento incitante, uma nova ideia ou uma memória afetiva pelos personagens e/ou trama. Qualquer sentimento que não seja indiferença. Pode ser até mesmo raiva, desde que seja pelo que aconteceu na história, não de você. Algo precisa permanecer com ele após a leitura. É essa a satisfação que ele estava buscando quando começou o livro, e prover esse sentimento é sua responsabilidade. Não fuja dela.
E como conseguir esse efeito no ato de encerramento? Bom, alguns elementos precisam se fazer presentes:

  • Encerramento do arco dramático do protagonista: Esse é essencial. O protagonista deverá sair da história diferente de como entrou. Ele deverá aprender algo, evoluir. Deverá enfrentar os demônios interiores e exteriores e superá-los de alguma maneira. Mesmo que no final o mundo esteja salvo e todos retornem à vida "normal" antes da crise, ele deverá sair modificado. Se a série de eventos narrados pelo livro não causou um grande impacto na vida do protagonista, como você espera que irá impactar na do leitor?
  • Encerramento da trama principal: O drama principal deve ser resolvido, para o bem ou para o mal. Não importa se seu livro terá continuações ou fará parte de uma decalogia. A trama principal daquele volume deverá ser resolvida, mesmo que essa resolução impacte nos próximos livros. Aliás, se este for o caso, é importante que isso ocorra. 
  • Exposição do Tema: Lembra-se quando falamos sobre o Tema da história? É neste ponto que ele se fará mais presente (mesmo tendo permeado toda a trama). É aqui que o leitor deverá ser tocado pela mensagem implícita em sua história, compreender a consequência de certo raciocínio ou ação. Não precisa ser algo explícito, mas precisa ser sentido de alguma maneira. Esse talvez seja o ponto mais importante a ser levado em conta.

Só tudo isso. Como eu disse, não é uma tarefa fácil. A boa notícia é que, como ainda estamos fazendo o planejamento da obra, sabemos o que precisamos fazer. Olhe para trás por um instante e veja tudo o que você tem à sua disposição: Você tem um Tema, um Conceito, uma Premissa, Personagens tridimensionais e uma Estrutura bem definida, com um Primeiro Ato sólido, um Segundo Ato dramático e um Terceiro Ato poderoso. Tudo isso irá tornar a sua tarefa de encontrar o final perfeito um pouco mais fácil.
Mas ainda há diversas armadilhas a se evitar nesse processo. Todo cuidado é pouco. Então, quando estiver delineando o encerramento de sua história, preste atenção para evitar alguns erros comuns nessa fase:

  • Deus ex machina: Esse é o mais conhecido, mas mesmo assim muitas vezes acabamos encontrando em diversas histórias. Evite soluções que não foram apresentadas ou mesmo prenunciadas nos atos anteriores. Não introduza novos personagens ou elementos neste momento. A solução deve estar permeada na trama, só se fazendo clara no momento crucial. Se você não sabe como resolver o arco dramático principal, é porque precisa voltar e repensar toda sua história.
  • Protagonista como "mera testemunha": Esse é mortal. Seu protagonista não deve apenas fazer parte da solução do conflito, ele deve ser a parte essencial. Caso contrário ele não será o protagonista. Serão suas ações, atitudes e ideias que irão encerrar a história. E ele não deve de maneira alguma ser resgatado. Se alguém resgata alguém aqui é ele. Não enfraqueça seu personagem logo no momento culminante de sua história. Você preparou todo o palco para aquele momento. Permita que ele brilhe.
  • Soluções "mágicas" (note as aspas) ou incoerentes: Sua história não precisa seguir a lógica do mundo real, mas precisa ter uma lógica interna. Se em seu mundo dois mais dois é igual a cinco, o resultado não pode ser quatro no ato final apenas "porque sim". A resolução precisa fazer sentido, e deve ser o resultado das ações e reações dos personagens. Do contrário você somente atirará no lixo tudo o que veio antes deste final. Invalidará toda a luta do protagonista, diluirá todo o drama e destruirá tudo o que foi construído até então. Nada desrespeita mais o seu leitor do que isso.

Outra coisa importante: você não precisa atar todas as pontas soltas de sua trama, apenas as principais. Isso é importante especialmente caso seu livro venha a ter uma continuação ou faça parte de uma saga. Você pode deixar algumas perguntas sem resposta, desde que isso não invalide a resolução principal. Essas pontas podem criar um questionamento interessante, um "E se..." no canto do cérebro do leitor, que irá assombrá-lo por muito tempo.

E finais abertos. Eu adoro, mas é algo que precisa ser feito com muito cuidado. Existe um abismo entre um final aberto e uma história sem final. Sua história PRECISA terminar. Um final aberto deve ser uma consequência posterior à resolução da trama principal, que não será narrada. Um imenso "E agora?" pulsando na cabeça de seu leitor. Pode ser um gancho para uma continuação, mas não precisa ser necessariamente isso. Pode ser a compreensão das consequências da resolução no futuro dos personagens, ou mesmo do mundo no qual a história está inserida. Um final aberto deve ser um questionamento sem uma resposta simples, que permanecerá após o ponto final. Quando bem feito o resultado é espetacular. Caso contrário, de novo, só gerará frustração.
Ufa! Como eu disse, não é fácil. Mas, se você acompanhou todo o processo, desde sua concepção até aqui, tenho certeza que o trabalho será menos doloroso e as chances de sucesso maiores. Não há nenhuma garantia, é claro, mas você já tem os subsídios mínimos necessários para começar a efetivamente redigir sua história. Você já sabe o caminho que irá percorrer, já planejou cada elemento. Com quase certeza haverá surpresas e mudanças de rumo, mas a diferença é que você agora sabe o que mudar, e por quê.

No próximo artigo irei explicar como organizar todas essas informações de maneira coerente, criando um guia que irá acompanhar todo o processo criativo, justificando todo esse trabalho prévio e auxiliando na realização desta tarefa maravilhosa que é criar uma história. Estamos na reta final do planejamento, mas apenas começando a jornada da criação. Não esmoreça agora.

Até lá.


Este artigo é o décimo de uma série sobre a aplicação de metodologias no processo de escrita. O primeiro pode ser lido aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui, o quinto aqui, o sexto aqui, o sétimo aqui, o oitavo aqui e o nono aqui. Continuem ligados para ler os próximos. 

20 maio 2015

O Terceiro Ato: O Ataque

Chega.

Seu protagonista já sofreu o suficiente. Chegou no seu limite. Se passar desse ponto e não houver uma nesga sequer de esperança, ele vai quebrar. Vai enlouquecer. Vai desistir. E com ele, sua história. Algo deve acontecer no Ponto Intermediário, que encerra o Segundo Ato, que promoverá uma mudança em sua atitude. Pode ser uma nova informação importante, o descobrimento de uma arma especial, ou até mesmo uma epifania. Mas é preciso dar algo para que ele consiga se reerguer. Que possa voltar a lutar. Sair da defensiva e partir para o ataque.

Isso significa o fim de seu sofrimento? Claro que não. Ainda haverá dor, sacrifício e desespero pela frente. A diferença é que agora o protagonista não está apenas respondendo aos dramas que são atirados em sua direção. Agora ele está agindo, lutando pela resolução da trama, para encerrar a jornada de uma vez por todas, para o bem ou para o mal. Não será um caminho fácil. O antagonista irá sempre tentar reverter a situação, e na maioria das vezes será bem sucedido em seu intento. Mas o protagonista já saiu das cordas e há uma esperança, por menor que seja, de virar o jogo.
A diferença clara entre o segundo e o terceiro ato é postural. No segundo ato seu protagonista é apenas humano, reagindo e respondendo aos problemas e tragédias que são atirados em seu caminho. No terceiro ato ele deixa de ser um mero espectador e se torna um agente modificador da trama. Suas escolhas e atitudes devem refletir isso. Ele pode até morrer no processo, mas não será uma vítima. Ele será um herói.
Quando digo um "herói", não é no sentido cartunesco do arquétipo. Pode até ser, mas não se limita a essa definição. Ele não precisa ser um super-herói. Nem mesmo um herói para a humanidade. Talvez não seja um herói para ninguém além de si mesmo. Mas ele precisa ser um herói para a sua trama, para a jornada que está inserido, seja ela qual for. Um protagonista não pode ser uma mera testemunha. Ele deve ser o responsável direto pela resolução da trama, que ocorrerá no próximo ato. E para isso deverá superar seus próprios medos, traumas, demônios interiores, além de todas as dificuldades que são atiradas contra ele.

E haverá dificuldades. Aproximadamente no meio do terceiro ato deverá acontecer o Segundo Ponto de Pressão. Da mesma maneira que o primeiro, no ato anterior, algum evento acontecerá que irá relembrá-lo da presença do antagonista, e o que está em jogo no caso de uma derrota definitiva. Mas, diferente do primeiro ponto, que é uma fonte de desespero, desta vez essa pressão deverá motivá-lo. A água está batendo na sua bunda. Não há mais tempo para dúvidas. É hora de agir.

E perder novamente.
Neste momento pode acontecer o que eu chamo de uma cena "Tudo está perdido" (ou, em bom latim: "Fodeu, galera!"). Os planos deverão ser frustrados pelo antagonista, aparentemente eliminando toda e qualquer esperança de resolução.  Nada mais resta além do desespero. Todas as tentativas anteriores deram com os burros n'água. A derrota final é inevitável. Vamos todos morrer. Me abraça.
MAS (e sempre tem um "mas"), caso você tenha feito direitinho sua lição de casa, terá espalhado pistas por todo os atos anteriores. Pistas de uma resolução para aquele problema aparentemente insolúvel. Pistas que, combinadas, criam um fiapo mínimo de esperança. Um último torpedo, disparado por um fazendeiro que costumava caçar ratos Womp na juventude em Tatooine, e treinado por um velho cavaleiro Jedi, que deverá acertar uma saída de exaustão de apenas dois metros de diâmetro e detonar a Estrela da Morte. Um plano insano, improvável, contra todas as probabilidades de sucesso. Mas também a última esperança. É em torno deste plano que ele deverá juntar suas últimas forças, jogar suas últimas fichas. Deverá juntar toda informação relevante que puder, cada artefato ou aliado que tiver disponível. É tudo ou nada.
Esse plano desesperado deverá se tornar claro no Segundo Ponto de Virada, onde algum evento ocorrerá e dará ao protagonista os subsídios para sua execução. É a última chance de inserir algum fator importante à trama, uma informação relevante ou mesmo algum elemento novo. O ideal é que este novo elemento surja em consequência dos outros apresentados anteriormente, ou que seja uma soma deles.

Este ponto irá encerrar o terceiro ato e pavimentar o caminho para o quarto e último ato: a Resolução.

Mas isso é assunto pro próximo artigo.

Até lá.


Este artigo é o nono de uma série sobre a aplicação de metodologias no processo de escrita. O primeiro pode ser lido aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui, o quinto aqui, o sexto aqui, o sétimo aqui e o oitavo aqui. Continuem ligados para ler os próximos. 

18 maio 2015

O Segundo Ato: A Resposta


É hora de falarmos sobre sofrimento.

Sofrimento de seu personagem, não o seu, bem entendido. E, como consequência, sofrimento para o seu leitor. É hora de sujar as as mãos. De vestir o chapéu do sádico e distribuir bordoadas.
Se você foi bem sucedido(a) na construção do Primeiro Ato, seu leitor sabe quem é o protagonista (ou protagonistas), por quê deve torcer por ele, onde a história se passa, o que está em jogo, culminando no Primeiro Ponto de Virada, onde um evento importante ocorre e coloca a trama nos trilhos. Agora não há mais volta. Algo precisa ser feito. Tudo o mais é relegado a segundo plano. O protagonista precisa agir.

E fracassar. De preferência da maneira mais cruel e trágica possível.
Na vida real somos confrontados com decisões todos os dias. Algumas importantes, decisivas. Outras nem tanto. E somos obrigados a conviver com as consequências dessas decisões. Não há savegame nem checkpoint a qual recorrer no caso de uma catástrofe. Raramente alguma decisão equivocada pode ser revertida. Precisamos responder a essas mudanças de rumos.

E como respondemos quando somos confrontados com um evento importante? Geralmente o primeiro impulso é se retrair. Dar um passo para trás, analisar a situação, recolher informações. Precisamos de subsídios para tomar uma decisão a respeito do próximo passo. E é isso que seu personagem, como simulacro verossímil de um ser humano, deve fazer. Não é hora de heroísmos ainda. Se uma pessoa aleatória vem e te dá um tapa na cara, sua primeira ação é se surpreender. Depois vai tentar compreender o porque você foi agredido. Quem é aquela pessoa? Por quê ela te agrediu? Será que eu mereci esse tapa? Como devo agir de modo a evitar que eu leve novos tapas daqui pra frente?
Essa é a essência do segundo ato. Algo aconteceu no Primeiro Ponto de Virada. Algo importante, crucial. Algo que não pode ser ignorado, e o protagonista precisa lidar com isso. Lidar como? Ele ainda não sabe. Ele pode até saber quem é o responsável, mas ainda não compreende totalmente as suas motivações, nem sabe ao certo como resolver essa situação. Precisa de mais informações. Mas para conseguir essas informações, precisa garantir que continue no jogo. Para isso precisa se retrair, se reagrupar. Ele pode até tentar uma atitude desesperada (ou intuitiva) com o objetivo de resolver aquele problema, mas irá fracassar. Pelo bem de sua história, ele DEVERÁ fracassar. Até porque se sua tentativa funcionar, o antagonista é derrotado e a história acaba.
Não, ainda é muito cedo. Seu protagonista precisa sofrer. Ele precisa chegar ao fundo do poço, mas deverá cair aos poucos. E toda e qualquer tentativa de resolver seu problema apenas agravará a situação, o afastará ainda mais da resolução. Cada elemento da trama, cada nova informação relevante, servirá apenas para aumentar seu desespero. E é nesse desespero que irão aflorar seus medos, seus traumas, seus demônios interiores. É neste momento que conheceremos a fundo os personagens. Quem eles realmente são.

Mas não podemos esquecer de nosso antagonista (ou força antagonista). Sua história deverá correr paralelamente à do protagonista. Seu plano aos pouco deverá se revelar. E ele, em perfeito contraponto, deverá ser bem sucedido. Haverá um momento, aproximadamente no meio do segundo ato, onde uma vitória sua se tornará o Primeiro Ponto de Pressão para o protagonista. Já sabemos o que está em jogo, e o protagonista não está conseguindo resolver a sequência de eventos que surgem depois do Primeiro Ponto de Virada. Eis que, de repente, tudo piora. O antagonista se aproxima cada vez mais de seu objetivo, e há consequências diretas para o protagonista. Podem ser trágicas, podem ser estratégicas, mas precisam existir. Se antes as coisas estavam ruins, agora estão desesperadoras.
Uma coisa importante precisa ser dita: todo e qualquer sofrimento que você atirar em seu protagonista deve ter um motivo, um contexto inerente à trama ou à construção dos personagens. Qualquer forma de sofrimento deve mover a trama para frente, seja acrescentando uma nova camada de drama, seja apenas criando uma nova motivação aos envolvidos. Criar sofrimento apenas como fetiche, gratuito e desnecessário (ou seja, que não impulsiona a trama de alguma maneira), é apenas torture porn. Sensacionalismo barato. Mesmo que determinada cena possa até parecer gratuita, ela deve gerar consequências, deve fazer sentido no plano geral da história. Caso contrário, é descartável. Lembre-se: estamos fazendo o planejamento justamente para evitar esse tipo de coisa. Preste atenção.
Tudo isso culminará no Ponto Intermediário da trama. A grosso modo, no meio do livro. O Ponto Intermediário é bastante semelhante a um Ponto de Virada: algo ocorre - um novo evento, uma nova informação, uma epifania - e, de repente, todo o jogo muda novamente. Mas, desta vez, é algo aparentemente positivo, pelo menos para o protagonista. Surge uma luz no fim do túnel. Uma nesga de esperança, por mais ínfima e improvável que possa parecer. Mas esse evento se abrirá em um novo caminho - talvez uma resolução - para a trama. Deste momento em diante seu protagonista saberá o que precisa ser feito para resolver seu problema. Talvez até delineará seu plano.

É hora de parar de ser um mero humano, apenas respondendo aos empecilhos da vida, e se tornar um Herói, alguém dono de seu destino, alguém capaz de, por bem ou por mal, derrotar seu antagonista de uma vez por todas.

É hora do Terceiro Ato: O Ataque.

Mas isso fica para o próximo artigo.

Até lá.


Este artigo é o oitavo de uma série sobre a aplicação de metodologias no processo de escrita. O primeiro pode ser lido aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui, o quinto aqui, o sexto aqui e o sétimo aqui. Continuem ligados para ler os próximos. 

12 maio 2015

O Primeiro Ato: A Apresentação


Imagine que você tenha uma banda, e que está prestes a entrar no palco. Não é um show só seu. Você foi contratado para animar uma casa noturna. As pessoas estão ali para se divertir, não para vê-lo. Ninguém te conhece, não sabem se você é um puta músico ou apenas um medíocre dedilhador de notas. Eles estão dispostos a gostar de você, mas você precisa cumprir suas expectativas, ou mesmo superá-las, de modo a que eles saiam de suas mesas e lotem a pista. É preciso ganhá-los logo de cara, caso contrário o show será um fracasso, independente de sua capacidade musical. É preciso chegar chutando a porta. Não comece com uma balada melancólica. Não diga "Oi, nós somos...". Dispare um acorde aberto e mande o baterista marretar as peles.

É assim que uma história deve começar: agarrando o leitor pelo pescoço e arrancando seu fôlego. O grande erro da maioria dos iniciantes é demorar muito para chegar na trama, se perder em explicações, descrições e ambientações por páginas e páginas durante o primeiro ato. Aí, quando finalmente o protagonista entra na história que interessa e a trama pode fluir, você já perdeu grande parte de seu público. Não enrole. Seus leitores vieram. eles estão propensos a gostar de sua história. Não perca essa chance. Jogue-os sem piedade dentro da trama logo nas primeiras páginas. Depois você pode diminuir o tom, deixá-los respirar, explicar com calma o que está acontecendo. Mas quando esse momento chegar eles já estarão fisgados, e irão caminhar ao lado de seu protagonista até o final.

Essa é a função primordial do primeiro ato. Tudo o que você fizer terá esse objetivo. Você não terá uma segunda chance. Se até a décima página o seu leitor não estiver minimamente intrigado com sua história, ele irá abandoná-la. Pense como um leitor por um instante, e me responda: quantos livros você já abandonou logo no início porque a história simplesmente não engrenava? Você pode até se esforçar, dar mais uma chance, mas se até o final do primeiro quarto da história nada relevante acontecer, as chances de você abandonar o livro aumentarão exponencialmente.

São três coisas que precisam ser apresentadas ao leitor logo no primeiro ato: o Protagonista, a Ambientação e a Premissa. Ao final dos primeiros 25% da história eles precisam saber pra quem irão torcer, onde a trama se desenvolverá e, mais importante de tudo, sobre o quê é essa história. Esses termos não são negociáveis. Caso você falhe em entregar esses elementos logo no início, sua história naufragará e seus leitores a abandonarão. Não enrole. Não arraste sua trama. Apresente seu protagonista e seu objetivo logo que puder. Contextualize o quanto for necessário, mas não perca muito tempo tentando explicar toda a vida de cada personagem antes de entrar no que realmente interessa. Você terá tempo para se aprofundar depois. Lembre-se: "Quem?", "Onde?" e "O quê?". São essas as perguntas que precisam ser respondidas logo no início. Está anotando?
A soma destes elementos irá criar o GANCHO de sua história. Sem um bom gancho, seu leitor poderá escapar, então é essencial que você defina como será esse gancho durante seu planejamento. Apresente seu protagonista, sugira seus demônios interiores, seus objetivos individuais (mas de forma orgânica, sem cair no didatismo), em qual realidade ele está inserido e o que está em jogo caso ele fracasse. Tudo isso já deve estar no tabuleiro quando o Primeiro Ponto de Virada (Plot Point) chegar, marcando o final do primeiro ato. Se tudo for feito de maneira correta, quando seu leitor chegar a este ponto, ele já estará fisgado e não terá mais como escapar.
Para conseguir esse efeito, é preciso que seu primeiro ato disponha de algumas cenas chave:

  • Cena de Abertura: É quando seu protagonista deve ser apresentado. Ele não precisa aparecer, mas precisa ser ao menos mencionado. Sua presença deve ser sentida, e ele deve deixar já a sua primeira impressão. Quem é ele(a)? Como ele(a) é? Por quê ele(a) é importante? Por que devemos torcer por ele(a)?
  • Gancho Inicial: Algo já deve prenunciar o que acontecerá nos próximos atos. O antagonista (ou força antagonista) já deve dar sinais de sua influência, mesmo que apenas indiretamente. É aqui que a Premissa deve surgir. Não entregue o ouro ainda, mas mostre que haverá algo reluzente mais pra frente.
  • Incidente Incitante: Esse é opcional, mas sempre ajuda. Um evento que dará pistas do que acontecerá no Primeiro Ponto de Virada. Uma sugestão que prenuncia o conflito que se seguirá. Um incidente Incitante é sempre bom para reforçar ao leitor o que está em jogo.
  • Primeiro Ponto de Virada: É onde a trama realmente engrena. Algo importante deve acontecer, e esse evento irá virar a vida do protagonista de cabeça para baixo. Ele precisará sair de sua zona de conforto e lidar com esse problema. Não interessa o que ele quer fazer, mas sim o que ele precisa fazer. Tudo mais passará a ser secundário depois desse ponto. O drama foi inserido, o conflito apresentado, e algo precisa ser feito. Caso contrário, as consequências serão catastróficas.
De novo, esse primeiro ato não deve ultrapassar 25% de sua história. Caso dure mais do que isso sua trama irá se arrastar. Se for mais curta, será muito corrida. Seu primeiro ato será a base na qual toda sua trama será construída. Ele deve ser sólido e consistente. Planeje-o com cuidado. Adicione os elementos necessários, mas tome cuidado para não exagerar. Não se perca em detalhes e em descrições. Conflitos internos ou detalhes importantes da história pregressa dos personagens deverão ser explorados mais a fundo no segundo e no terceiro ato. Mas largue algumas pistas pelo caminho, algo que instigue a curiosidade. Você sabe para onde está indo. Agarre seu leitor pelo pescoço e guie-o por este caminho.
Mas não exagere!
No próximo artigo falaremos sobre o segundo ato, ou a Resposta do protagonista ao Primeiro Ponto de Virada. É aí que o bicho realmente pega.

Até lá.



Este artigo é o sétimo de uma série sobre a aplicação de metodologias no processo de escrita. O primeiro pode ser lido aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui, o quinto aqui e o sexto aqui. Continuem ligados para ler os próximos. 

08 maio 2015

A Essência da Estrutura


O que faz uma história funcionar?

Não estou (ainda) entrando no mérito da qualidade do texto, mas dos requisitos mínimos que transformam esse texto em uma história. Que ingredientes são necessários? Em qual quantidade? E em qual ordem devem ser colocados (ou apresentados) de modo a se transformar em uma história coerente e compreensível, quiçá apreciável?

Qualquer cozinheiro sabe que não basta juntar todos os ingredientes em um caldeirão e esquentar em fogo alto. Pode dar certo? Pode. Mas as chances são mínimas. É preciso atentar a cada detalhe, saber a hora certa de adicionar cada tempero, o tempo de cozimento, a temperatura necessária, a hora de parar.
O que fizemos até agora foi separar os ingredientes da história: Tema, Conceito, Premissa e Personagens. Todos esses elementos são essenciais, mas é preciso saber quando e onde usar cada um deles. Não basta pegar tudo isso e jogar dentro de uma página em branco para, como num toque de mágica, a história surgir. Não interessa o quão bom seja o Tema, o quão instigante seja o Conceito, o quão sedutora seja a Premissa e o quanto seus Personagens sejam bem construídos. Sem uma receita, um plano inicial, simplesmente não vai dar certo. Sua "história" não passará de uma colagem incoerente e ilegível de elementos desconexos, sem forma ou sentido.
Vamos fazer um exercício mental. Imagine que eu te dê uma pilha sortida de Legos. Você sabe, aqueles tijolinhos dinamarqueses que todo mundo já brincou pelo menos uma vez na vida. Dizem que é possível construir qualquer coisa com eles, então vamos colocar isso à prova. Toma, uma pilha de legos pra você:
Agora eu quero que você pegue essa pilha de legos e construa um Darth Vader, como esse aqui:
Vamos precisar de mais peças pretas...
Eu garanto a você que, fora a lâmina do sabre de luz, todo o resto foi feito juntando bloquinhos de lego, iguais àqueles da pilha que eu te dei. Estruturalmente são os mesmos elementos. Você acha que consegue fazer isso?

Não, não é uma comparação exagerada. É a diferença entre um aglomerado de elementos narrativos e uma história. E o objetivo aqui é escrever uma história, não é? É construir algo que faça sentido a algum receptor. Histórias, tal qual estátuas de Lego, necessitam de um plano para serem realizadas. Quantas peças serão necessárias, de quais cores, em que ordem serão montadas?

De novo, dá pra fazer isso na louca, intuitivamente? Dá. Mas as chances de fracasso são muito maiores que de sucesso. E o trabalho será muito maior, para um resultado que, no final, pode ser apenas razoável (artistas têm a tendência à auto-condescendência quando perdidos). E não queremos isso, queremos?
Então necessitamos de um plano. Algo que sustente todos os elementos e dê sentido a cada uma delas. Precisamos de uma estrutura para a história.

Você provavelmente já ouviu falar da famosa Estrutura de Três Atos, defendida pelo roteirista Syd Field. Apresentação, Confronto e Resolução. Toda história que pode ser definida assim possui estes elementos básicos. Joseph Campbell detalhou uma estrutura mais complexa em sua Jornada do Herói. Essas são estruturas conhecidas e que já comprovaram que funcionam. Você pode tentar inovar o quanto quiser em termos narrativos, mas no fundo o resultado será o mesmo. Mesmo histórias como Amnésia ou Irreversível, que são contadas do fim para o começo, ou narrativas não lineares como Matadouro 5 ou Pulp fiction, acabam caindo neste arcabouço. Não há como fugir.
Larry Brooks, em seu livro Story Engineering, sugere uma expansão da estrutura tradicional de três atos. Para ele, o segundo ato (Confronto) precisa ser dividido em dois: A Resposta e Ataque. Essa divisão, como veremos a seguir, faz todo o sentido, então vamos adotá-la. Assim, temos quatro atos básicos (Apresentação, Resposta, Ataque, Resolução) e cada ato é pontuado por pontos de virada (ou Plot Points), pontos de pressão, ganchos, incidentes incitantes e momentos que adicionam o tempero necessário para que a trama evolua. Em resumo:

  • Apresentação: Quando o protagonista, coadjuvantes e cenário são apresentados. Há um prenúncio da trama e do conflito que ocorrerá nos próximos atos, e o leitor descobre o que está em jogo (o destino da humanidade, a vida de um ente querido, a sanidade do protagonista, etc.). Deve estar presente um gancho que irá prender sua atenção logo no começo. Pode ser um incidente incitante, que já começa a mostrar sobre o que a história tratará. Termina no primeiro ponto de virada (Plot Point), que é o ponto sem retorno para a trama. Agora a história começou de verdade, e os personagens terão que fazer alguma coisa a respeito.
  • Resposta: Mas fazer o quê? Tudo que aconteceu no primeiro ato serviu para tirar o protagonista de sua zona de conforto (lembre-se da Jornada do Herói) e ele (ou ela, ou eles) agora precisa reagir. E fracassar. O antagonista (ou a força antagonista) agora deve estar bem claro, e as consequências do fracasso devem se fazer presentes. Novos elementos deverão ser apresentados, e o conflito deve crescer até o limite da ruptura emocional. Pode-se adicionar um ponto de pressão, que aumenta as apostas e cria um novo grau de desespero. No ponto central da história o todas as peças devem estar no tabuleiro. Agora só há um lugar pra correr.
  • Ataque: O protagonista sabe o que precisa ser feito. E o fará. Ele, pela primeira vez na história, pega nas rédeas da situação. Ele tem um plano. Para de simplesmente reagir e parte para o ataque, disposto a resolver esse conflito de uma vez por todas. Ele pode ou não ser bem sucedido em seu intento, não importa. Pode-se adicionar aqui um novo ponto de pressão, ou mesmo um momento "Tudo está perdido", que aumentará o drama. Elementos chave, prenunciados nos dois primeiros atos, poderão mostrar sua influência, ou mesmo levar a novos elementos. Esse ato terminará no segundo ponto de virada, onde serão avaliados os sucessos e fracassos do plano do protagonista e do antagonista, deixando a ambos poucas opções. É o momento que conduzirá a história a seu inevitável clímax.
  • Resolução: A trama precisa se resolver, para o bem ou para o mal. Planos e ações deverão chegar a um resultado. Todas as peças estão no jogo, e nenhum elemento novo poderá ser adicionado. Pontas soltas devem ser atadas, tramas resolvidas e a história deverá chegar a um inevitável fim.
É importante perceber que, sem uma estrutura sólida, sua história não vai funcionar. Você pode escolher o modo que quer contar a história, adicionar atos ou elementos novos, mas não pode negligenciar pelo menos esses pontos essenciais. Retire qualquer um deles e sua trama desabará. Ela nem poderá ser considerada uma história, pra princípio de conversa. 
Então, antes de começar a escrever os capítulos, escreva o plano inicial. Defina o que irá acontecer em cada ato, quais serão os pontos chave da trama, como ela começa, como se desenvolve e como termina. Nada impede que você mude tudo isso durante a execução, mas é essencial saber para onde vai antes de começar a andar.

Nos próximos artigos irei detalhar cada ato individualmente, bem como explicar com mais calma cada um dos pontos chave, de modo a criar um plano básico para a sua obra.

Até lá.



Este artigo é o sexto de uma série sobre a aplicação de metodologias no processo de escrita. O primeiro pode ser lido aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui e o quinto aqui. Continuem ligados para ler os próximos. 

04 maio 2015

O Interrogatório Interior


Por favor, sente-se. Fique à vontade. Quer uma água, um café, um refrigerante?  Um bourbon duplo com soda?

- Não, eu... Cara, onde eu estou? Quem é você?

Eu faço as perguntas, se você não se importar. Quem eu sou e onde estamos não é relevante. Não estamos aqui para falar de mim, mas de você. Estamos aqui para nos conhecer um pouco melhor. Quer dizer, pra eu conhecê-lo um pouco melhor. Muito melhor. Na verdade estamos aqui para conhecê-lo a fundo.

- Eu estou sendo acusado de alguma coisa?

Está? Não sei, você me diz. Você já cometeu algum crime? Algo que tenha se arrependido?

- Eu quero um advogado.

Sem advogados. Sem intermediários. Somos apenas eu e você aqui, e é assim que vai ser. Vou te fazer uma série de perguntas e você vai respondê-las com toda a sinceridade. Como se sua vida dependesse disso. Porque ela depende, pode acreditar.

- O que você quer saber?

Quero saber tudo. Cada detalhe sórdido, cada trauma, mesmo que pareça irrelevante. Cada mania, cada trejeito, cada história que você testemunhou ou vivenciou.

- E por que eu faria isso?

Porque você não tem escolha. Porque você ainda não existe. Só existirá depois que responder às minhas perguntas. Até lá você será apenas um esboço, um conceito abstrato. Serão suas respostas que irão justificar sua existência, e irão determinar como será sua vida a partir de então. Desse modo, sugiro que você sente, relaxe e me conte tudo o que eu quero saber, tudo o que eu preciso saber. Caso contrário você retornará ao limbo amorfo da não-existência. Ou pior.

- E se eu me recusar?

Você não pode. Você não quer recusar. Estou lhe dando a oportunidade de se tornar algo. A alternativa é óbvia. Eu poderia te hipnotizar, injetar um pouco de soro da verdade, lançar um feitiço, te enrolar no laço da Mulher Maravilha, tanto faz. O que você preferir. O que for necessário. Mas você só sai daqui depois de responder minhas perguntas. Todas elas.

- Quem é você?

Eu sou quem irá contar sua história, que irá transformá-la em realidade. Eu irei pegar tudo o que você me der e misturar, bater, moer e destrinchar até virar polpa. Eu depois irei dar um sentido à essa polpa, e, por consequência, à sua existência.

- E eu serei o herói dessa história?

Pode ser. Pode não ser. Depende. A única coisa que posso garantir é que você será o protagonista de sua própria história.

- Somos todos protagonistas de nossas próprias histórias.

Agora você está me entendendo. Podemos começar?



E é assim que deve iniciar a sabatina com todos os seus personagens principais. Um bom personagem, seja ele protagonista, antagonista ou coadjuvante, deve gerar empatia no leitor. E para que isso aconteça é preciso haver algum tipo de identificação, algo que justifique seus atos, suas decisões, sua existência. E para que isso ocorra é preciso começar a tratá-los como seres vivos. Conversar com eles. Colocar-se em seus lugares, compreendê-los da maneira mais completa possível.

A técnica do "interrogatório" é eficaz pois coloca o personagem em uma situação vulnerável, onde ele deverá se abrir ao escritor sem nenhuma ressalva. Ele deverá contar tudo, desde eventos históricos, passando por ideologias e visões do mundo, chegando até a traumas e segredos que ele nunca compartilhou com ninguém antes. Serão esses detalhes, a soma deles, que transformará seu personagem de um rabisco mal ajambrado em uma pessoa viva, com objetivos, motivações e obstáculos claros. Que o tornarão verossímil, tridimensional.
Falando em dimensões, nesse processo você deverá passar por todas elas antes de poder considerar seu personagem como criado. Como vimos nos artigo anterior, as três dimensões do bom personagem são:

  • Primeira dimensão: Como ele é visto pelos outros.
  • Segunda dimensão: Como ele se enxerga, graças à sua história de vida.
  • Terceira dimensão: Como ele realmente é, ou como ele age quando está sob pressão.

A primeira dimensão é a mais simples, mas nem por isso deve ser tratada com descaso. Há diversas técnicas para criar a aparência exterior de um personagem. Você pode escolher a que quiser, mas é importante que escolha pelo menos uma. Crie uma ficha de personagem, faça um desenho, uma escultura de argila, tanto faz. Mas faça. Descubra como seu personagem se parece e como ele se mostrará ao mundo que você irá inseri-lo. Visualize-o. Adicione manias, trejeitos, detalhes característicos.

Coloco abaixo uma boa lista para se começar. Sinta-se à vontade para incluir ou excluir o que achar relevante, mas preencha-a:

  • Dados Catalográficos:
    • Apelido (Como o personagem é chamado por outras pessoas), Nome completo, Idade, Nacionalidade/Naturalidade
  • Aparência:
    • Altura, Peso/Tipo físico, Cor da pele, Cor dos cabelos, Cor dos olhos, Tipo de vestuário
  • Características marcantes:
    • Cicatrizes, Deficiências aparentes, Tatuagens, Piercings, etc.
  • Atributos Sociais
    • Profissão, Onde estudou, Renda, Bens, Relacionamento atual, Hobbies/Interesses.

Este é um bom começo, mas ainda é pouco. Um protagonista ou um antagonista é muito mais do que isso. Se você parar aqui terá o que os críticos adoram rotular de "monodimensional", "superficial" ou simplesmente "ruim". Para evitar que isso aconteça, precisamos cobrir a segunda e a terceira dimensões. E é aí que o processo do "interrogatório" brilhará. Relembre a cena lá em cima. Imagine-se com o seu personagem em uma sala vazia. Somente você e ele. Você cheio de perguntas e ele repleto de respostas, e incapaz de mentir ou esconder qualquer coisa. É sua oportunidade de conhecê-lo a fundo, descobrir tudo a seu respeito, tudo o que ele fez ou vivenciou e que o transformou no que ele é hoje, no que ele será no princípio de sua história. Aproveite essa oportunidade. Mergulhe fundo. O mais fundo que conseguir. Não negligencie nenhum detalhe, por mais irrelevante que possa parecer. A solução para um bloqueio pode estar nesse detalhe. Você já tem um Tema, um Conceito e uma Premissa. Use isso a seu favor. Pense em seu personagem nesta história que está sendo gestada, mas permita que ele tenha uma história própria, mesmo que elas sejam interdependentes (e elas são, não se esqueça!).

Tá, e quais as perguntas eu devo fazer, você deve estar se questionando. É ótimo pensar assim. Você está indo a uma entrevista crucial com um personagem importantíssimo da história que irá escrever pelos próximos meses ou anos. Tal qual um bom jornalista, é bom ir preparado. Saber o que perguntar é essencial. Larry Brooks, em seu livro "The Three Dimensions of the Character" lista uma série de perguntas básicas que devem ser feitas sobre o personagem, que traduzo abaixo (com uma pequena adaptação para fazer sentido no contexto do interrogatório):
  • Qual é a sua história pregressa, suas experiências que programaram como você pensa, sente e age hoje em dia?
  • Qual é o seu “demônio interior”, e como isso influencia suas decisões e ações frente aos “demônios exteriores” que serão lançado a você?
  • Você tem algum ressentimento?
  • Como você se sente a respeito de si próprio(a), e qual a distância entre este sentimento e a maneira que outras pessoas pensam a seu respeito?
  • Qual é a sua visão do mundo?
  • Qual é a sua bússola moral?
  • Você é benevolente ou ganancioso(a)?
  • De que maneira você adere a gêneros ou estereótipos?
  • Se não adere a nenhum, de que maneira você se diferencia?
  • Que lições de vida você ainda não aprendeu?
  • Que lições aprendeu, mas as rejeitou ou falhou em aprender?
  • Quem são seus amigos?
  • São intelectualmente similares a você?
  • Qual é o seu QI social?
  • Você é tímido(a)? Ansioso(a)? Descontraído(a)? A Alma da Festa? Introvertido(a)?
  • Qual é o seu desejo mais secreto?
  • Qual sonho de infância nunca se realizou e por que?
  • Qual é o seu sistema de crenças ou religiosidade?
  • Qual é a pior coisa que você já fez?
  • Você tem segredos? Talvez uma vida secreta?
  • O que as pessoas mais próximas a você não sabem a seu respeito?
  • O que o(a) faz postergar uma tarefa, procrastinar?
  • Alguma pessoa ou evento já impediu seu avanço pessoal?
  • Quantas pessoas iriam a seu funeral? Por que alguém decidiria não comparecer?
  • Qual o seu aspecto mais improvável ou contraditório?
  • Quais são suas manias ou hábitos?
  • O que o(a) diferencia do resto das pessoas? Que ponto de sua história pregressa o(a) levou a isso?
  • Você tem alguma cicatriz psicológica que afeta sua vida?
  • Como você age quando está sob pressão?
Nada impede que sejam incluídas outras perguntas, para fins de maior aprofundamento, mas no mínimo essas devem ser respondidas. Escreva as respostas. Não as mantenha no campo das ideias. Faça seu personagem respondê-las. Isso, além de ajudar você a compreender seu personagem, irá auxiliá-lo a encontrar sua voz.

Muito importante: não tenha pressa. Desfrute esse momento de intimidade entre você e o seu personagem. Quanto mais tempo você investir nesse processo, melhor será para sua história. Um personagem bem construído, bem estruturado, irá impelir sua trama. Ele será a carne e os músculos de sua narrativa. E quanto mais você conhecê-lo, menor a chance de ficar bloqueado ou usar a desculpa esfarrapada de que "perdeu o controle do personagem". Isso é uma bobagem. Se você perdeu o controle é porque nunca o teve, pra início de conversa. Reverta essa situação. Você e seus personagens irão passar muito tempo juntos, então é bom que sejam íntimos. Permita-se essa intimidade.

Terminado o processo de criação de cada personagem principal (primários e secundários), é hora de sentar e colocá-los em algum lugar. E é importante que esse lugar seja sólido, resistente o suficiente para suportar eles e a sua trama. É importante que sua história tenha uma estrutura. De nada adiantará jogar personagens bem construídos em uma realidade desconjuntada, sem objetivos ou fronteiras claras. Se os personagens são a carne e os músculos, a estrutura é o esqueleto, o que sustentará sua história. E é disso o que falaremos no próximo artigo.

Até lá.


Este artigo é o quinto de uma série sobre a aplicação de metodologias no processo de escrita. O primeiro pode ser lido aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui. Continuem ligados para ler os próximos. 

27 abril 2015

A Dupla Tríade do Personagem Único

"Quando escreve um livro um escritor deve criar pessoas vivas; pessoas, não personagens. Um personagem é uma caricatura." - Ernest Hemingway
O que é mais importante em uma história, a trama ou seus personagens?

Essa é uma questão que gera discussões acaloradas dentro dos chamados "círculos literários". Defensores da "alta literatura" (seja lá o que isso signifique) defendem que os personagens são o elemento mais importante de uma obra. Já os partidários da "literatura de gênero" (seja lá o que isso signifique) advogam justamente o contrário.

E qual deles está certo? Não sei. Não me importa. A única coisa certa aqui é que não há consenso. Sendo assim você, como escritor(a), deve decidir qual dos elementos dará mais importância por conta própria.

Mas, caso esteja disposto a aceitar uma sugestão (e, se você chegou até aqui, acredito que esteja) você não deveria entrar nessa disputa. Para o bem de sua história.
Explico: Ambos os elementos - personagens e trama - devem ter o mesmo grau de importância. Tender para qualquer lado irá apenas desbalancear sua história. A importância de uma obra é medida por sua perenidade, ou seja, pelo que permanecerá com o leitor após o término de sua leitura. Uma trama excitante com personagens fracos será tão descartável quanto uma trama frouxa e incoerente permeada de personagens bem construídos. O segredo não está em dar mais valor a um ou outro elemento, mas balancear uma trama bem resolvida com personagens marcantes. Qualquer coisa abaixo disso e sua obra fracassará no desafio do tempo.
Tendo isso em mente, é hora de investir um tempo na criação de seus personagens. Você já tem uma Premissa, construída com o auxílio do Tema e do Conceito (se não tiver, volte três casas). Nessa premissa deve ter sido delineado seu(sua) protagonista. Talvez um antagonista também. É com eles que você deve começar, mas não pode parar apenas neles. É hora de construir o elenco que irá sustentar sua trama, que irá vivenciá-la. Basicamente, há três tipos de personagens:

  • Primários (Protagonistas e Antagonistas): Estes são a essência de sua obra. É através de suas ações, reações e decisões que a trama se centrará. Seus destinos serão o ponto central da história, bem como as consequências de seus atos. Tudo girará em torno deles. Torceremos pelos protagonistas e contra os antagonistas. Eles serão o alvo de nossa empatia. Toda história PRECISA ter um ou mais protagonistas e uma força antagonista (que pode ou não ser uma pessoa). Sem esse embate não há conflito. Sem conflito não há história. 
  • Secundários (Coadjuvantes): Os coadjuvantes não são o centro de sua história, mas ainda assim eles serão essenciais para o andamento da trama. São eles que irão auxiliar e/ou atrapalhar tanto protagonistas quanto antagonistas. Eles darão apoio ou motivação de forma direta ou indireta. Serão confidentes, traidores, vítimas, portos seguros. Orbitarão os protagonistas e antagonistas em diversos momentos, seja auxiliando ou colocando tudo a perder.
  • Terciários (Apoio): São aqueles que surgem apenas em alguns momentos da trama, seja para dar verossimilhança a alguma cena, seja para apenas fazer figuração, mas aparecerão e desaparecerão quando necessário. Poderão ter envolvimento indireto na trama, mas isso não é um pré-requisito.

No processo de planejamento é essencial construir de forma abrangente os personagens primários. É importante também trabalhar bastante nos secundários, mas não precisa chegar ao grau de detalhismo dos primários. Já os terciários podem ser criados on the fly, ou durante a construção da trama. Mas é muito importante ter personagens primários e secundários bem construídos antes de começar a escrever.

Tenho certeza que você já deve ter ouvido sobre a importância de construir "personagens tridimensionais" para a sua obra, de modo a evitar maniqueísmos e superficialidades. Eu concordo, mas o que são personagens tridimensionais? Quais são as três dimensões que definem um bom personagem?
Dica: Não são essas.
Na geometria as três dimensões que definem um objeto são altura, largura e profundidade. Na criação literária as dimensões são dadas apenas pela profundidade que penetramos na psique de nosso personagem. Assim, as três dimensões do personagem são:

  • Primeira dimensão: Como o personagem é visto pelos outros.
  • Segunda dimensão: Como o personagem se enxerga, graças à sua história de vida.
  • Terceira dimensão: Como ele realmente é, ou como ele age quando está sob pressão.

Na primeira dimensão temos o trato mais superficial de sua personalidade. Como ele se veste, qual sua aparência, trejeitos, como ele fala, no que trabalha, etc. É a casca que ele apresenta ao mundo. E sim, é importante definir esses traços, pois será através deles que o personagem irá interagir com outros personagens.

Já na segunda dimensão penetramos mais um pouco. Aqui definimos ideologias, traumas, recordações relevantes, neuras, manias. Debaixo de nossas cascas todos temos um arcabouço de memórias, experiências e eventos que auxiliaram na construção do que somos. Todas as nossas decisões e atitudes podem ser justificadas por estes elementos, então é importante dar a seu personagem um histórico, uma vida pregressa, uma série de eventos que contribuíram em sua formação até o momento que ele entra na sua história.

E a terceira dimensão? Bom, esta é a que realmente o bicho pega. É aqui que um personagem deixa de ser um amontoado de características e memórias, e "cria vida" (por favor, note as aspas). Porque não interessa o quanto tenhamos vivenciado ou nos esforçado para acreditar em determinada coisa, quando o momento crucial chega, quando precisamos tomar uma decisão de vida e de morte, quando estamos no fio da navalha, é aí que mostramos nossas verdadeiras cores. Um pacifista pode causar uma guerra mundial. Um notório covarde pode realizar um ato heroico. Um gênio pode chegar a uma conclusão estúpida, pelo qual todo o Universo sofrerá as consequências.
"Por quê eu não matei Isildur quando tive chance?"
Mas não pense nisso como algo arbitrário. A terceira dimensão é a soma das duas primeiras, mas com uma pitada extra de tempero, algo inesperado até mesmo para o próprio personagem. E é nessa pitada que está a diferença entre um personagem bom e um inesquecível.

Parece complicado? E é, pode acreditar. Ninguém disse que seria fácil, ou que eu daria aqui todas as respostas (até porque não as tenho). Mas no próximo artigo explicarei uma técnica que, mesmo não sendo infalível, irá auxiliá-lo na criação de personagens tridimensionais.

Até lá.


Este artigo é o quinto de uma série sobre a aplicação de metodologias no processo de escrita. O primeiro pode ser lido aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui. Continuem ligados para ler os próximos. 

23 abril 2015

A Promessa da Premissa


Muito bem, já temos um Tema, já elaboramos um Conceito, é hora de escarafunchar um pouco mais, abanar a neblina, assoprar a poeira e ver o que tem de verdade nessa coisa que chamamos de história. É hora de começarmos a nos comprometer com o que realmente será escrito. É hora de estabelecer uma PREMISSA.

E o que é uma premissa? Pode ir no dicionário dar uma olhada se quiser (Aliás, esse é um hábito muito saudável). Já olhou? Entendeu? Legal. No nosso caso específico, a premissa será o fator que irá vender sua história. Sim, isso mesmo.
"Mas eu nem comecei a escrever a história e você já quer vendê-la?". Calma, pequeno gafanhoto. Primeiro, como eu já disse no artigo anterior, você já está escrevendo a história. Segundo, estamos falando mais em termos de gerar atrativos do que de cifras e montantes.

Sua história precisa ser "comprada" por seus leitores. Eles precisam sentir um comichão irresistível para saber como ela se desenvolverá, e como terminará. Ele se interessou pelo tema, foi paquerado pelo conceito. Agora é hora de dar o bote e agarrá-lo. E a arma para isso é a premissa.

Uma premissa precisa se comprometer. Agora é hora de delinear efetivamente QUAL a história será contada. Entrar mais no detalhe, delinear um pouco mais os personagens e tudo aquilo que torna sua história interessante e instigante o suficiente para ser lida.

Tá, mas como fazer isso? Não é fácil. Temos pouca matéria prima em mãos ainda (de novo, apenas Tema e Conceito). Precisamos de mais coisas, de mais ferramentas. Bom, aqui uma lista do que uma boa premissa DEVE conter:

  • Um (ou mais) Protagonista(s): É hora de pensar na figura que impulsionará nossa história, que levará as bordoadas da trama e carregará nossa empatia até o ponto final. Mas não se preocupe com muitos detalhes ainda. Nesta etapa pode se ater à primeira dimensão (explicarei sobre dimensões de personagens no próximo artigo). Use arquétipos. Mas, se puder (e isso puder ser relevante para a trama), adicione um twist: "Um açougueiro vegetariano", "Uma freira com tendências sadomasoquistas", etc.
  • Cenário: Toda história se passa em algum lugar, e em alguma época. Diga onde e quando sua trama se desenrolará, mesmo que ela se passe em diversos lugares e épocas diferentes. Cite todos, se for necessário. "São Paulo, início do século XXI", "China, 250 a.C.", "Tralfamadore, do Big Bang à Entropia".
  • O Primeiro Ponto de Virada: ou, em bom português, Plot Twist. Um ponto de virada é quando a vida pregressa do protagonista vira do avesso e ele precisa agir. É o primeiro impulso da história, algo que a transforma de um simples retrato prosaico em uma trama, em uma sequência de eventos que puxarão seus leitores do primeiro parágrafo até o ponto final.

Só isso. Tudo isso. Se estes elementos forem adicionados, você terá uma premissa. Junte tudo em poucas frases, se possível. Mas não negligencie os detalhes. Aqui, mais do que nunca, o Diabo está nos detalhes. É hora de correr riscos, de elevar a barra. Não tenha medo.

Vou exemplificar. Imaginem a premissa abaixo:
Após a morte de seu marido, uma mulher vasculha seus e-mais e descobre um segredo terrível que virará sua vida de cabeça para baixo.
É uma premissa? É. Tem uma protagonista (a viúva), um cenário básico (é um trama contemporânea) e o primeiro ponto de virada (a descoberta dos e-mails comprometedores).

Agora, é uma boa premissa? Ela te deu vontade de continuar, de descobrir como a história se desenvolverá? Não, pois é genérica demais. Quem era o marido? Qual o segredo? Não precisa entregar todo o ouro, mas algo precisa ser dito, algo que seduza, que atice a curiosidade do leitor.

Vamos tentar de novo:
Após o assassinato de um milionário filantropo, sua viúva, ao ter acesso aos e-mails do marido, descobre que ele talvez esteja envolvido em uma rede de tráfico de escravas sexuais. Para desvendar essa história ela viajará pelos recantos pobres do Brasil até bordéis na Tailândia, numa experiência que colocará em xeque suas convicções conservadoras e sua própria sexualidade.
Pronto, já melhorou. Um milionário filantropo envolvido em tráfico de mulheres? Uma viúva conservadora em uma jornada para a descoberta tardia da própria sexualidade? ESSA é uma história que eu queria ver desenvolvida. Perceba a diferença: na primeira tentativa qualquer história podia se encaixar nela. Era uma premissa fraca, frouxa, descomprometida. Pouco mais que um conceito. Já a segunda instiga uma série de perguntas, que sua história precisará responder. Os personagens ainda estão pouco delineados, mas já há um direcionamento maior. Sabemos QUAL história será contada.

Deu vontade de escrever, não deu? Essa é a função da premissa. É seduzir não apenas um leitor hipotético, mas também o(a) escritor(a). Tema, Conceito e Premissa são ferramentas essenciais no processo criativo. Um Tema leva à um Conceito, que se solidifica em uma Premissa. Vapor, água e gelo. O etéreo começa a tomar forma, mesmo que ainda necessite de uma boa lapidação para se tornar arte.

E qual o próximo passo? Você adivinhou: Construção de Personagens. Mas isso é o assunto do próximo artigo.

Até lá.


Este artigo é o quarto de uma série sobre a aplicação de metodologias no processo de escrita. O primeiro pode ser lido aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui. Continuem ligados para ler os próximos. 

15 abril 2015

A Conceituação do Conceito

"Escritores são pessoas desesperadas e quando elas deixam de ser desesperadas elas deixam de ser escritoras." - Bukowski
Talvez lendo os artigos anteriores desta série você tenha se perguntado: E quando é que vamos sentar e escrever? Afinal um escritor é uma pessoa que escreve, não é mesmo? Por que perder tanto tempo com detalhes que poderão mudar a qualquer momento, que me impedem de despejar no papel todas as histórias que estão fervilhando em minha cabeça? Histórias têm personagens, tramas e reviravoltas. Todo o resto aparecerá durante a realização. No máximo durante a revisão. Por quê não estamos escrevendo então? Por quê? POR QUÊ?!
Então deixa eu te contar uma coisa: Você já está escrevendo sua história. A diferença é que aqui você está deixando de lado toda essa coisa de tentativa-e-erro (e correção e revisão, e re-revisão, e etecéteras e tais) e está preparando o terreno antes de efetivamente sentar e escrever. É o que difere um escritor intuitivo de um planejador (como vimos no primeiro artigo dessa série). É a diferença entre simplesmente escrever e criar uma história envolvente, coerente e publicável.

Aqui cabe uma analogia. Imagine um pintor de quadros. Ele tem uma ideia para uma pintura, fruto de uma inspiração, ou encomenda, ou mesmo do tédio, tanto faz. Antes de sair despejando suas tintas na tela, ele fez estudos, esboços, rascunhos. Experimenta técnicas, se sentir que precisa. Faz todo um planejamento prévio já que terá pouca ou nenhuma chance de corrigir a obra depois que a tinta secar. Só quando está seguro do que pretende fazer, de como vai fazer,  é que ele monta o cavalete, separa suas tintas, escolhe os pincéis, limpa o godê e veste a boina.

Qualquer atividade é assim, sejam elas mais ou menos artísticas. Há a intenção, o planejamento e a realização. Cada qual em sua devida ordem, ou a chance de que o resultado saia satisfatório caem drasticamente. Um cirurgião que não planeja a operação nos seus mínimos detalhes corre o sério risco de perder o paciente. O engenheiro que só sai empilhando tijolos é, no mínimo, irresponsável. Toda atividade necessita de três coisas: conhecimento, planejamento e ferramentas.

Por quê com a literatura seria diferente?

No artigo anterior eu expliquei a primeira dessas ferramentas: o Tema. Ele será o norte que sua bússola apontará, que dará direção à sua história. Mas um tema não é o suficiente para que você comece a escrever. Não ainda. Um tema é apenas uma ideia, uma fagulha inicial. É preciso expandir o tema. Ampliá-lo. É preciso estabelecer um CONCEITO para a sua história.
E o que é o conceito de uma história? Um conceito é um pouco mais do que um tema, e um pouco menos do que uma premissa (veremos sobre premissas no próximo artigo). Um bom conceito estabelece as fronteiras do tema e planta a semente da história. É aquele que já começa a traçar as linhas gerais, mas sem se aprofundar na trama ou nos personagens ainda. É o desenho com grafite duro na folha de rascunho, voltando à analogia do pintor.

É quando você se faz uma pergunta do tipo "E se...?", descrevendo um cenário hipotético qualquer. E essa pergunta desencadeia uma série de perguntas semelhantes. E é dessas perguntas, dessa ânsia em respondê-las, que surgirá a história.

Deixe-me exemplificar. Abaixo listo alguns conceitos de histórias já escritas. Tenho certeza que você será capaz de reconhecê-las:
  • E se um rapaz fosse picado por uma aranha radioativa que desse a ele as habilidades de um aracnídeo?
  • E se o mundo estivesse dominado por máquinas que transformaram os humanos em baterias, e a realidade nada mais fosse que uma elaborada simulação implantada em nossos cérebros?
  • E se, em um mundo fantástico habitado por cavaleiros e dragões, um rei morresse e deixasse o trono para seu filho, sem saber que na verdade o garoto é fruto de um incesto de sua esposa com seu cunhado, culminando em uma guerra pela sucessão?
  • E se um casal de adolescentes apaixonados, vindos de famílias rivais, forjasse um pacto de suicídio que os levaria realmente à morte?
Deu pra entender, não deu? Perceba que os personagens, mesmo que em alguns casos tenham sido referenciados, na verdade não foram realmente construídos. São apenas esboços. O que interessa aqui não é quem irá ter sua história narrada, mas O QUÊ será contado, de onde partirá a história. Todo o resto, as tramas, subtramas, reviravoltas e conclusões germinarão deste primeiro conceito.
É importante destacar que, diferente de um tema, que permite a inclusão de diversos subtemas ao tema central, um bom conceito não tem essa flexibilidade. Uma história com diversos conceitos na verdade não tem nenhum. Estabeleça um conceito, expanda-o o quanto for necessário, mas mantenha o foco, ou sua história ficará desgovernada e sem sentido. 

Outra coisa: Seu conceito não precisa ser diretamente relacionado a seu tema, mas deve, de alguma forma, remeter a ele. Isso é essencial, ou então de nada valerá esse esforço inicial. Lembre-se: sua história existe para que você trate do tema escolhido, e o conceito é a uma de suas ferramenta para este fim.

Faça você este exercício. Tente extrair o conceito de alguma história que você já tenha lido ou de algum filme que tenha assistido. Lembre-se: não é hora de colocar personagens nem trama. Apenas fazer perguntas hipotéticas a respeito da história.

Depois faça isso com aquela história que você está matutando há tempos, aquela que você quer escrever.

Mas não faça isso apenas em sua mente. Sente e escreva. Abra um bloco de notas e coloque em palavras. Trace o primeiro esboço. Faça as perguntas certas. Algumas apenas, que deixarão você (e, se tudo der certo, seu leitor) intrigado a respondê-las. Coloque o máximo de drama possível, o máximo de tensão que puder colocar em um conceito hipotético. É a hora de pirar o cabeção. Cadê aquele uísque?

Algumas dicas:

  • Conceito não é sinopse! Esse é um erro comum. O conceito não é sobre o personagem, é sobre a história onde os personagens estarão circunscritos. É um questionamento que o fará pensar no que você faria naquela situação. Fique tranquilo que você escreverá a sinopse em breve.
  • Tenha culhões. Evite conceitos genéricos e sem brilho. "Garoto sai de casa e vive grandes aventuras" não é um conceito. "E se um garoto fugisse de casa para escapar de um pai abusivo e entrasse em uma gangue de viajantes do tempo?" é muito mais instigante, por exemplo.
  • Adicione Drama e Conflito. Sei que é difícil, em linhas conceituais, explorar o drama e o conflito, mas dentro dos limites estabelecidos é possível sim já prenunciar o que virá. Sua história precisará de drama e conflito para funcionar. É hora de dar uma pista sobre quais dramas e conflitos surgirão. "E se uma prisioneira de um campo de concentração nazista fosse obrigada por seus captores a escolher qual de seus dois filhos irá sobreviver?". Alguém tem dúvida que há drama e conflito nesse conceito?
  • Não exagere. Temos a tendência de expandir tudo o que sentamos para escrever. Se sua história está implorando para ser escrita (e lida), isso significa que está no caminho certo. Mas vamos por partes. Expanda seu conceito até o ponto que perceber que está começando a contar a história. E então pare. Você escreverá essa história depois. Conceito é uma coisa, história é outra. Devagar com o andor.
  • Seduza. Seu conceito precisa ser instigante, convidativo, interessante o suficiente para que um leitor separe um tempo livre para se dedicar à sua história. Olhe nos olhos deste leitor hipotético. Ofereça uma bebida e uma promessa de horas e horas de entretenimento recompensador. E seja seduzido também. Criar é se comprometer. Comprometa-se.
Como exemplo coloco o teaser trailer de Tomorrowland, o novo filme de Brad Bird (Os Incríveis, Gigante de Ferro), ainda não lançado, que mostra de maneira magistral o que é um conceito. Aliás, este trailer é um conceito em sua forma mais pura. Temos vislumbres dos personagens e da premissa, mas nada além disso. Ele levanta uma questão hipotética instigante, e termina com uma simples pergunta: "Gostaria de ir?"

Eu sei que gostaria. E que vou.


Este artigo é o terceiro de uma série sobre a aplicação de metodologias no processo de escrita. O primeiro pode ser lido aqui e o segundo aqui. Continuem ligados para ler os próximos.