22 março 2010

Pelo fim do amadorismo literário


Hoje acordei e me deparei com um imenso bafafá no Twitter, no Orkut e no meio do fandom em geral. Não vou entrar em detalhes, mas certo autor recebeu uma crítica extremamente negativa a seu romance recém lançado, retrucou o crítico, angariou apoio na base de fãs, conseguiu detratores por conta de sua postura frente à crítica e etc. Mudam as moscas mas a merda é a mesma de sempre. Se você participa do meio, sabe de quem estou falando e não há a necessidade de apontar nomes, culpados ou vítimas (até mesmo porque não gostaria de me envolver diretamente nesta briga). Se você não faz ideia do que estou falando, o exemplo também cabe.

Ponderando a respeito deste assunto, acabei tropeçando num excelente artigo postado por Larry Brooks em seu StoryFix (se você não conhece este site e sabe ler em inglês, recomendo muito a visita). Nele Brooks faz uma analogia esportiva a respeito de um problema sério, que cada vez mais vejo abater sobre essa nova geração de autores que tentam, de todas as maneiras, fazer sucesso no meio literário.

Chama-se MATURIDADE.

Não maturidade no sentido biológico, mas a maturidade profissional. Como sempre digo, escrever é muito mais do que alinhar palavras. Todo autor, assim que termina seu original, é fã incondicional de seu trabalho. Acha que aquele pedaço de texto irá revolucionar a literatura brasileira, quiçá a mundial. Será reverenciado, traduzido, virará filme, deixará o autor milionário. E é este o maior problema.

Autores devem ter em mente uma coisa: por mais que você se esforce para escrever bem, sempre existirão detratores à sua obra. Sempre haverá espaço para críticas negativas. Críticas são parte do ofício. Você cria, alguém critica. É inevitável. Quem não quer crítica não deve colocar seu texto para escrutínio público. O que diferencia um escritor de uma pessoa que escreve é a maneira que recebe essas críticas. O cara que escreve fica ofendido, defende sua obra com unhas, dentes e impropérios. Já o escritor de verdade tira vantagem até mesmo das mais negativas críticas e nunca (enfatizo: NUNCA) retruca como se tal crítica fosse um ataque pessoal. Mesmo que seja, bem entendido.

Preste atenção: será que sua obra estava madura o suficiente para ser publicada? Tem certeza? Ela passou pelo crivo de leitores críticos sérios, foi revisada diversas vezes, teve todas as referências comprovadas? Há erros de lógica, de ritmo, de coerência? Há erros históricos grosseiros? Personagens rasos, inconsistentes, desnecessários? Pense bem. Seja honesto.

Escrever um livro não é fácil. Não basta apenas querer contar uma história. É preciso muito trabalho antes mesmo de sentar a bunda na cadeira e começar a digitar. Mas muito mesmo! Horas e horas a fio numa pesquisa interminável. Dias criando cenários, personagens, delineando a trama, escrevendo, reescrevendo, apagando, aumentando, corrigindo. É uma imensa labuta, que quase nunca termina sem defeitos. E é função dos críticos apontarem esses problemas. E papel dos autores ouví-los.

Diversas obras são lançadas diretamente para o oblívio literário, e o único culpado por isso é o autor. Seja humilde, perceba que você não é o centro do universo e que seu livro pode sim ter defeitos graves (e quase certamente os terá). Aceite as críticas que recebe e volte ao texto com outros olhos. OUÇA, pelo machado de Assis! Aceite que você não é perfeito. É o mínimo que se espera de um escritor que deseja ser tratado como tal.

Chega de amadorismo, gente. Os leitores agradecem.

E os críticos também.

17 março 2010

Nota de Falecimento


Morreu esta madrugada, em pleno exercício de inflamada hipérbole, aquele gigantesco perdulário. Aquele que desperdiçava nossas sagradas horas com seus intermináveis e desnecessários adjetivos. Que frequentemente maculava nossa fluidez com notadamente inócuos advérbios. Foi encontrado em decúbito dorsal, como convinha para a foto, o cadáver em rigor mortis repleto de irrelevantes termos técnicos. Morreu como queria, afogado no próprio vômito e debruçado numa rima sem teto. Deixa três gavetas e um romance, que sem sua obstinada persistência sequer existiriam senão numa metáfora óbvia. A polícia ainda não tem pistas de quem possa ter perpetrado essa grata contravenção, mas todos sabemos o porque. Por uma morte noir e estilosa, como em um conto policial formulaico. Uma morte sobrenatural, inexplicável. Um mistério a ser desvendado. Ao invés de o nome do carrasco, escreveu um enigma de próprio pulso. Um estereotipado detetive cuidará do caso. “Nós não podemos nos esquecer de tudo que ele nos trouxe. Devemos-lhe o devido respeito”, disse o detetive, cheio de pronomes e intervenções. Foi uma morte arquetípica, privada de sinônimos. Morreu e não deixará saudades.

Eu sou Ferdinando Galvão, o assassino do Chavão.

--
N. do A.: Este texto foi o resultado de um exercício proposto na aula de Marcelino Freire durante a minha Pós Graduação de Criação Literária. O exercício me deu três elementos: o nome do personagem (Ferdinando Galvão), sua profissão (locutor) e o início do texto ("Morreu nesta madrugada..."). O resultado foi esse aí. Desculpem se o título assustou alguém.

12 fevereiro 2010

(Banho de) Chuva de Verão


Escurece.
(Aí vem ela)
Faísca
e ronca.
Pinga.
Pinga.
Pinga, pinga, pinga.
E brilha
E geme
E treme
E cai.
Bate, molha, respinga.
(Onde você vai?)
E aumenta. E sopra. E uiva. E assovia.
E brilha!
E quebra!
(Esse caiu perto)
E encharca. E alaga. E retumba.
E derruba. E balança. E sacode.
E assusta.
E carrega.
E lava.
Enxágua.
Diminui.
Escorre.
Esvai.
E acaba.
(Tem uma toalha?)

02 fevereiro 2010

Tarantino e a mediocridade narrativa

Finalmente assisti a tão alardeada "obra prima" de Quentin Tarantino, Inglourious Basterds (ou, como foi traduzido por aqui, Bastardos Inglórios).

E qual foi o meu veredito?

Decepção completa.

O filme é uma porcaria. Não em termos técnicos. A direção de arte é primorosa. A edição espetacular. A fotografia belíssima. Mas tudo isso em cima de um roteiro rasteiro, pedante, auto indulgente, com personagens rasos como uma pizza e um "arco dramático" pra lá de imbecil. Fora as atrocidades históricas que deveriam levar qualquer pessoa que estudou o MÍNIMO da Segunda Guerra Mundial no colégio a arrancar os cabelos em desespero. Não, não estou exagerando.

O que levou Tarantino a produzir uma bomba como essa? Nunca o considerei um grande expoente cinematográfico, mas seus filmes anteriores tinham seus méritos. Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992) era interessante. Pulp Fiction (1994) trazia finalmente para o cinema pop a narrativa não linear (e um pouco da irreverência de Cães de Aluguel). Até mesmo a "bilogia" Kill Bill (2003) acertava no quesito divertimento, justificando seus exageros pelo tom farsesco da trama. Nada genial, nada revolucionário, mas no fim das contas funcionava.

Daí veio essa porcaria que é Inglourious Basterds. Nele vemos um Tarantino descontrolado, abusando de longos e maçantes diálogos (que, dizem, é seu ponto forte), cenas absurdas injustificadas e toneladas de referências jogadas sem a menor necessidade. Tarantino acreditou piamente que qualquer bobagem que ele escrevesse seria tratada como um produto de uma mente genial. Pelo burburinho da mídia percebemos que ele tem razão. Mas a mim o senhor não engana, Tarantino.

Sua obra pode ser comparada a um Ovo Fabergé: uma casca linda de se ver, mas vazia de significado, sentido ou qualquer sombra de relevância. É um filme que se sustenta num "estilo" pretensioso e oco. Um exercício de estilo pelo estilo, pura e simplesmente. Uma obra que nada se tira e nada se leva. Completamente descartável. Após tantos anos ouvindo de todos os lados exaltações a sua "genialidade" posso dizer a plenos pulmões: Tarantino, você é uma fraude. Sua máscara finalmente caiu.

Quando terminei de assistir ao filme, em meio a raiva e a frustração por ter desperdiçado duas horas de minha vida nessa porcaria, pensei em todas as críticas positivas que ouvi antes de assistir o filme. Pensei comigo mesmo: "Será que só eu vejo o quão ruim é esse filme?".

Aparentemente sim.

Daí fiz uma analogia que sempre faço. Cada vez mais vejo escritores iniciantes "vestindo a camisa" de um estilo x ou y. "Ah, eu escrevo sobre vampiros". "Ah, eu escrevo ficção científica¨. "Ah, eu escrevo fantasia". E blá, blá, blá, etecétera e tal. Não estou criticando os (poucos) bons escritores de gênero dessa nova geração que estamos vendo despontar. Escritores que optaram escrever em determinado gênero, mas não se limitam a ele. Falo sim dos autores que praticamente xerocam seu livro predileto. Esquecem que toda boa história tem um TEMA.

Não basta me dizer que você escreve "histórias de vampiros". Vampiros não são tema. São alegoria. Nem que você escreve "histórias de FC". Ficção científica é muito mais que naves espaciais, armas laser e alienígenas exóticos. É um estudo que pode ser sociológico, futurólogo e até mesmo psicológico, utilizando cenários futuristas apenas para ilustrar esses temas.

E o que é um tema? De acordo com Milan Kundera em seu "A Arte do Romance" (1986, Companhia de Bolso), um tema é "uma interrogação existencial". É algo que mira para além da superfície, que lida com temas profundos da existência humana. São os sentimentos, as emoções. Eu não escrevo terror. Eu escrevo histórias de amor, de coragem, de sacrifício, lido com o medo, as fobias, a consciência, as frustrações do leitor. Todo o resto são decisões de estilo para que o leitor receba aquele tema de maneira eficiente quando terminar de ler. Que o faça pensar. Toda boa história deve ser epifânica. Tendo vampiros, lobisomens ou caçadores de nazistas nela ou não. Escrever bem vai muito além de acertos ortográficos ou gramaticais (estes são valores essenciais). Escrever é uma arte. E toda arte deve transmitir alguma coisa a seu receptor. Ou então sua história será como o filme de Tarantino: uma casca de ovo belamente decorada, mas recheada apenas de mediocridade.

E fadada ao esquecimento

05 janeiro 2010

Boceta - Ensaio Étimo-Ginecológico

boceta (ê)
s. f.
1. Pequena caixa de fantasia.
2. Cal. Vulva.

boceta de Pandora: origem de todos os males.



Quando somos crianças é simples. Menino é diferente de menina pois menino tem pipi. Fácil assim. Você é menina? Então você não tem pipi. Moleza. Nem cogitávamos nomear o que era aquele não-pipi que elas tinham. E também pouco interessava o tipo da torneira que elas usavam para urinar. Filosofia infantil é tão etérea quanto brigadeiro de festa.

Crescemos e começam as crises de identidade. Já ouvi dezenas de nomes diferentes. Alguns tentando debilmente imitar a sublime simplicidade de sua contra parte (“pipinha”, “xaninha”), alguns fazendo obscuras alusões a animais (“periquita”, “perereca”), outros bizarros e fadados à galhofa que nem merecem citação. Até que finalmente elas encontram uma que todas adotam até o princípio da puberdade.

Xoxota.

De minha parte acho um nome feio para algo tão bonito. Felizmente com o passar do tempo este termo também cai em desuso, sendo usado apenas em legendas malfeitas de filmes pornôs idem (“Oh, baby, lambe minha xoxota...”). Depois começa a fase ginecológica. É vagina mesmo. Parece nome de doença. Talvez resquício de uma sociedade patriarcal, mas analisar isso foge do objetivo deste texto. Vagina é uma denominação genérica. Até minha avó tem vagina. Definitivamente é um nome que não diz nada.

Mas nós, meninos, sabemos como chamá-la antes mesmo de saber o que fazer com ela. O nome sempre surge, murmurado por um tio, engasgado por um colega que ouviu de outro colega que tampouco sabe o que é. Mas sabemos que é ali que devemos nos concentrar. É ali que devemos entrar com nosso ex-pipi (agora já denominado “pau”, “pinto”, “cacete” e, glória das glórias, “caralho”). Mesmo que no começo confundamos o chumacinho de pelos que a recobrem com a propriamente dita.

Quem?

A Boceta.

Acabamos descobrindo-a aos poucos. Um sentido de cada vez. Primeiro é o tato. Dedos trêmulos invadindo uma calcinha. Roçando pelinhos pubentes. Tocando as bordas exteriores. Sentindo o calor. Depois a visão, quando finalmente fugimos dos cantos furtivos e as despimos na intimidade. O olfato é aproveitado apenas segundos antes do paladar. A audição é atiçada quando ouvimos o delicioso chec-chec úmido de nossas carícias. Todos os sentidos em um único ponto.

E quando descobrimos que aquele único ponto tem diversos outros pontos? Lábios externos, lábios internos, clitóris... Cada ponto, cada reintrância deve ser tocado, acariciado, aproveitado. Nada como uma boceta bem tratada para arrancar gemidos de suas profundezas. Penetre-a com carinho na primeira vez. Em todas as primeiras vezes. Depois apenas siga seu ritmo. Ela que manda. Ela que guia. Sinta-a. Ouça-a. Ela sabe o que faz.

E quando ela sabe, você sabe.

E quando você sabe, elas voltam.

30 dezembro 2009

Memórias de um Diálogo Reincidente

– Por que você é cabeludo?

Porque sim, oras.

– “Porque sim” não é resposta.

E qual é o problema?

– Problema nenhum. Só acho estranho um cara com mais de trinta e cabelo comprido.

Mais de trinta? Você está dizendo que cabelo comprido é coisa de moleque?

– E não é?

E que eu, mantendo o cabelo comprido, estou tentando parecer que faço parte de uma faixa etária que já não pertenço mais?

– Ou isso ou...

O quê?

– Ah, você sabe. Esquece.

Bicha?

– Isso.

Não sou. Mas não expulsaria o Mick Jagger de minha cama.

– Hã?

Referência. Hair. Sabe? A peça, o filme. Achei adequado. Esquece.

– Não assisti.

Imaginei.

– Então por quê?

Eu não queria falar nisso, mas... Minha religião não permite.

– E qual é a sua religião?

Sou ateu.

– Besta.

Tenho o cabelo comprido porque gosto. Só isso. Gosto mais de me olhar no espelho cabeludo do que de outro jeito. Pelo mesmo motivo que você.

– Vaidade?

Também. Mas não só isso.

– Dá pra perceber.

Como é?

– Teu cabelo não é... Como posso dizer? Dos mais bem cuidados, né?

Cuido o suficiente.

– Há controvérsias.

Tá, cuido pouco. Cuido mais que a maioria. Uso shampoo específico, passo cremes, máscaras...

– Vai no cabeleireiro?

Vou. De vez em quando. Pra cortar as pontas.

– Já pensou em fazer escova progressiva?

Aí já é exagero. No máximo uma hidratação. Mas eu tenho mania de prender o cabelo molhado.

– Tá explicado o frizz...

Né? É um saco. Quando vou escolher um shampoo levo no mínimo meia hora. Tem que ser uma marca boa. Tem que ser do tipo específico do meu cabelo. Tenho que ler as instruções, e sempre que leio as instruções eles me induzem a comprar toda a “linha de tratamento”. E eu vou lá e compro a porcaria da linha de tratamento inteira. Shampoo, condicionador, creme para pentear, creme pra passar de duas a três vezes na semana, creme pra passar uma vez por semana. Silicone pras pontas. Pente de madeira. Elástico sem junção de latão pra não quebrar os fios. E mesmo assim fica essa nuvem ressecada sobre minha cabeça.

– É o preço da vaidade. Tudo bem. Entendi. Agora...

O quê?

– E essa barba?

Não quero falar sobre isso.

– Mas...

Deixa minha barba em paz!

12 novembro 2009

[Exercício Borgeano] A Baleia - Herman Melville

Caso fosse perguntado em seu leito de morte qual de suas obras tinha mais orgulho de ter criado, Herman Melville provavelmente não teria citado aquela que o levou à posteridade. Escritor propenso à aventuras (não só literárias), experimentou o sucesso com seus primeiros livros, Typee (1846) e Omoo (1847), inspirados em suas reais aventuras no mar, quando finalmente decidiu arriscar-se, suplantar a barreira do “autor de massas” e tornar-se um artista respeitado. Para essa empreitada ele inspirou-se em um trágico evento real: em 1820 o baleeiro Essex foi afundado por uma baleia no meio do oceano pacífico, vitimando dezesseis dos dezenove tripulantes da embarcação. Melville fez uma intensa pesquisa investigativa sobre o caso, chegando a entrevistar os sobreviventes pessoalmente. Assim surgia, em 1848, A Baleia, longa e minuciosa reportagem a respeito não apenas do incidente, mas dos torturantes dias que os marinheiros lutaram contra a natureza e a loucura enquanto navegavam a deriva pelo oceano, longe de quaisquer rotas ou esperanças de resgate.

Infelizmente dois fatores contribuíram muito para o fracasso editorial de A Baleia. Primeiro o tom folhetinesco com o qual Melville tratou a tragédia. Um dos sobreviventes, Thomas Nickerson, chegou a ameaçar processar o autor, mas o processo não avançou pois na mesma época Nickerson teve sua vida devastada com o descobrimento que ele e os outros dois remanescentes do afundamento do Essex recorreram ao canibalismo durante seus aflitivos dias à deriva. Pior: chegaram a realizar sorteios para decidir quem seria executado e servido aos restantes. O escândalo preocupou os editores de Melville, que recolheram a obra das livrarias poucos dias após seu lançamento.

Capa da única edição remanescente de "A Baleia",
atualmente exposta no Museu Herman Melville em ArrowHead

Desesperado, Melville percebeu que, de modo a conseguir aproveitar aquela história e, ao mesmo tempo, ser reconhecido como artista de respeito, deveria adaptá-la. Desconstruí-la como fato e reconstruí-la como alegoria. Precisava se afastar dos detalhes mais grotescos e aprofundar-se na alma dos personagens. Assim nasceram tanto Moby Dick, a baleia, quanto Ismael e Ahab. Do original sobrou apenas o fato de uma baleia ter afundado um navio. Até a raça da baleia ele mudou, trocando a cinzenta cachalote pela poética baleia branca. Em 1851 Moby Dick chegou às livrarias.

Mas Melville se precipitou. Lançou sua obra mais ambiciosa apenas três anos após o estouro do escândalo do canibalismo no Essex. Seu livro foi recebido com frieza tanto pelo público quanto pela crítica, o que o fez retornar de vez à literatura de aventura. Diferente de Ahab em seu derradeiro encontro com Moby Dick, Melville não deixou que sua criatura o arrastasse às fossas de uma obsessão.

Mas é em A Baleia que vemos um outro Herman Melville. Vemos lá um autor dando os primeiros passos em direção a uma maturidade artística. Maturidade essa que podemos comprovar, a despeito do fracasso em seu lançamento, em Moby Dick. Mas também vemos lá uma obra que, caso fosse lançada em outras circunstâncias, poderia retirar de Truman Capote o título de criador do estilo “romance não ficcional” com seu A Sangue Frio, lançado mais de cem anos depois.

Ironicamente, em 2001 o autor americano Nathaniel Philbrick lançou o livro No Coração do Mar, que narra a tragédia do Essex nos mínimos detalhes jornalísticos. A obra foi baseada nos diários do próprio Thomas Nickerson, que encontravam-se perdidos até 1980. Por este livro Nathaniel ganhou o National Book Award daquele ano.

Em seu leito de morte provavelmente Herman Melville não citaria nem A Baleia nem Moby Dick, o que é uma pena. Mas tudo bem. Caso A Baleia tivesse sido um sucesso em seu lançamento, provavelmente nunca conheceríamos Moby Dick, uma das obras mais influentes da literatura mundial.


Este texto foi escrito em resposta a um exercício baseado num trecho de Ficções, de Jorge Luís Borges, que disse: “Desvario laborioso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas páginas uma ideia cuja exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que estes livros já existem e apresentar um resumo, um comentário”. Ou seja, o tal "livro perdido" de Melville não existe.

09 novembro 2009

Lançamentos, Palestras, Mesas Redondas e muito trabalho pela frente

Esse final de mês promete.

Pra quem estava reclamando que eu ando sumido (e ando mesmo), o último final de semana de novembro vai ser uma overdose. Abaixo os convites oficiais:

Mesa Redonda e Lançamento da Coleção Imaginários
Quando? Dia 28/11/2009 - Sábado - das 16 às 19hs
Onde? Liv. Cultura - Shop. Market Place


















Palestra e lançamento da antologia Folhas de Espantos
Quando? Dia 29/11/2009 - Domingo - a partir das 16hs
Onde? The Wall Café
















Divulguem, espalhem, compareçam, prestigiem. Quero ver todo mundo lá, hein?

17 outubro 2009

Coleção Imaginários e Folhas de Espantos

Sei que ando sumido daqui e não vou me desfiar em desculpas. É o de sempre: muito trabalho e pouco tempo. Para mim um dia perfeito teria 40 horas. Mas divago. Volto aqui para anunciar, com grande prazer, o lançamento de mais 3 coletâneas de literatura fantástica, sendo que duas delas contarão com a participação deste escritor cabeludo ausente aqui.

Primeiro, meu amigo Tibor Moricz mostrou em seu blog as capas das primeiras edições da coleção Imaginários, pela Editora Draco. O primeiro volume conta com a participação de Gerson Lodi-Ribeiro, Giulia Moon, Jorge Luiz Calife, Ana Lúcia Merege, Carlos Orsi, Flávio Medeiros, Roberto de Sousa Causo, Osíris Reis, Martha Argel, Davi M. Gonzales e Richard Diegues. A capa é essa aí abaixo:



Já o volume dois conta com João Barreiros, Saint-Clair Stockler, Jorge Candeias, Eric Novello, Sacha Ramos, Luís Filipe Silva, Tibor Moricz, André Carneiro e eu, Alexandre Heredia, com um improvável conto de ficção científica. Assim que tiver notícias relacionadas ao lançamento coloco aqui. Fique ligado. Abaixo a capa para seu deleite:



Já a editora Folha da Baixada me convidou para participar da antologia Folha de Espantos, focada em contos de terror. Nela, além de mais um conto inédito escrevo também o seu prefácio. Este livro contará, além da minha, com as participações de Albert B. Lemos e Mariana do Nascimento, Alexandre Atayde, Ana Carolina Giorgion (que também é a organizadora), Andréa F. Bertoldo, Celso Pereira, Eduardo Rodrigues, Fábio Oneas, Fábio Pietro, Fernanda Ferreira, Francis F. Pires, Georgette Silen, Geralda Aparecida, Igor Martins, Rafael Gomes, Walter Moreno e Willian Aparecido. Maiores informações sobre o lançamento em breve. Abaixo a capa:



Além disso, ainda há muitas novidades aparecendo bem em breve. Como podem ver, o sumiço é justificável. Fiquem ligados e garanto que não se arrependerão.

25 setembro 2009

Sumiços, Lançamentos e... Zumbis!

Eis que depois de meses de abstinência dou as caras de novo por aqui. É só chutar o lixo e soprar a poeira que fica tudo beleza. Se lavar deixa novo, dar um tapa deixa semi-novo. Ou quase.

As razões para o sumiço são muitas e nem vale a pena listar todas. Queria eu ter tempo para escrever um texto sobre a falta de tempo, mas divago. Estou vivo, estou bem e em breve estarei de volta.

Só apareci aqui para avisar que esse ano ainda saem duas antologias das quais vou participar enquanto o romance novo não fica pronto. Uma delas será uma coletânea de contos de terror de novos autores, que participo com um conto e com o prefácio (que eu preciso ainda escrever). A outra é uma antologia de - pausa dramática - ficção científica! Sim, meninos e meninas, seu segundo escritor cabeludo predileto (o Alan Moore ainda é hors concours) irá se aventurar em sendas inéditas até então. Ainda não tenho maiores informações, mas meu amigo Tibor Moricz já começou a divulgação homeopática. Para acompanhar, é só clicar aqui em cima.

Outra coisa: está chegando o ZombieWalk SP 2009! Sim, crianças. Será a terceira vez que vocês terão a oportunidade de me ver vestido de zumbi e gemendo "Miolos" em pleno Dia de Finados. Sim, dia 02/11. Marca na agendinha fuleira desse seu pré-pago cansado. Não sabe o que é a ZombieWalk? Então clica aqui e vem pirar o cabeção com a gente.

Ah, e quem quiser também pode me seguir no Twitter. Caso não lembrem, sou o @AleHeredia. Primeiro e único (por enquanto). Prazer.

Agora deixa eu sair daqui que tenho uma caralhada de coisas pra resolver.

Até mais.

P.S.: Sim, a referência no título foi intencional. Não enche o meu saco.

16 agosto 2009

Uma Questão de Perspectiva

Maria sempre foi um doce de pessoa. Linda e simpática, aos quatorze anos foi eleita por unanimidade Rainha da Primavera na escola, título que a levou a ingressar um uma bem sucedida carreira de modelo. Aos dezessete já havia ganhado mais dinheiro com sua estonteante beleza que seus pais durante toda a vida. Desfilou em Milão, Madri e para costureiros consagrados em Paris. Mas mesmo com todo o sucesso conseguiu manter a humildade e a simpatia que a tornaram tão famosa.

Mas a carreira de modelo teve vida curta e, aos 23 anos, arriscou-se no cinema. A nova carreira não lhe rendeu os frutos esperados, mas rendeu um casamento com um diretor de Hollywood, numa daquelas histórias típicas de contos de fadas. Casaram-se após um curto namoro, tamanha a intensidade da paixão que sentiam. Mudaram-se para uma portentosa mansão em Beverly Hills, onde conseguiam ficar longe da atenção exagerada dos paparazzi. Maria vivia um sonho encantado.

Mas certo dia a filha do primeiro casamento de seu marido foi expulsa do colégio interno que frequentava e então mudou-se para a casa de Maria, que se esforçou ao máximo para recebê-la bem. Surpreendeu-se com a beleza da menina, com seus cabelos negros como ébano, seu lábio vermelho como sangue e, sobretudo, com a pele, branca como a neve. Enxergou na menina um pouco de si própria. Numa conversa com o marido, pediu permissão para iniciá-la na vida de modelo.

Mal sabia ela que aquele seria o princípio de seu fim.

A menina, apesar de bela como uma antiga boneca de porcelana por fora, possuía um estofo repleto de maldade e de rebeldia adolescente. Por mais que a pobre Maria tentasse, não conseguia domar a jovem fera. Era frequentemente desrespeitada em público, vítima de birras, xiliques e de brincadeiras cruéis por parte da enteada. Mas tudo sempre longe das vistas do pai, que sempre a descrevia como um anjo sem asas que havia aterrisado em suas vidas. Maria evitou ao máximo contar sobre suas agruras para o marido, temendo ser mal compreendida. Ao invés disso tomou para si a missão de fazer a garota amá-la verdadeiramente.

Durante as produção de seu novo filme, o marido de Maria se ausentou, deixando-as sozinhas na casa. Maria viu nisso uma oportunidade para se relacionar com a enteada. Tentou ao máximo compreender o estranho gosto musical da menina, as manias e trejeitos. Tudo em vão. Quanto mais Maria se esforçava em busca do afeto da enteada, mais elas se afastavam.

Um dia a garota disse que gostaria de fazer compras na cidade. Maria se ofereceu para acompanhá-la, mas ela obviamente recusou. Como era menor de idade, não convinha deixá-la ir sozinha. Pediu que seu motorista, o fiel Hunter, a acompanhasse. Inquirida pelo motorista se haveria alguma ordem ou disciplina a ser seguida, ela respondeu com a sinceridade da maternidade frustrada: “Faça tudo o que ela pedir. Tudo o que desejo dela é seu coração”.

No final da tarde Hunter retornou. Sem a garota. Disse que ela o havia enganado e fugiu na multidão. Passou a tarde procurando-a, em vão. Em pânico Maria decidiu não alertar as autoridades, com medo que o escândalo na mídia assustasse o pai, que estava longe demais para ajudar. Ao invés disso ordenou que Hunter a procurasse onde quer que fosse. Conseguiram, após dias de buscas, descobrir que a garota havia fugido para um apartamento no bairro latino. Por alguma razão desconhecida ela havia se infiltrado numa incomum gangue de anões intitulados “The Diamond Diggers”.

De posse do endereço, Maria sabia que de nada adiantaria ela aparecer lá e simplesmente resgatá-la. A rebelde garota não voltaria para casa de livre e espontânea vontade. Com isso em mente ligou para sua maquiadora e pediu a ela que a disfarçasse o máximo possível. A maquiadora levou horas, mas conseguiu transformá-la numa autêntica velha. Também embebeu uma maçã, a fruta preferida da menina, em calmantes. Com ela entorpecida seria mais fácil trazê-la de volta para casa, onde poderiam lidar melhor com a crise familiar sem a interferência de estranhos. De posse da suculenta maçã e completamente irreconhecível com a maquiagem de velha, partiu em direção ao apartamento dos anões.

Foram necessárias algumas horas de vigília até que eles tivessem certeza que a garota estaria sozinha no apartamento. Quando o último dos anões saiu ela se dirigiu até a porta e tocou a campainha. Seu estômago se revirou quando viu a moça pelo vão da porta. “Quem é você?”, perguntou ela, petulante. “Sou a vizinha do andar de baixo”, respondeu Maria com o texto previamente planejado. “Percebi que você se mudou recentemente e é um costume do condomínio recepcionar novos moradores com um gesto de boas vindas”. “Que gesto?”, perguntou a garota, desconfiada. Maria estendeu a lustrosa maçã. A garota, com um ar enfastiado, pegou a fruta e mordeu, sem ao menos agradecer. Maria ficou observando quando a garota engasgou com o naco mordido e começou a se estrebuchar em pânico. Desesperada, Maria tentou ajudar, mas a garota caiu no chão, ainda se debatendo. Em pouco tempo desmaiou, incapaz de respirar. Maria sacou o celular e ligou para emergência. A ambulância chegou em poucos minutos. Viu quando a enteada foi atendida por um jovem e bonito paramédico, que conseguiu retirar o pedaço de maçã de sua garganta e a ressucitou com uma respiração boca a boca.

Neste meio tempo os anões retornaram e, não reconhecendo aquela velha estranha como vizinha ou como a madrasta de sua protegida, perseguiram-na. Maria tentou fugir, mas em seu desespero para chegar ao carro atravessou a rua sem olhar para os lados, sendo atropelada em cheio por um ônibus que passava.

No final das contas a garota acabou se envolvendo com o paramédico que salvara sua vida e nunca mais voltou para casa. Já a pobre Maria, incapaz de se defender das inevitáveis fofocas dos tablóides sensacionalistas, ficou para sempre conhecida como a cruel e invejosa madrasta que havia morrido logo após tentar sufocar a bela enteada.

Pobre Maria.

30 julho 2009

Arrebatamento


Asneiras!, gritava o decano com sua voz rouca de maços e maços, sempre que recebia mais um elogio. Bajulações estapafúrdias!, guinchava, sacudindo de leve sua bengala. Todos sorriam de sua modéstia agressiva. Ele tinha crédito. Ele tinha aval. Ele havia escrito "A Penumbra Outonal". Ele havia chegado na perfeição absoluta do uso da língua. Não só isso. A associação de idéias revolucionárias entre si. A fluidez da trama ágil e ao mesmo tempo detalhada. Tudo sem exageros. Sem devaneios. Tudo perfeito. Uma obra a ser analizada por gerações e gerações.

Os poucos que o liam antes de "A Penumbra Outonal" diziam que seus textos eram bons. Bem razoáveis até. Mas ninguém nunca entendeu como de repente uma obra tão maiúscula havia surgido de um escritor tão... medíocre. Havia potencial, claro. Mas também havia obsessão. Havia uma paixão que ardia tanto que transformava o ato da criação em um parto explosivo. Mas sempre insatisfatório. Sempre autocrítico. Estava bom mas... Algo faltava. Naquela época ele ainda aceitava os elogios. Dizia que o incentivavam, mas era apenas a educação mascarando a frustração crescente. Ele podia mais que aquilo. Sabia que podia.

E então surgiu. No átimo final da crise de desespero. Em uma entrevista após o lançamento ele declarou que tinha sido algo semelhante a "um tapa de uma divindade qualquer em minha face, retirando todas as dúvidas e me mostrando o caminho". Se arrependeu por anos por essa afirmação, vendo ela sendo deturpada para fins fora do contexto original. Mas colheu em vida os louros do sucesso, coisa rara no meio artístico. Desfrutou da fama e dos prazeres por ela propiciados. Por meses a fio não escreveu uma linha sequer. Ele já podia morrer. Tinha escrito sua obraprima.

Mas não morreu. E com o tempo o vinho perdeu o sabor e o sexo se tornou um monótono clichê. E ele decidiu que era hora de voltar a escrever. E escreveu sem parar. Contos, novelas, romances. E foi sempre muito elogiado por todos seus trabalhos posteriores. Seus livros sempre vinham com "Do autor de 'A Penumbra Outonal'" em cima do título. E sempre vendiam muito.

Mas mesmo com o sucesso a amargura cresceu. A autocrítica ainda estava lá, firme e forte. Ele havia superado seus limites. Elevou a barra num patamar tão alto que não tinha mais como alcançá-la. "Eu poderia escrever sobre galinhas d'angola gagas por quatrocentas páginas e as pessoas ainda comprariam e elogiariam", reclamou ele em uma entrevista recente. E a platéia riu. Riu de sua desgraça. Riu de seu desespero.

Quando foi encontrado estava debruçado em sua escrivaninha, como que dormindo. A expressão não era da costumeira paz cadavérica, mas dura e pesada, como se ele tivesse finalmente sucumbido ao cansaço de aguardar pelo retorno daquele divino tapa que ele nunca mais levou.

27 julho 2009

Entrevista no Tudo Tem História

"Meus textos, mesmo às vezes tocando em temas considerados pouco palatáveis, ainda assim mantém o leitor interessado e dentro da história. Estamos lidando hoje em dia com leitores ávidos, mas com diversas opções distratoras a toda volta. Manter o leitor preso ao seu texto é um grande desafio. Tem que saber pesar as descrições. Se você acha meu texto bem descritivo, precisa ver as primeiras versões deles. São leituras, releituras, cortes e adaptações infindáveis antes de chegar no ponto que considero que as descrições estejam bem balanceadas e sem prejudicar o andamento da trama."

Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre mim e sobre meu trabalho, cedi uma longa e deliciosa entrevista à querida amiga Gi Marques em seu blog, o Tudo tem História. Lá falo sobre criação, literatura, meus livros, como pegar mulher sendo escritor e até, pasmem, vampiros! Separem um tempinho e deem uma passadinha lá. Ah, e leia as outras entrevistas também, muito interessantes.

16 junho 2009

2° Ciclo Paulista de Debates sobre Literatura Fantástica / Terror


A OPELF (Oficina de Produção e Estudos de Literatura Fantástica) e a Livraria Cultura convidam ao 2º Ciclo Paulista de Literatura Fantástica.
Na edição de 2009 teremos diversas atrações preparadas especialmente para os fãs da literatura fantástica e mês a mês, uma mesa-redonda explorando os subgêneros de Ficção Científica, Fantasia e Terror, com sorteios, lançamentos de livros, novidades e workshops.
O Ciclo finaliza no sábado, 20 de junho.
As atividades começam às 11h00, na unidade Bourbon Shopping Pompéia, confira abaixo a programação:
11h00 + Workshop – Como escrever? O livro desde a idéia até o ponto final
Neste workshop, a lingüísta e crítica literária USP, Janaina Azevedo Corral, apresenta um curso para escritores e autores iniciantes interessados no processo que ocorre desde o momento de criação da idéia até manuscrito final.
17h00 + Mesa-Redonda de Literatura de Terror
Neste ano a mesa-redonda terá a mediação da OPELF, representada por Janaina Azevedo Corral.
+ André Vianco + um dos maiores best-sellers do brasil e o maior escritor de literatura fantástica atual. Com mais de 10 livros publicados, continua a explorar sua obra em diversas mídias, acesse o website para mais informação, Andre Vianco Net.
+ Alexandre Heredia + autor de O Legado de Bathory e Predadores, este escritor foge dos padrões e tendências. Participou de diversas antologias e posta seus causos irreverentes e alguns contos em seu blog.
+ Martha Argel + autora e pesquisadora muito conhecida entre os fãs. Com livros como Relações de Sangue e O Vampiro Antes de Drácula, tem participado ativamente do cenário de literatura fantástica nacional. Acompanhe a escritora através do seu website.
+ Nelson Magrini + reconhecido escritor de terror. Seus livros Anjo: A Face do Mal e Relâmpagos de Sangue, foram seguidos por diversas participações em antologias e através da web. Escritor ativo e conceituado no cenário nacional de escritores de terror. Acompanhe o seu novo sucesso pela web, O Portador da Luz.
Além do debate com os participantes da mesa e as perguntas do público, o evento terá atrações multimídias que visam divulgar a produção nacional e debater sobre a literatura de terror.

08 junho 2009

Crítica: Bathory (2008)

Finalmente consegui assistir ao filme Bathory, que citei neste post aqui. Sim, aquele que se propõe a ser uma verdadeira "cine-biografia" da famigerada condessa Erszebet Bathory, que separaria o mito da verdade e contaria o que realmente se passou nas terras altas da Hungria no final do século XVI e início do XVII.

Pois bem. E o diretor eslovaco Juraj Jakubisko conseguiu o que inicialmente havia proposto? A resposta é, infelizmente, "em partes". Mas, claro, me adianto.

Em termos biográficos o filme é fiel o suficiente quando trata da história da condessa em si. As passagens históricas conhecidas estão todas lá, sem floreios. O noivado, o casamento, a vida, o julgamento e a morte estão fielmente retratados (com uma atuação surpreendente, apesar de alguns tropeços, de Anna Friel), utilizando poucas licenças poéticas, como no caso da morte que, apesar de inacurada, criou uma metáfora visual bem interessante. Foi usado como base para o argumento a trama de difamação perpretada pela nobreza húngara em conluio com a Igreja Católica que, mesmo interessante, tem poucas evidências factuais. Mesmo assim é uma proposta corajosa do diretor que merece, se não aplausos, ao menos respeito. A tentação de deixar a história cair para a caricatura era grande demais, visto o impacto cultural da condessa Bathory nos dias atuais. Ponto para o filme.

Aliás, outros pontos a favor do filme são a fotografia e a produção de arte. Em momento algum a obra perde o clima certo da época retratada, e o tom de "épico histórico" é presente em grande parte da película (mesmo nos momentos onde vemos uma influência gigantesca de Peter Jackson e seu O Senhor dos Anéis, mas nada que comprometa). Os figurinos estão belíssimos e condizentes. Percebe-se uma preocupação bastante grande com a fidelidade até mesmo nos apetrechos utilizados.

Agora nem tudo são flores. O filme peca em alguns pontos importantes. O mais gritante numa primeira vista são os personagens do monge Peter e seu noviço Cyril, sendo o primeiro o narrador da história. Completamente fictícios, foram um artifício do roteirista (que também é o diretor) criados meramente para "explicar" a propagação de certos momentos históricos até o tempo atual. Esquemáticos e desnecessários, apenas servem para tentar prover um alívio cômico numa trama que, sinceramente, não necessitava deste recurso. Protagonista de inconvenientes cenas "cômicas", onde vemos os dois testando inventos produzidos pelo padre, os personagens servem apenas para quebrar o ritmo com piadinhas rasteiras, em nada colaborando com o enriquecimento da história. Muito pelo contrário, pois em certos momentos não sabemos de que lado estão os religiosos (são espiões do cardeal, mas ajudam a condessa em diversas ocasiões chave). Fora o irritante fato do noviço ter a mania de "uivar" toda vez que vê um seio nu, em cenas que me lembraram muito uma pornochanchada, o que conta muito contra a seriedade deste projeto.

Pecando por um ritmo um pouco episódico demais, vemos personagens que deveriam ter um peso maior na história tendo papéis de "figurantes com nomes", como nos casos de Fizcko (um mero capataz mudo até o terceiro ato, quando de repente ele se torna um "cúmplice" importante) e Dorota Sentes. Quando testemunhamos eles sendo torturados, pouco nos importamos com seus destinos, visto que até aquele momento simplesmente não conhecíamos os personagens, o que é uma pena.

Outra inclusão completamente fictícia é a do pintor milanês Michaelangelo Merisi Caravaggio como amante da condessa. Mas esta inclusão se mostrou acertada, ao menos em termos narrativos, pois exemplifica de maneira bastante lírica a obsessão da condessa Bathory pela própria imagem e juventude. Mas nada na biografia do pintor ou da condessa leva a crer que esta história não seja totalmente inventada. Confesso que não compreendi a necessidade de usar um pintor famoso para este papel (qualquer retratista serviria) mas o resultado final não compromete.


De interessante na obra podemos tirar a "explicação" pelas crises assassinas da condessa (uma "doença no sangue" que me deixou bastante feliz, pois pareceu que o diretor/roteirista leu meu livro) e o respeito com que alguns personagens históricos foram retratados (especialmente Ferenc Nadasdy e o rei Mathias d'Habsburgo). Já a "vilanização" do conde Gyorgy Thurzo surge artificial e despropositada.

Não é um filmão nem uma obra de arte absoluta, mas é um filme que merece uma espiada, nem que seja apenas por curiosidade. É uma obra irregular, sim, mas que tem seu mérito. Só espero algum dia pegar uma cópia decente (a minha é um scan de uma exibição especial do filme para a STV eslovaca, dublada em eslovaco) de modo a avaliar melhor as atuações. Mas fica a dica para quem está curioso por conhecer um pouco mais da vida dessa personagem tão interessante.