12 maio 2015

O Primeiro Ato: A Apresentação


Imagine que você tenha uma banda, e que está prestes a entrar no palco. Não é um show só seu. Você foi contratado para animar uma casa noturna. As pessoas estão ali para se divertir, não para vê-lo. Ninguém te conhece, não sabem se você é um puta músico ou apenas um medíocre dedilhador de notas. Eles estão dispostos a gostar de você, mas você precisa cumprir suas expectativas, ou mesmo superá-las, de modo a que eles saiam de suas mesas e lotem a pista. É preciso ganhá-los logo de cara, caso contrário o show será um fracasso, independente de sua capacidade musical. É preciso chegar chutando a porta. Não comece com uma balada melancólica. Não diga "Oi, nós somos...". Dispare um acorde aberto e mande o baterista marretar as peles.

É assim que uma história deve começar: agarrando o leitor pelo pescoço e arrancando seu fôlego. O grande erro da maioria dos iniciantes é demorar muito para chegar na trama, se perder em explicações, descrições e ambientações por páginas e páginas durante o primeiro ato. Aí, quando finalmente o protagonista entra na história que interessa e a trama pode fluir, você já perdeu grande parte de seu público. Não enrole. Seus leitores vieram. eles estão propensos a gostar de sua história. Não perca essa chance. Jogue-os sem piedade dentro da trama logo nas primeiras páginas. Depois você pode diminuir o tom, deixá-los respirar, explicar com calma o que está acontecendo. Mas quando esse momento chegar eles já estarão fisgados, e irão caminhar ao lado de seu protagonista até o final.

Essa é a função primordial do primeiro ato. Tudo o que você fizer terá esse objetivo. Você não terá uma segunda chance. Se até a décima página o seu leitor não estiver minimamente intrigado com sua história, ele irá abandoná-la. Pense como um leitor por um instante, e me responda: quantos livros você já abandonou logo no início porque a história simplesmente não engrenava? Você pode até se esforçar, dar mais uma chance, mas se até o final do primeiro quarto da história nada relevante acontecer, as chances de você abandonar o livro aumentarão exponencialmente.

São três coisas que precisam ser apresentadas ao leitor logo no primeiro ato: o Protagonista, a Ambientação e a Premissa. Ao final dos primeiros 25% da história eles precisam saber pra quem irão torcer, onde a trama se desenvolverá e, mais importante de tudo, sobre o quê é essa história. Esses termos não são negociáveis. Caso você falhe em entregar esses elementos logo no início, sua história naufragará e seus leitores a abandonarão. Não enrole. Não arraste sua trama. Apresente seu protagonista e seu objetivo logo que puder. Contextualize o quanto for necessário, mas não perca muito tempo tentando explicar toda a vida de cada personagem antes de entrar no que realmente interessa. Você terá tempo para se aprofundar depois. Lembre-se: "Quem?", "Onde?" e "O quê?". São essas as perguntas que precisam ser respondidas logo no início. Está anotando?
A soma destes elementos irá criar o GANCHO de sua história. Sem um bom gancho, seu leitor poderá escapar, então é essencial que você defina como será esse gancho durante seu planejamento. Apresente seu protagonista, sugira seus demônios interiores, seus objetivos individuais (mas de forma orgânica, sem cair no didatismo), em qual realidade ele está inserido e o que está em jogo caso ele fracasse. Tudo isso já deve estar no tabuleiro quando o Primeiro Ponto de Virada (Plot Point) chegar, marcando o final do primeiro ato. Se tudo for feito de maneira correta, quando seu leitor chegar a este ponto, ele já estará fisgado e não terá mais como escapar.
Para conseguir esse efeito, é preciso que seu primeiro ato disponha de algumas cenas chave:

  • Cena de Abertura: É quando seu protagonista deve ser apresentado. Ele não precisa aparecer, mas precisa ser ao menos mencionado. Sua presença deve ser sentida, e ele deve deixar já a sua primeira impressão. Quem é ele(a)? Como ele(a) é? Por quê ele(a) é importante? Por que devemos torcer por ele(a)?
  • Gancho Inicial: Algo já deve prenunciar o que acontecerá nos próximos atos. O antagonista (ou força antagonista) já deve dar sinais de sua influência, mesmo que apenas indiretamente. É aqui que a Premissa deve surgir. Não entregue o ouro ainda, mas mostre que haverá algo reluzente mais pra frente.
  • Incidente Incitante: Esse é opcional, mas sempre ajuda. Um evento que dará pistas do que acontecerá no Primeiro Ponto de Virada. Uma sugestão que prenuncia o conflito que se seguirá. Um incidente Incitante é sempre bom para reforçar ao leitor o que está em jogo.
  • Primeiro Ponto de Virada: É onde a trama realmente engrena. Algo importante deve acontecer, e esse evento irá virar a vida do protagonista de cabeça para baixo. Ele precisará sair de sua zona de conforto e lidar com esse problema. Não interessa o que ele quer fazer, mas sim o que ele precisa fazer. Tudo mais passará a ser secundário depois desse ponto. O drama foi inserido, o conflito apresentado, e algo precisa ser feito. Caso contrário, as consequências serão catastróficas.
De novo, esse primeiro ato não deve ultrapassar 25% de sua história. Caso dure mais do que isso sua trama irá se arrastar. Se for mais curta, será muito corrida. Seu primeiro ato será a base na qual toda sua trama será construída. Ele deve ser sólido e consistente. Planeje-o com cuidado. Adicione os elementos necessários, mas tome cuidado para não exagerar. Não se perca em detalhes e em descrições. Conflitos internos ou detalhes importantes da história pregressa dos personagens deverão ser explorados mais a fundo no segundo e no terceiro ato. Mas largue algumas pistas pelo caminho, algo que instigue a curiosidade. Você sabe para onde está indo. Agarre seu leitor pelo pescoço e guie-o por este caminho.
Mas não exagere!
No próximo artigo falaremos sobre o segundo ato, ou a Resposta do protagonista ao Primeiro Ponto de Virada. É aí que o bicho realmente pega.

Até lá.



Este artigo é o sétimo de uma série sobre a aplicação de metodologias no processo de escrita. O primeiro pode ser lido aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui, o quinto aqui e o sexto aqui. Continuem ligados para ler os próximos. 

08 maio 2015

A Essência da Estrutura


O que faz uma história funcionar?

Não estou (ainda) entrando no mérito da qualidade do texto, mas dos requisitos mínimos que transformam esse texto em uma história. Que ingredientes são necessários? Em qual quantidade? E em qual ordem devem ser colocados (ou apresentados) de modo a se transformar em uma história coerente e compreensível, quiçá apreciável?

Qualquer cozinheiro sabe que não basta juntar todos os ingredientes em um caldeirão e esquentar em fogo alto. Pode dar certo? Pode. Mas as chances são mínimas. É preciso atentar a cada detalhe, saber a hora certa de adicionar cada tempero, o tempo de cozimento, a temperatura necessária, a hora de parar.
O que fizemos até agora foi separar os ingredientes da história: Tema, Conceito, Premissa e Personagens. Todos esses elementos são essenciais, mas é preciso saber quando e onde usar cada um deles. Não basta pegar tudo isso e jogar dentro de uma página em branco para, como num toque de mágica, a história surgir. Não interessa o quão bom seja o Tema, o quão instigante seja o Conceito, o quão sedutora seja a Premissa e o quanto seus Personagens sejam bem construídos. Sem uma receita, um plano inicial, simplesmente não vai dar certo. Sua "história" não passará de uma colagem incoerente e ilegível de elementos desconexos, sem forma ou sentido.
Vamos fazer um exercício mental. Imagine que eu te dê uma pilha sortida de Legos. Você sabe, aqueles tijolinhos dinamarqueses que todo mundo já brincou pelo menos uma vez na vida. Dizem que é possível construir qualquer coisa com eles, então vamos colocar isso à prova. Toma, uma pilha de legos pra você:
Agora eu quero que você pegue essa pilha de legos e construa um Darth Vader, como esse aqui:
Vamos precisar de mais peças pretas...
Eu garanto a você que, fora a lâmina do sabre de luz, todo o resto foi feito juntando bloquinhos de lego, iguais àqueles da pilha que eu te dei. Estruturalmente são os mesmos elementos. Você acha que consegue fazer isso?

Não, não é uma comparação exagerada. É a diferença entre um aglomerado de elementos narrativos e uma história. E o objetivo aqui é escrever uma história, não é? É construir algo que faça sentido a algum receptor. Histórias, tal qual estátuas de Lego, necessitam de um plano para serem realizadas. Quantas peças serão necessárias, de quais cores, em que ordem serão montadas?

De novo, dá pra fazer isso na louca, intuitivamente? Dá. Mas as chances de fracasso são muito maiores que de sucesso. E o trabalho será muito maior, para um resultado que, no final, pode ser apenas razoável (artistas têm a tendência à auto-condescendência quando perdidos). E não queremos isso, queremos?
Então necessitamos de um plano. Algo que sustente todos os elementos e dê sentido a cada uma delas. Precisamos de uma estrutura para a história.

Você provavelmente já ouviu falar da famosa Estrutura de Três Atos, defendida pelo roteirista Syd Field. Apresentação, Confronto e Resolução. Toda história que pode ser definida assim possui estes elementos básicos. Joseph Campbell detalhou uma estrutura mais complexa em sua Jornada do Herói. Essas são estruturas conhecidas e que já comprovaram que funcionam. Você pode tentar inovar o quanto quiser em termos narrativos, mas no fundo o resultado será o mesmo. Mesmo histórias como Amnésia ou Irreversível, que são contadas do fim para o começo, ou narrativas não lineares como Matadouro 5 ou Pulp fiction, acabam caindo neste arcabouço. Não há como fugir.
Larry Brooks, em seu livro Story Engineering, sugere uma expansão da estrutura tradicional de três atos. Para ele, o segundo ato (Confronto) precisa ser dividido em dois: A Resposta e Ataque. Essa divisão, como veremos a seguir, faz todo o sentido, então vamos adotá-la. Assim, temos quatro atos básicos (Apresentação, Resposta, Ataque, Resolução) e cada ato é pontuado por pontos de virada (ou Plot Points), pontos de pressão, ganchos, incidentes incitantes e momentos que adicionam o tempero necessário para que a trama evolua. Em resumo:

  • Apresentação: Quando o protagonista, coadjuvantes e cenário são apresentados. Há um prenúncio da trama e do conflito que ocorrerá nos próximos atos, e o leitor descobre o que está em jogo (o destino da humanidade, a vida de um ente querido, a sanidade do protagonista, etc.). Deve estar presente um gancho que irá prender sua atenção logo no começo. Pode ser um incidente incitante, que já começa a mostrar sobre o que a história tratará. Termina no primeiro ponto de virada (Plot Point), que é o ponto sem retorno para a trama. Agora a história começou de verdade, e os personagens terão que fazer alguma coisa a respeito.
  • Resposta: Mas fazer o quê? Tudo que aconteceu no primeiro ato serviu para tirar o protagonista de sua zona de conforto (lembre-se da Jornada do Herói) e ele (ou ela, ou eles) agora precisa reagir. E fracassar. O antagonista (ou a força antagonista) agora deve estar bem claro, e as consequências do fracasso devem se fazer presentes. Novos elementos deverão ser apresentados, e o conflito deve crescer até o limite da ruptura emocional. Pode-se adicionar um ponto de pressão, que aumenta as apostas e cria um novo grau de desespero. No ponto central da história o todas as peças devem estar no tabuleiro. Agora só há um lugar pra correr.
  • Ataque: O protagonista sabe o que precisa ser feito. E o fará. Ele, pela primeira vez na história, pega nas rédeas da situação. Ele tem um plano. Para de simplesmente reagir e parte para o ataque, disposto a resolver esse conflito de uma vez por todas. Ele pode ou não ser bem sucedido em seu intento, não importa. Pode-se adicionar aqui um novo ponto de pressão, ou mesmo um momento "Tudo está perdido", que aumentará o drama. Elementos chave, prenunciados nos dois primeiros atos, poderão mostrar sua influência, ou mesmo levar a novos elementos. Esse ato terminará no segundo ponto de virada, onde serão avaliados os sucessos e fracassos do plano do protagonista e do antagonista, deixando a ambos poucas opções. É o momento que conduzirá a história a seu inevitável clímax.
  • Resolução: A trama precisa se resolver, para o bem ou para o mal. Planos e ações deverão chegar a um resultado. Todas as peças estão no jogo, e nenhum elemento novo poderá ser adicionado. Pontas soltas devem ser atadas, tramas resolvidas e a história deverá chegar a um inevitável fim.
É importante perceber que, sem uma estrutura sólida, sua história não vai funcionar. Você pode escolher o modo que quer contar a história, adicionar atos ou elementos novos, mas não pode negligenciar pelo menos esses pontos essenciais. Retire qualquer um deles e sua trama desabará. Ela nem poderá ser considerada uma história, pra princípio de conversa. 
Então, antes de começar a escrever os capítulos, escreva o plano inicial. Defina o que irá acontecer em cada ato, quais serão os pontos chave da trama, como ela começa, como se desenvolve e como termina. Nada impede que você mude tudo isso durante a execução, mas é essencial saber para onde vai antes de começar a andar.

Nos próximos artigos irei detalhar cada ato individualmente, bem como explicar com mais calma cada um dos pontos chave, de modo a criar um plano básico para a sua obra.

Até lá.



Este artigo é o sexto de uma série sobre a aplicação de metodologias no processo de escrita. O primeiro pode ser lido aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui e o quinto aqui. Continuem ligados para ler os próximos. 

04 maio 2015

O Interrogatório Interior


Por favor, sente-se. Fique à vontade. Quer uma água, um café, um refrigerante?  Um bourbon duplo com soda?

- Não, eu... Cara, onde eu estou? Quem é você?

Eu faço as perguntas, se você não se importar. Quem eu sou e onde estamos não é relevante. Não estamos aqui para falar de mim, mas de você. Estamos aqui para nos conhecer um pouco melhor. Quer dizer, pra eu conhecê-lo um pouco melhor. Muito melhor. Na verdade estamos aqui para conhecê-lo a fundo.

- Eu estou sendo acusado de alguma coisa?

Está? Não sei, você me diz. Você já cometeu algum crime? Algo que tenha se arrependido?

- Eu quero um advogado.

Sem advogados. Sem intermediários. Somos apenas eu e você aqui, e é assim que vai ser. Vou te fazer uma série de perguntas e você vai respondê-las com toda a sinceridade. Como se sua vida dependesse disso. Porque ela depende, pode acreditar.

- O que você quer saber?

Quero saber tudo. Cada detalhe sórdido, cada trauma, mesmo que pareça irrelevante. Cada mania, cada trejeito, cada história que você testemunhou ou vivenciou.

- E por que eu faria isso?

Porque você não tem escolha. Porque você ainda não existe. Só existirá depois que responder às minhas perguntas. Até lá você será apenas um esboço, um conceito abstrato. Serão suas respostas que irão justificar sua existência, e irão determinar como será sua vida a partir de então. Desse modo, sugiro que você sente, relaxe e me conte tudo o que eu quero saber, tudo o que eu preciso saber. Caso contrário você retornará ao limbo amorfo da não-existência. Ou pior.

- E se eu me recusar?

Você não pode. Você não quer recusar. Estou lhe dando a oportunidade de se tornar algo. A alternativa é óbvia. Eu poderia te hipnotizar, injetar um pouco de soro da verdade, lançar um feitiço, te enrolar no laço da Mulher Maravilha, tanto faz. O que você preferir. O que for necessário. Mas você só sai daqui depois de responder minhas perguntas. Todas elas.

- Quem é você?

Eu sou quem irá contar sua história, que irá transformá-la em realidade. Eu irei pegar tudo o que você me der e misturar, bater, moer e destrinchar até virar polpa. Eu depois irei dar um sentido à essa polpa, e, por consequência, à sua existência.

- E eu serei o herói dessa história?

Pode ser. Pode não ser. Depende. A única coisa que posso garantir é que você será o protagonista de sua própria história.

- Somos todos protagonistas de nossas próprias histórias.

Agora você está me entendendo. Podemos começar?



E é assim que deve iniciar a sabatina com todos os seus personagens principais. Um bom personagem, seja ele protagonista, antagonista ou coadjuvante, deve gerar empatia no leitor. E para que isso aconteça é preciso haver algum tipo de identificação, algo que justifique seus atos, suas decisões, sua existência. E para que isso ocorra é preciso começar a tratá-los como seres vivos. Conversar com eles. Colocar-se em seus lugares, compreendê-los da maneira mais completa possível.

A técnica do "interrogatório" é eficaz pois coloca o personagem em uma situação vulnerável, onde ele deverá se abrir ao escritor sem nenhuma ressalva. Ele deverá contar tudo, desde eventos históricos, passando por ideologias e visões do mundo, chegando até a traumas e segredos que ele nunca compartilhou com ninguém antes. Serão esses detalhes, a soma deles, que transformará seu personagem de um rabisco mal ajambrado em uma pessoa viva, com objetivos, motivações e obstáculos claros. Que o tornarão verossímil, tridimensional.
Falando em dimensões, nesse processo você deverá passar por todas elas antes de poder considerar seu personagem como criado. Como vimos nos artigo anterior, as três dimensões do bom personagem são:

  • Primeira dimensão: Como ele é visto pelos outros.
  • Segunda dimensão: Como ele se enxerga, graças à sua história de vida.
  • Terceira dimensão: Como ele realmente é, ou como ele age quando está sob pressão.

A primeira dimensão é a mais simples, mas nem por isso deve ser tratada com descaso. Há diversas técnicas para criar a aparência exterior de um personagem. Você pode escolher a que quiser, mas é importante que escolha pelo menos uma. Crie uma ficha de personagem, faça um desenho, uma escultura de argila, tanto faz. Mas faça. Descubra como seu personagem se parece e como ele se mostrará ao mundo que você irá inseri-lo. Visualize-o. Adicione manias, trejeitos, detalhes característicos.

Coloco abaixo uma boa lista para se começar. Sinta-se à vontade para incluir ou excluir o que achar relevante, mas preencha-a:

  • Dados Catalográficos:
    • Apelido (Como o personagem é chamado por outras pessoas), Nome completo, Idade, Nacionalidade/Naturalidade
  • Aparência:
    • Altura, Peso/Tipo físico, Cor da pele, Cor dos cabelos, Cor dos olhos, Tipo de vestuário
  • Características marcantes:
    • Cicatrizes, Deficiências aparentes, Tatuagens, Piercings, etc.
  • Atributos Sociais
    • Profissão, Onde estudou, Renda, Bens, Relacionamento atual, Hobbies/Interesses.

Este é um bom começo, mas ainda é pouco. Um protagonista ou um antagonista é muito mais do que isso. Se você parar aqui terá o que os críticos adoram rotular de "monodimensional", "superficial" ou simplesmente "ruim". Para evitar que isso aconteça, precisamos cobrir a segunda e a terceira dimensões. E é aí que o processo do "interrogatório" brilhará. Relembre a cena lá em cima. Imagine-se com o seu personagem em uma sala vazia. Somente você e ele. Você cheio de perguntas e ele repleto de respostas, e incapaz de mentir ou esconder qualquer coisa. É sua oportunidade de conhecê-lo a fundo, descobrir tudo a seu respeito, tudo o que ele fez ou vivenciou e que o transformou no que ele é hoje, no que ele será no princípio de sua história. Aproveite essa oportunidade. Mergulhe fundo. O mais fundo que conseguir. Não negligencie nenhum detalhe, por mais irrelevante que possa parecer. A solução para um bloqueio pode estar nesse detalhe. Você já tem um Tema, um Conceito e uma Premissa. Use isso a seu favor. Pense em seu personagem nesta história que está sendo gestada, mas permita que ele tenha uma história própria, mesmo que elas sejam interdependentes (e elas são, não se esqueça!).

Tá, e quais as perguntas eu devo fazer, você deve estar se questionando. É ótimo pensar assim. Você está indo a uma entrevista crucial com um personagem importantíssimo da história que irá escrever pelos próximos meses ou anos. Tal qual um bom jornalista, é bom ir preparado. Saber o que perguntar é essencial. Larry Brooks, em seu livro "The Three Dimensions of the Character" lista uma série de perguntas básicas que devem ser feitas sobre o personagem, que traduzo abaixo (com uma pequena adaptação para fazer sentido no contexto do interrogatório):
  • Qual é a sua história pregressa, suas experiências que programaram como você pensa, sente e age hoje em dia?
  • Qual é o seu “demônio interior”, e como isso influencia suas decisões e ações frente aos “demônios exteriores” que serão lançado a você?
  • Você tem algum ressentimento?
  • Como você se sente a respeito de si próprio(a), e qual a distância entre este sentimento e a maneira que outras pessoas pensam a seu respeito?
  • Qual é a sua visão do mundo?
  • Qual é a sua bússola moral?
  • Você é benevolente ou ganancioso(a)?
  • De que maneira você adere a gêneros ou estereótipos?
  • Se não adere a nenhum, de que maneira você se diferencia?
  • Que lições de vida você ainda não aprendeu?
  • Que lições aprendeu, mas as rejeitou ou falhou em aprender?
  • Quem são seus amigos?
  • São intelectualmente similares a você?
  • Qual é o seu QI social?
  • Você é tímido(a)? Ansioso(a)? Descontraído(a)? A Alma da Festa? Introvertido(a)?
  • Qual é o seu desejo mais secreto?
  • Qual sonho de infância nunca se realizou e por que?
  • Qual é o seu sistema de crenças ou religiosidade?
  • Qual é a pior coisa que você já fez?
  • Você tem segredos? Talvez uma vida secreta?
  • O que as pessoas mais próximas a você não sabem a seu respeito?
  • O que o(a) faz postergar uma tarefa, procrastinar?
  • Alguma pessoa ou evento já impediu seu avanço pessoal?
  • Quantas pessoas iriam a seu funeral? Por que alguém decidiria não comparecer?
  • Qual o seu aspecto mais improvável ou contraditório?
  • Quais são suas manias ou hábitos?
  • O que o(a) diferencia do resto das pessoas? Que ponto de sua história pregressa o(a) levou a isso?
  • Você tem alguma cicatriz psicológica que afeta sua vida?
  • Como você age quando está sob pressão?
Nada impede que sejam incluídas outras perguntas, para fins de maior aprofundamento, mas no mínimo essas devem ser respondidas. Escreva as respostas. Não as mantenha no campo das ideias. Faça seu personagem respondê-las. Isso, além de ajudar você a compreender seu personagem, irá auxiliá-lo a encontrar sua voz.

Muito importante: não tenha pressa. Desfrute esse momento de intimidade entre você e o seu personagem. Quanto mais tempo você investir nesse processo, melhor será para sua história. Um personagem bem construído, bem estruturado, irá impelir sua trama. Ele será a carne e os músculos de sua narrativa. E quanto mais você conhecê-lo, menor a chance de ficar bloqueado ou usar a desculpa esfarrapada de que "perdeu o controle do personagem". Isso é uma bobagem. Se você perdeu o controle é porque nunca o teve, pra início de conversa. Reverta essa situação. Você e seus personagens irão passar muito tempo juntos, então é bom que sejam íntimos. Permita-se essa intimidade.

Terminado o processo de criação de cada personagem principal (primários e secundários), é hora de sentar e colocá-los em algum lugar. E é importante que esse lugar seja sólido, resistente o suficiente para suportar eles e a sua trama. É importante que sua história tenha uma estrutura. De nada adiantará jogar personagens bem construídos em uma realidade desconjuntada, sem objetivos ou fronteiras claras. Se os personagens são a carne e os músculos, a estrutura é o esqueleto, o que sustentará sua história. E é disso o que falaremos no próximo artigo.

Até lá.


Este artigo é o quinto de uma série sobre a aplicação de metodologias no processo de escrita. O primeiro pode ser lido aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui. Continuem ligados para ler os próximos. 

27 abril 2015

A Dupla Tríade do Personagem Único

"Quando escreve um livro um escritor deve criar pessoas vivas; pessoas, não personagens. Um personagem é uma caricatura." - Ernest Hemingway
O que é mais importante em uma história, a trama ou seus personagens?

Essa é uma questão que gera discussões acaloradas dentro dos chamados "círculos literários". Defensores da "alta literatura" (seja lá o que isso signifique) defendem que os personagens são o elemento mais importante de uma obra. Já os partidários da "literatura de gênero" (seja lá o que isso signifique) advogam justamente o contrário.

E qual deles está certo? Não sei. Não me importa. A única coisa certa aqui é que não há consenso. Sendo assim você, como escritor(a), deve decidir qual dos elementos dará mais importância por conta própria.

Mas, caso esteja disposto a aceitar uma sugestão (e, se você chegou até aqui, acredito que esteja) você não deveria entrar nessa disputa. Para o bem de sua história.
Explico: Ambos os elementos - personagens e trama - devem ter o mesmo grau de importância. Tender para qualquer lado irá apenas desbalancear sua história. A importância de uma obra é medida por sua perenidade, ou seja, pelo que permanecerá com o leitor após o término de sua leitura. Uma trama excitante com personagens fracos será tão descartável quanto uma trama frouxa e incoerente permeada de personagens bem construídos. O segredo não está em dar mais valor a um ou outro elemento, mas balancear uma trama bem resolvida com personagens marcantes. Qualquer coisa abaixo disso e sua obra fracassará no desafio do tempo.
Tendo isso em mente, é hora de investir um tempo na criação de seus personagens. Você já tem uma Premissa, construída com o auxílio do Tema e do Conceito (se não tiver, volte três casas). Nessa premissa deve ter sido delineado seu(sua) protagonista. Talvez um antagonista também. É com eles que você deve começar, mas não pode parar apenas neles. É hora de construir o elenco que irá sustentar sua trama, que irá vivenciá-la. Basicamente, há três tipos de personagens:

  • Primários (Protagonistas e Antagonistas): Estes são a essência de sua obra. É através de suas ações, reações e decisões que a trama se centrará. Seus destinos serão o ponto central da história, bem como as consequências de seus atos. Tudo girará em torno deles. Torceremos pelos protagonistas e contra os antagonistas. Eles serão o alvo de nossa empatia. Toda história PRECISA ter um ou mais protagonistas e uma força antagonista (que pode ou não ser uma pessoa). Sem esse embate não há conflito. Sem conflito não há história. 
  • Secundários (Coadjuvantes): Os coadjuvantes não são o centro de sua história, mas ainda assim eles serão essenciais para o andamento da trama. São eles que irão auxiliar e/ou atrapalhar tanto protagonistas quanto antagonistas. Eles darão apoio ou motivação de forma direta ou indireta. Serão confidentes, traidores, vítimas, portos seguros. Orbitarão os protagonistas e antagonistas em diversos momentos, seja auxiliando ou colocando tudo a perder.
  • Terciários (Apoio): São aqueles que surgem apenas em alguns momentos da trama, seja para dar verossimilhança a alguma cena, seja para apenas fazer figuração, mas aparecerão e desaparecerão quando necessário. Poderão ter envolvimento indireto na trama, mas isso não é um pré-requisito.

No processo de planejamento é essencial construir de forma abrangente os personagens primários. É importante também trabalhar bastante nos secundários, mas não precisa chegar ao grau de detalhismo dos primários. Já os terciários podem ser criados on the fly, ou durante a construção da trama. Mas é muito importante ter personagens primários e secundários bem construídos antes de começar a escrever.

Tenho certeza que você já deve ter ouvido sobre a importância de construir "personagens tridimensionais" para a sua obra, de modo a evitar maniqueísmos e superficialidades. Eu concordo, mas o que são personagens tridimensionais? Quais são as três dimensões que definem um bom personagem?
Dica: Não são essas.
Na geometria as três dimensões que definem um objeto são altura, largura e profundidade. Na criação literária as dimensões são dadas apenas pela profundidade que penetramos na psique de nosso personagem. Assim, as três dimensões do personagem são:

  • Primeira dimensão: Como o personagem é visto pelos outros.
  • Segunda dimensão: Como o personagem se enxerga, graças à sua história de vida.
  • Terceira dimensão: Como ele realmente é, ou como ele age quando está sob pressão.

Na primeira dimensão temos o trato mais superficial de sua personalidade. Como ele se veste, qual sua aparência, trejeitos, como ele fala, no que trabalha, etc. É a casca que ele apresenta ao mundo. E sim, é importante definir esses traços, pois será através deles que o personagem irá interagir com outros personagens.

Já na segunda dimensão penetramos mais um pouco. Aqui definimos ideologias, traumas, recordações relevantes, neuras, manias. Debaixo de nossas cascas todos temos um arcabouço de memórias, experiências e eventos que auxiliaram na construção do que somos. Todas as nossas decisões e atitudes podem ser justificadas por estes elementos, então é importante dar a seu personagem um histórico, uma vida pregressa, uma série de eventos que contribuíram em sua formação até o momento que ele entra na sua história.

E a terceira dimensão? Bom, esta é a que realmente o bicho pega. É aqui que um personagem deixa de ser um amontoado de características e memórias, e "cria vida" (por favor, note as aspas). Porque não interessa o quanto tenhamos vivenciado ou nos esforçado para acreditar em determinada coisa, quando o momento crucial chega, quando precisamos tomar uma decisão de vida e de morte, quando estamos no fio da navalha, é aí que mostramos nossas verdadeiras cores. Um pacifista pode causar uma guerra mundial. Um notório covarde pode realizar um ato heroico. Um gênio pode chegar a uma conclusão estúpida, pelo qual todo o Universo sofrerá as consequências.
"Por quê eu não matei Isildur quando tive chance?"
Mas não pense nisso como algo arbitrário. A terceira dimensão é a soma das duas primeiras, mas com uma pitada extra de tempero, algo inesperado até mesmo para o próprio personagem. E é nessa pitada que está a diferença entre um personagem bom e um inesquecível.

Parece complicado? E é, pode acreditar. Ninguém disse que seria fácil, ou que eu daria aqui todas as respostas (até porque não as tenho). Mas no próximo artigo explicarei uma técnica que, mesmo não sendo infalível, irá auxiliá-lo na criação de personagens tridimensionais.

Até lá.


Este artigo é o quinto de uma série sobre a aplicação de metodologias no processo de escrita. O primeiro pode ser lido aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui. Continuem ligados para ler os próximos. 

23 abril 2015

A Promessa da Premissa


Muito bem, já temos um Tema, já elaboramos um Conceito, é hora de escarafunchar um pouco mais, abanar a neblina, assoprar a poeira e ver o que tem de verdade nessa coisa que chamamos de história. É hora de começarmos a nos comprometer com o que realmente será escrito. É hora de estabelecer uma PREMISSA.

E o que é uma premissa? Pode ir no dicionário dar uma olhada se quiser (Aliás, esse é um hábito muito saudável). Já olhou? Entendeu? Legal. No nosso caso específico, a premissa será o fator que irá vender sua história. Sim, isso mesmo.
"Mas eu nem comecei a escrever a história e você já quer vendê-la?". Calma, pequeno gafanhoto. Primeiro, como eu já disse no artigo anterior, você já está escrevendo a história. Segundo, estamos falando mais em termos de gerar atrativos do que de cifras e montantes.

Sua história precisa ser "comprada" por seus leitores. Eles precisam sentir um comichão irresistível para saber como ela se desenvolverá, e como terminará. Ele se interessou pelo tema, foi paquerado pelo conceito. Agora é hora de dar o bote e agarrá-lo. E a arma para isso é a premissa.

Uma premissa precisa se comprometer. Agora é hora de delinear efetivamente QUAL a história será contada. Entrar mais no detalhe, delinear um pouco mais os personagens e tudo aquilo que torna sua história interessante e instigante o suficiente para ser lida.

Tá, mas como fazer isso? Não é fácil. Temos pouca matéria prima em mãos ainda (de novo, apenas Tema e Conceito). Precisamos de mais coisas, de mais ferramentas. Bom, aqui uma lista do que uma boa premissa DEVE conter:

  • Um (ou mais) Protagonista(s): É hora de pensar na figura que impulsionará nossa história, que levará as bordoadas da trama e carregará nossa empatia até o ponto final. Mas não se preocupe com muitos detalhes ainda. Nesta etapa pode se ater à primeira dimensão (explicarei sobre dimensões de personagens no próximo artigo). Use arquétipos. Mas, se puder (e isso puder ser relevante para a trama), adicione um twist: "Um açougueiro vegetariano", "Uma freira com tendências sadomasoquistas", etc.
  • Cenário: Toda história se passa em algum lugar, e em alguma época. Diga onde e quando sua trama se desenrolará, mesmo que ela se passe em diversos lugares e épocas diferentes. Cite todos, se for necessário. "São Paulo, início do século XXI", "China, 250 a.C.", "Tralfamadore, do Big Bang à Entropia".
  • O Primeiro Ponto de Virada: ou, em bom português, Plot Twist. Um ponto de virada é quando a vida pregressa do protagonista vira do avesso e ele precisa agir. É o primeiro impulso da história, algo que a transforma de um simples retrato prosaico em uma trama, em uma sequência de eventos que puxarão seus leitores do primeiro parágrafo até o ponto final.

Só isso. Tudo isso. Se estes elementos forem adicionados, você terá uma premissa. Junte tudo em poucas frases, se possível. Mas não negligencie os detalhes. Aqui, mais do que nunca, o Diabo está nos detalhes. É hora de correr riscos, de elevar a barra. Não tenha medo.

Vou exemplificar. Imaginem a premissa abaixo:
Após a morte de seu marido, uma mulher vasculha seus e-mais e descobre um segredo terrível que virará sua vida de cabeça para baixo.
É uma premissa? É. Tem uma protagonista (a viúva), um cenário básico (é um trama contemporânea) e o primeiro ponto de virada (a descoberta dos e-mails comprometedores).

Agora, é uma boa premissa? Ela te deu vontade de continuar, de descobrir como a história se desenvolverá? Não, pois é genérica demais. Quem era o marido? Qual o segredo? Não precisa entregar todo o ouro, mas algo precisa ser dito, algo que seduza, que atice a curiosidade do leitor.

Vamos tentar de novo:
Após o assassinato de um milionário filantropo, sua viúva, ao ter acesso aos e-mails do marido, descobre que ele talvez esteja envolvido em uma rede de tráfico de escravas sexuais. Para desvendar essa história ela viajará pelos recantos pobres do Brasil até bordéis na Tailândia, numa experiência que colocará em xeque suas convicções conservadoras e sua própria sexualidade.
Pronto, já melhorou. Um milionário filantropo envolvido em tráfico de mulheres? Uma viúva conservadora em uma jornada para a descoberta tardia da própria sexualidade? ESSA é uma história que eu queria ver desenvolvida. Perceba a diferença: na primeira tentativa qualquer história podia se encaixar nela. Era uma premissa fraca, frouxa, descomprometida. Pouco mais que um conceito. Já a segunda instiga uma série de perguntas, que sua história precisará responder. Os personagens ainda estão pouco delineados, mas já há um direcionamento maior. Sabemos QUAL história será contada.

Deu vontade de escrever, não deu? Essa é a função da premissa. É seduzir não apenas um leitor hipotético, mas também o(a) escritor(a). Tema, Conceito e Premissa são ferramentas essenciais no processo criativo. Um Tema leva à um Conceito, que se solidifica em uma Premissa. Vapor, água e gelo. O etéreo começa a tomar forma, mesmo que ainda necessite de uma boa lapidação para se tornar arte.

E qual o próximo passo? Você adivinhou: Construção de Personagens. Mas isso é o assunto do próximo artigo.

Até lá.


Este artigo é o quarto de uma série sobre a aplicação de metodologias no processo de escrita. O primeiro pode ser lido aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui. Continuem ligados para ler os próximos. 

15 abril 2015

A Conceituação do Conceito

"Escritores são pessoas desesperadas e quando elas deixam de ser desesperadas elas deixam de ser escritoras." - Bukowski
Talvez lendo os artigos anteriores desta série você tenha se perguntado: E quando é que vamos sentar e escrever? Afinal um escritor é uma pessoa que escreve, não é mesmo? Por que perder tanto tempo com detalhes que poderão mudar a qualquer momento, que me impedem de despejar no papel todas as histórias que estão fervilhando em minha cabeça? Histórias têm personagens, tramas e reviravoltas. Todo o resto aparecerá durante a realização. No máximo durante a revisão. Por quê não estamos escrevendo então? Por quê? POR QUÊ?!
Então deixa eu te contar uma coisa: Você já está escrevendo sua história. A diferença é que aqui você está deixando de lado toda essa coisa de tentativa-e-erro (e correção e revisão, e re-revisão, e etecéteras e tais) e está preparando o terreno antes de efetivamente sentar e escrever. É o que difere um escritor intuitivo de um planejador (como vimos no primeiro artigo dessa série). É a diferença entre simplesmente escrever e criar uma história envolvente, coerente e publicável.

Aqui cabe uma analogia. Imagine um pintor de quadros. Ele tem uma ideia para uma pintura, fruto de uma inspiração, ou encomenda, ou mesmo do tédio, tanto faz. Antes de sair despejando suas tintas na tela, ele fez estudos, esboços, rascunhos. Experimenta técnicas, se sentir que precisa. Faz todo um planejamento prévio já que terá pouca ou nenhuma chance de corrigir a obra depois que a tinta secar. Só quando está seguro do que pretende fazer, de como vai fazer,  é que ele monta o cavalete, separa suas tintas, escolhe os pincéis, limpa o godê e veste a boina.

Qualquer atividade é assim, sejam elas mais ou menos artísticas. Há a intenção, o planejamento e a realização. Cada qual em sua devida ordem, ou a chance de que o resultado saia satisfatório caem drasticamente. Um cirurgião que não planeja a operação nos seus mínimos detalhes corre o sério risco de perder o paciente. O engenheiro que só sai empilhando tijolos é, no mínimo, irresponsável. Toda atividade necessita de três coisas: conhecimento, planejamento e ferramentas.

Por quê com a literatura seria diferente?

No artigo anterior eu expliquei a primeira dessas ferramentas: o Tema. Ele será o norte que sua bússola apontará, que dará direção à sua história. Mas um tema não é o suficiente para que você comece a escrever. Não ainda. Um tema é apenas uma ideia, uma fagulha inicial. É preciso expandir o tema. Ampliá-lo. É preciso estabelecer um CONCEITO para a sua história.
E o que é o conceito de uma história? Um conceito é um pouco mais do que um tema, e um pouco menos do que uma premissa (veremos sobre premissas no próximo artigo). Um bom conceito estabelece as fronteiras do tema e planta a semente da história. É aquele que já começa a traçar as linhas gerais, mas sem se aprofundar na trama ou nos personagens ainda. É o desenho com grafite duro na folha de rascunho, voltando à analogia do pintor.

É quando você se faz uma pergunta do tipo "E se...?", descrevendo um cenário hipotético qualquer. E essa pergunta desencadeia uma série de perguntas semelhantes. E é dessas perguntas, dessa ânsia em respondê-las, que surgirá a história.

Deixe-me exemplificar. Abaixo listo alguns conceitos de histórias já escritas. Tenho certeza que você será capaz de reconhecê-las:
  • E se um rapaz fosse picado por uma aranha radioativa que desse a ele as habilidades de um aracnídeo?
  • E se o mundo estivesse dominado por máquinas que transformaram os humanos em baterias, e a realidade nada mais fosse que uma elaborada simulação implantada em nossos cérebros?
  • E se, em um mundo fantástico habitado por cavaleiros e dragões, um rei morresse e deixasse o trono para seu filho, sem saber que na verdade o garoto é fruto de um incesto de sua esposa com seu cunhado, culminando em uma guerra pela sucessão?
  • E se um casal de adolescentes apaixonados, vindos de famílias rivais, forjasse um pacto de suicídio que os levaria realmente à morte?
Deu pra entender, não deu? Perceba que os personagens, mesmo que em alguns casos tenham sido referenciados, na verdade não foram realmente construídos. São apenas esboços. O que interessa aqui não é quem irá ter sua história narrada, mas O QUÊ será contado, de onde partirá a história. Todo o resto, as tramas, subtramas, reviravoltas e conclusões germinarão deste primeiro conceito.
É importante destacar que, diferente de um tema, que permite a inclusão de diversos subtemas ao tema central, um bom conceito não tem essa flexibilidade. Uma história com diversos conceitos na verdade não tem nenhum. Estabeleça um conceito, expanda-o o quanto for necessário, mas mantenha o foco, ou sua história ficará desgovernada e sem sentido. 

Outra coisa: Seu conceito não precisa ser diretamente relacionado a seu tema, mas deve, de alguma forma, remeter a ele. Isso é essencial, ou então de nada valerá esse esforço inicial. Lembre-se: sua história existe para que você trate do tema escolhido, e o conceito é a uma de suas ferramenta para este fim.

Faça você este exercício. Tente extrair o conceito de alguma história que você já tenha lido ou de algum filme que tenha assistido. Lembre-se: não é hora de colocar personagens nem trama. Apenas fazer perguntas hipotéticas a respeito da história.

Depois faça isso com aquela história que você está matutando há tempos, aquela que você quer escrever.

Mas não faça isso apenas em sua mente. Sente e escreva. Abra um bloco de notas e coloque em palavras. Trace o primeiro esboço. Faça as perguntas certas. Algumas apenas, que deixarão você (e, se tudo der certo, seu leitor) intrigado a respondê-las. Coloque o máximo de drama possível, o máximo de tensão que puder colocar em um conceito hipotético. É a hora de pirar o cabeção. Cadê aquele uísque?

Algumas dicas:

  • Conceito não é sinopse! Esse é um erro comum. O conceito não é sobre o personagem, é sobre a história onde os personagens estarão circunscritos. É um questionamento que o fará pensar no que você faria naquela situação. Fique tranquilo que você escreverá a sinopse em breve.
  • Tenha culhões. Evite conceitos genéricos e sem brilho. "Garoto sai de casa e vive grandes aventuras" não é um conceito. "E se um garoto fugisse de casa para escapar de um pai abusivo e entrasse em uma gangue de viajantes do tempo?" é muito mais instigante, por exemplo.
  • Adicione Drama e Conflito. Sei que é difícil, em linhas conceituais, explorar o drama e o conflito, mas dentro dos limites estabelecidos é possível sim já prenunciar o que virá. Sua história precisará de drama e conflito para funcionar. É hora de dar uma pista sobre quais dramas e conflitos surgirão. "E se uma prisioneira de um campo de concentração nazista fosse obrigada por seus captores a escolher qual de seus dois filhos irá sobreviver?". Alguém tem dúvida que há drama e conflito nesse conceito?
  • Não exagere. Temos a tendência de expandir tudo o que sentamos para escrever. Se sua história está implorando para ser escrita (e lida), isso significa que está no caminho certo. Mas vamos por partes. Expanda seu conceito até o ponto que perceber que está começando a contar a história. E então pare. Você escreverá essa história depois. Conceito é uma coisa, história é outra. Devagar com o andor.
  • Seduza. Seu conceito precisa ser instigante, convidativo, interessante o suficiente para que um leitor separe um tempo livre para se dedicar à sua história. Olhe nos olhos deste leitor hipotético. Ofereça uma bebida e uma promessa de horas e horas de entretenimento recompensador. E seja seduzido também. Criar é se comprometer. Comprometa-se.
Como exemplo coloco o teaser trailer de Tomorrowland, o novo filme de Brad Bird (Os Incríveis, Gigante de Ferro), ainda não lançado, que mostra de maneira magistral o que é um conceito. Aliás, este trailer é um conceito em sua forma mais pura. Temos vislumbres dos personagens e da premissa, mas nada além disso. Ele levanta uma questão hipotética instigante, e termina com uma simples pergunta: "Gostaria de ir?"

Eu sei que gostaria. E que vou.


Este artigo é o terceiro de uma série sobre a aplicação de metodologias no processo de escrita. O primeiro pode ser lido aqui e o segundo aqui. Continuem ligados para ler os próximos.

08 abril 2015

Não Tema o Tema

Ok, então você decidiu escrever um livro, fazer parte da elite intelectual, tornar-se imortal através de suas palavras e ideias, participar de saraus, encontros literários, noites de autógrafos, passar fome, viver na miséria e morrer como um indigente tuberculoso... Não, péra, me perdi aqui. Você quer ser um(a) Escritor(a). Com E maiúsculo. É isso.

Legal. Muito bom. O primeiro passo foi dado. É essencial ter um objetivo, uma meta. Não permita que ninguém o(a) desanime ou o tire de seu caminho. Estufa o peito e cospe o chiclete. Estala o pescoço e os dedos.

Mas antes de sentar e marretar o teclado, quero te fazer uma pergunta:

Por quê escrever um livro?


Não me olha assim. É uma pergunta honesta. Não precisa responder agora. Calma. Deixe-a marinar um pouco em sua cabeça. Caminha um pouco comigo. Cadê aquele uísque?

Escrever um livro é uma trabalheira desgraçada. Você vai perder horas, dias, meses, anos. Vai abdicar de grande parte de seu tempo livre no processo. Vai se frustrar, se desesperar, sofrer física e emocionalmente. Vai brigar com familiares, chefes e bichos de estimação por cada minuto livre. Vai ter uma ideia genial quando estiver longe do computador, apenas para esquecê-la quando conseguir garimpar um tempo para escrever. E no final de tudo ainda terá que revisar, reescrever, cortar, mudar, corrigir. Isso sem garantia nenhuma de publicação. E, mesmo se conseguir publicar, sem nenhuma garantia de sucesso. As chances de seu livro não passar da primeira edição e desaparecer nos catálogos é muito maior que o contrário. E nem me faça falar sobre o rendimento financeiro.
Desistiu? Não? Bom. Muito bom. Isso é um bom sinal. Isso te ajuda a responder a pergunta lá em cima. Você quer escrever um livro pois você não consegue não escrever esse livro, contar essa história. Mesmo com as perspectivas mais sombrias e recompensas limitadas. Você quer escrever um livro porque você precisa escrevê-lo.

Esse é o espírito. Vamos em frente. Próxima pergunta:

Sobre o quê escrever?


Parece bem básico, não é? Se você quer escrever, quer escrever sobre algo. Isso não é apenas importante, é essencial. Você não escreve para se tornar um escritor, você se torna um escritor escrevendo. E escrevendo sobre algo.

Mas é nesse ponto que a maioria dos escritores trava. Sobre o que é o seu livro? Do que ele trata? Em suma, qual é o TEMA de seu livro?

"Ah, é um livro de vampiros", alguém responde. 

Errado. Esse não é o tema. 

"É uma ficção científica hard passada em um planeta distante e...", diz outro, na fileira da frente.

Nope. Também não é o tema, é o gênero. Mais básico que isso. Mais simples. 

"É a história de uma menina que..." - deixe-me interrompê-lo. Também não é o tema, é o começo de uma sinopse. Pense na pedra fundamental de sua história, sobre a qual toda a trama e os personagens vão ser construídos. 

"É uma história de amor, pombas!".

Pronto. 

É isso.

Esse é o tema.
É isso mesmo. Não interessa se sua história tem vampiros chorões,  alienígenas purulentos, ou se passe em um mundo paralelo onde o chocolate é um veneno mortal (NÃÃÃÃOOO!!). Esses são os cenários, os personagens e as alegorias que você vai utilizar. Suas ferramentas de trabalho. Os meios para um fim. 

E o fim é o tema. 

Toda boa história tem um tema central, algum assunto específico sobre o qual o autor quer tratar, e sobre o qual o autor quer levantar questionamentos. "Matadouro 5", de Kurt Vonnegut, não é sobre um cara que viaja no próprio tempo, é sobre os horrores da guerra. "O Senhor dos Anéis" não é sobre hobbits tentando destruir um anel, é sobre a morte da mitologia. "Drácula" é uma história de amor. "Frankenstein" é sobre os limites éticos da ciência. "Hamlet" é sobre vingança.

Eu poderia continuar, mas acho que você entendeu.

De acordo com Milan Kundera em seu "A Arte do Romance" (1986, Companhia de Bolso), um tema é "uma interrogação existencial". É algo que mira para além da superfície, que lida com temas profundos da existência humana. E é sobre isso que sua história tem que falar. Escolha um tema antes de escolher seus monstros. Vasculhe seus sentimentos, desencave seus medos e aflições. Descubra sobre o quê quer escrever antes de começar a escrever. Isso lhe dará um norte, um objetivo a almejar com sua história. Uma boa história começa com um bom tema.

E onde encontrar um bom tema? Bom, aí é com você. O importante é que este seja um tema que você considere importante, algo que você é apaixonado(a), que te incomode, que sacuda suas crenças e convicções, que traga uma mensagem que você quer passar e um questionamento que você quer plantar na mente de seu leitor. 

Apenas tome cuidado para não ser óbvio ou cair no didatismo, ou em um moralismo panfletário. O tema deve permear a trama, mas nunca se fazer claramente presente. Ele deve estar implícito. Lembre-se da analogia da pedra fundamental, aquela que sustenta toda a estrutura mas que nunca é vista. O tema é o norte, mas nem toda jornada precisa ser até o Pólo Norte. Aliás, quase nenhuma é.

Também nada impede que a história tenha vários temas, mas é importante que ela tenha um tema CENTRAL, mesmo que cercado de subtemas. É sobre este tema que estamos falando aqui. A espinha dorsal de sua história. Todo o resto é acessório. Antes de pensar em como vai contar a história é importante definir sobre o quê será a história. Dê esse passo. Comprometa-se a ele. Você vai ver que, quando se sabe onde deve ir, o caminho se torna muito mais claro.

Depois de escolher o tema, é hora de traçar o conceito de sua história, ou o caminho até ele. Mas isso é o tema (viu o que eu fiz aqui?) do próximo texto.


Este artigo é o segundo de uma série sobre a aplicação de metodologias no processo de escrita. O primeiro pode ser lido aqui. Continuem ligados para ler os próximos.


01 abril 2015

O Discurso do Método (ou Pantsers vs. Plotters)


Visualize por um instante a figura romântica do “Escritor”. Aquela figura mítica, culta e inteligente, um tanto excêntrica, cercada de livros, papéis, anotações e copos de uísque. O cigarro pende no canto da boca enquanto o cérebro flana no meio das nuvens, desbravando a névoa do imaginário e pescando histórias no éter do inconsciente coletivo, munido apenas de sua criatividade natural, sendo carregado nos ombros de suas musas inspiradoras. O escritor de vocação, o gênio inato das palavras e sentenças, cujos dedos enfeitiçados tamborilam incansáveis o teclado de uma velha máquina de escrever, produzindo sempre obras-primas imortais. Tudo o que ele precisa é de um gole de uísque, tempo e um estoque infinito de papel.

Imaginou? Você queria ser ele, não queria? Confessa.

Bom, hora do choque de realidade:

Esse escritor não existe.
Ponto, parágrafo, outra linha e travessão.

Calma. Toma uma água. Ou um gole de uísque. Não, não tome o veneno que está em cima do piano ainda. Respira. Fica comigo. Não é porque não existe esse arquétipo do Escritor Divino que você precisa desistir da carreira. Talvez, mas não por esse motivo. Realidade é bom. Realidade põe os pés no chão e os dedos no teclado. Suas histórias precisam voar. Você não. Pega minha mão e caminha comigo um instante. Traz o uísque.

Aquele escritor não existe. Mas quais existem? Há muitas tentativas de catalogar os diferentes tipos de escritores. A mais recente os separa entre pantsers e plotters (ou planners). Uma tradução livre para estes termos seria “intuitivos” versus “planejadores”, no sentido que os primeiros simplesmente sentam e escrevem, tendo em mente apenas um fiapo de conceito e um esboço de protagonista, enquanto os outros planejam toda a história, criam toda a trama, constroem personagens, delineiam capítulos e reviravoltas antes mesmo de escrever a primeira linha. 

Vamos tirar um preconceito do caminho antes de continuarmos: É possível que um escritor “intuitivo”, que senta e escreve sem pensar a respeito, consiga produzir uma obra-prima? Claro. Perfeitamente possível. Aliás, muitos dos grandes gênios da literatura mundial podem ser considerados desta categoria. São os que mais se aproximam da descrição romântica lá do começo do texto. Mas estes são raridades. Se você é um deles, pare de ler esse texto imediatamente e vá escrever. Agora. Não olhe pra trás. Fique tranquilo, estarei na fila de seu lançamento. Mas saiba que te odeio com todas as fibras de meu ser. Dedicatória para seu grande fã, Alexandre, por favor. Morra afogado numa pilha fumegante de estrume, seu desgraçado. Obrigado.

Mas eu não sou um desses. E, muito provavelmente, você também não é. Pense um pouco em sua produção até aqui. Quantas vezes você tirou aquela história da sua cabeça, despejou-a no papel e ela se transformou em uma obra de arte logo na primeira versão?

Nenhuma, né?

Nem eu.
Calma! Fica comigo. Não tem nada de errado nisso. Todos nós começamos como escritores “intuitivos”, cujos primeiros escritos impublicáveis jazem inéditos em sua gaveta e que você não permite nem que sua mãe leia. Aqueles em que você morre de vergonha só de lembrar deles. Textos que você escreveu na empolgação, de uma sentada só, que jorraram sem controle ou plano. Eles são um passo necessário para a evolução, para o aprendizado. Deixa eles lá quietos na gaveta que é o lugar deles. Levanta a cabeça e siga em frente.

Alguns de nós sobem um degrau e começam a pensar durante a criação. A qualidade melhora um pouco, mas mesmo assim quase sempre terminam com um primeiro rascunho deplorável, que precisará de diversas revisões e reescrituras para se tornar minimamente legível, quiçá publicável. Isso quando conseguem terminá-lo. Porque, quando pensamos apenas durante a produção, corremos o risco de travar, de não saber pra onde ir em seguida. Alguns chamam isso de “bloqueio de escritor”. Outros botam a culpa em seus personagens, que subitamente “ganharam vida própria” e saíram do controle. Bobagem. Personagens não criam vida. E mesmo que criem, é você quem deu vida a eles, pode tirar quando quiser. Você é o deus de seus personagens, responsável por suas atitudes e destinos, então não se acovarde. E o tal “bloqueio” nada mais é que uma desculpa, um mito. Você se deixou levar pela maré e ela te jogou numa ilha deserta, sem chance de resgate, onde sua história definhará até morrer de inanição. Acontece. É um risco quando se é um escritor intuitivo.

E existem os planejadores. Os que pensam antes de escrever. Que delineiam toda a história antes de contá-la. Que sabem onde ela vai terminar antes mesmo de darem o primeiro passo. Que perdem dias, meses, escrevendo panos de fundo para cada personagem, mesmo que quase nada daquilo será diretamente usado ou referenciado na história. Que sabem o que vai acontecer em cada capítulo, em cada diálogo. Que efetivamente terminam a história que começaram a escrever.
Eu consigo ouvir seu Artista Interior berrando daqui. “Esse filho da puta quer matar sua criatividade! Fuja, salve-se, proteja sua obra! Ele quer assassinar sua integridade artística!”. Acredite, eu já ouvi esses mesmos berros em minha cabeça várias vezes. E, quer saber? Eles estão errados. Há hora e lugar para tudo. Organizar sua produção não significa suprimir sua criatividade, apenas concentrá-la onde ela é útil e necessária. Lembra-se daquele ditado, que a criação é “um por cento inspiração e noventa e nove por cento transpiração”? É sobre isso que estou falando. Não supervalorize a inspiração. Quem escreve só quando está inspirado não escreve nunca. E raramente termina o que começa. Consegue escrever talvez um conto curto. Uma anedota ou um poema, quem sabe? Mas se seu objetivo é escrever uma história longa, com diversos personagens, tramas, subtramas e reviravoltas, algo que irá consumir meses ou anos de sua vida, não dá pra contar apenas com inspiração, criatividade e espontaneidade. Você vai travar. Você vai abandonar o barco. E, mesmo que consiga terminar, terá em mãos um original impublicável que necessitará de inúmeras revisões e meses de retrabalho, sem nenhuma garantia de sucesso (neste caso, ser publicado). Pode ser que você dê a sorte de conseguir, por pura sorte ou talento inato, que sua obra fique boa de primeira. Mas as chances estão contra você.

Dentre as vantagens de planejar sua obra antes de escrevê-la, posso listar:
  • Sobrepujar o medo de começar: escrever um livro é uma tarefa hercúlea, e a perspectiva opressiva do trabalho ainda abstrato na mente faz com que muitos desistam antes mesmo de começar. Planejando você reduz o monstro desconhecido a um monstro mais familiar e manejável. Não diminui o trabalho, mas tira o medo de encará-lo.
  • Aumentar a agilidade: chega de perder horas e horas olhando a página em branco, sem saber pra onde a história deve ir ou o que fazer a seguir. Um planejamento prévio te dá o caminho das pedras de sua trama. Você sabe, no momento que senta pra escrever, o que irá escrever. Isso te livra das amarras da inspiração (mas não da criatividade). Se bem feito, um livro que levaria anos para ser realizado poderá levar uma fração deste tempo.
  • Reduzir as revisões e reescrituras: quando você terminar sua história, seu primeiro rascunho não será tão ruim (em comparação com a produção intuitiva). Claro, ainda serão necessárias algumas revisões e reescrituras, mas a vantagem é que, com um planejamento, você saberá exatamente onde e o que revisar, reescrever, adicionar ou cortar.
  • Terminar sua história: chega de bloqueios inconvenientes ou personagens rebeldes. Você é o dono da história, você dita a trama. Non dvcor dvco! Finish your shit!

Não estou aqui dizendo para você chutar seu Artista Interior pra fora do escritório e virar um "Operário Padrão" literário. Se você entendeu isso, por favor volte ao início e leia tudo de novo com mais atenção. A Arte precisa estar presente, precisa guiar cada passo. Mas ela não pode ser a única responsável pela sua produção. Você sabe como são os artistas. A Arte é uma soma de Inspiração e Criatividade, mas ela também depende de Esforço e Dedicação para sair do campo das ideias e se tornar algo concreto, compartilhável e apreciável. É preciso terminar sua obra de uma vez por todas. E para que você consiga isso, um pouco de planejamento prévio não fará mal algum. Muito pelo contrário. 

Planejar não significa engessar. Você é o dono de seu trabalho. Se no meio do caminho você perceber que seu planejamento está furado ou que descobriu um caminho melhor, nada impede que você mude todo o planejamento. Há margem para a criatividade, para o improviso, para a inspiração. A diferença é que nem você nem sua obra serão reféns destes elementos. Você sabe onde quer chegar. Se o caminho escolhido não funcionou, tente outro. Mas o destino não muda.

Então, ao invés de ficar aí resmungando sobre uma pretensa integridade artística idílica e romântica, por que você não tenta? Sente-se, planeje, delineie sua história. Depois a escreva de acordo com este plano. Você vai ver como é possível aplicar uma metodologia na criação sem necessariamente retirar o prazer da sua realização, nem a criatividade e a originalidade do produto final. Dê uma chance. Você não vai se arrepender.


Este artigo é o primeiro de uma série sobre a aplicação de metodologias no processo de escrita. Acompanhem o blog para ler os próximos.