02 setembro 2010

O Problema da Exposição Exagerada de Personagens


– Oi, posso me sentar aqui?
– Fique à vontade. Mas antes que faça qualquer coisa vou logo avisando: fui molestada sexualmente pelo meu tio quando tinha 12 anos, e este evento me traumatizou por toda minha vida, diminuindo minha capacidade de me relacionar afetivamente com alguém.
– Já tinha percebido. Sou PhD em psicologia. Já ganhei diversos prêmios internacionais e escrevi diversos livros sobre o assunto. Eu entendo você e sei como fazer você superar esse trauma. Posso lhe pagar uma bebida?
Você acreditou nessa cena? Forçada, não é? Quem fala assim? Ninguém com um mínimo de bom senso. Pessoas normais são fortalezas cheias de barreiras a ser transpostas antes que consigamos realmente revelar os tesouros escondidos nas catacumbas de suas psiques. Ninguém fala de traumas, expectativas, sentimentos ou outra coisa que considere íntima para qualquer um. Mesmo com conhecidos temos ressalvas, freios morais e outras barreiras. E, quando criamos personagens e os colocamos em uma trama não podemos esquecer de uma coisa: mesmo que os personagens sejam pessoas excepcionais, eles são humanos antes de qualquer coisa.

No desenrolar de uma trama o desenvolvimento dos personagens deve correr paralelo. Sim, a maioria dos personagens já “existia” antes da história a ser contada. Sim, um personagem para ser tridimensional, verossímil, deve carregar uma bagagem, um passado que justifique determinadas ações durante a trama. Mas o grande problema não é esse. O problema é que no afã de mostrar aos leitores o quão tridimensionais são nossos personagens acabamos exagerando em diálogos e recordatórios expositivos, jogando mais informações que o necessário naquele momento da trama e, com isso, sacrificando o ritmo.

Sim, temos a tendência a ser prolixos. Abusamos de descritivos, detalhes irrelevantes e outras bobagens que simplesmente não agregam absolutamente nada ao desenrolar da trama. E com isso torramos a paciência dos leitores, mesmo os mais experientes.

A máxima do “menos é mais” sempre se aplica. Se uma cena pode ser descrita inteiramente em uma frase, não estenda-a a doze parágrafos apenas para mostrar que você sabe escrever. Sentimentos e vidas pregressas à trama devem ser tratadas apenas nos momentos certos, e se for o caso. No exemplo que abre o texto atitudes contariam muito mais que palavras. Um gesto, um olhar, a linguagem corporal, subtextos nas falas, essas coisas, tudo ajuda no desenvolvimento. Às vezes o silêncio pode ser mais eloquente que mil palavras.

Claro, o próximo pecado que cometemos logo que percebemos a falha anterior é partirmos para o total oposto. Exemplificando:
“Ele chegou suavemente e parou a dois metros dela. Vestia uma saia comprida e fora de moda e uma blusa de cetim com gola redonda. Nos cabelos penteados com esmero não sobrava um fio fora do lugar, como se fosse uma peruca de boneca de plástico de camelô. O rosto mostrava uma tristeza maior que a vida, junto com uma raiva que, sua experiência profissional como psiquiatra sabia, só podia ter uma origem: abuso sexual. Decidiu sentar-se ao seu lado. A noite estava ruim mesmo. Sorriu simpaticamente.”
Pronto. Não houve uma linha de diálogo, mas de novo expus demais o que deveria estar diluído. De novo, é o afã de mostrar mais do que o necessário. Sim, nós saberemos que ela foi abusada sexualmente. Sim, descobriremos que ele é PhD em psiquiatria. Sim, sabemos que uma hora ou outra haverá uma tensão sexual entre os dois. O problema é despejar tudo de uma vez no colo do leitor. Deixe-o descobrir aos poucos quem são aqueles personagens. Não abuse de adjetivos e advérbios e metáforas sem propósito. Quem “chega suavemente”? E, caso o contexto esteja correto, o sorriso só pode ser de simpatia.

O segredo é espalhar. Diluir. Crie cenas onde os panos de fundos dos personagens sejam relevantes. Pessoas não saem falando sobre traumas e muitas vezes as primeiras impressões que temos de pessoas estão erradas. Não pule nas conclusões. Teça sua teia, envolva o leitor no mistério de quem é aquela garota e porque ela parece tão triste. Jogue pistas falsas, deixe o leitor investigar junto com o protagonista.

Vamos aplicar isto à cena?
– Oi. Posso me sentar aqui?
– O bar é público.
Era só o que me faltava, pensou. Olhou em volta e não encontrou mais ninguém. Tentou um sorriso. Ela fechou o já pequeno decote com as mãos. Ele conhecia aquele gesto de incontáveis sessões em seu consultório.
– Posso lhe pagar uma bebida? O que você está bebendo?
– Coca com gelo e limão.
Pediu ao garçom uma coca e uma dose de uísque. Ele ia precisar. Ela também.
Pronto. Sem exageros, levando a história com calma, sem ultra exposição desnecessária. Apenas o suficiente para a trama andar. Com calma, no tempo certo, sem atropelamentos. Exagero cria ruído, excesso de informação e uma trama confusa. Se sua intenção não é deixar seus leitores doidos, preste atenção a esses detalhes.

É preciso dizer também que essa não é uma regra. Às vezes um diálogo mais expositivo, devidamente justificado, vem ao caso. Há momentos em que uma pausa para uma reflexão de um personagem pode enriquecer a história. Cada caso é um caso. Mas, nesse caso, é melhor pecar pela falta do que pelo exagero. Guarde cenas grandiosas para momentos grandiosos. Você não irá se arrepender.

Um comentário:

Luiz Teodosio disse...

Bom post. Serve para nos lembtar de não sermos tão afobados em mover os personagens da trama sem saber. É necessário ir com calma e pensar qual é a melhor cena possível para a ocasião.
De vez em quando eu acabo caindo neste erro de jorrar informações desnecessárias, sendo que elas poderiam ser reveladas em uma ocasião mais promissora.