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06 fevereiro 2015

Utopia x Distopia



Mesma cena: pai sentado assistindo TV num domingo a tarde. Chega a filha.

REALIDADE 1:


- Pai, queria te apresentar meu namorado...

- Namorado? E desde quando você namora?

- Pai, esse aqui é o Arlindo. Arlindo, esse é meu pai.

- Arlindo, é? Arlindo de quê? Bom, não interessa. Pelo menos não é uma garota. Você não é uma garota, é?

- Pai!

- Não senhor. Sou homem. Desde que nasci.

- Não dê uma de engraçadinho comigo, rapaz. Não sei quem você pensa que é, mas aquela lá é minha princesa, está me entendendo? Criada nos bons valores morais, vai à missa todo domingo e é virgem como um querubim. E é assim que ela vai permanecer até o dia do casamento, tá compreendido?

- Pai!

- Claro, senhor. Perfeitamente. Minhas intenções com sua filha são as mais...

- E eu lá estou interessado em suas intenções? Suas intenções são as minhas intenções, tá entendido? Se você pensar em mijar fora do balde eu pessoalmente vou garantir que você nunca mais mije de pé, compreendeu?

- Pai!

- Sim, senhor. Claro senhor. Quero assegurar que...

- Quem vai assegurar aqui sou eu. Você parece ser um bom rapaz. Já foi preso, se meteu em alguma encrenca? Onde foi que vocês se conheceram?

- No grupo dominical.

- Você não vai no grupo dominical. Que história é essa?

- É online, pai.

- Tanto faz. Me diga uma coisa, rapaz: em sua casa tem água?

- Três dias por semana, senhor.

- Pra mim é o suficiente. Vocês têm minha bênção. Agora me deixem em paz que vai começar o jogo.

REALIDADE 2


- Oi pai.

- Oi filha. Quem é sua amiga?

- É a Eleanor. E ela é mais que amiga.

- Outra namorada? Foram quantas essa semana? Três? Quatro?

- Pai!

- Estou brincando. Seja bem vinda, Eleanor. Você bebe?

- Um pouco.

- Maravilha. Senta aí que eu já trago uma cerveja e a gente conversa. Vai começar o jogo. Quer uma também, filha?

- Só um copo d'água, pai, por favor.

- Saindo um copo d'água e duas cervejas. No capricho!

18 março 2014

Caçadores do Sinal Perdido


- Bom dia! Em que posso ajudá-lo?

- Bom dia. Eu precisava de uma conexão para mandar um e-mail.

- Entendo. Qual é o seu plano?

- 4G.

- Olha, o 4G é meio difícil de encontrar. A gente nunca sabe onde ele está. Ele até aparece de vez em quando, mas vai embora rapidinho... Olha ele lá do outro lado da rua!

- Onde?

- Já foi embora. Eu não disse?

- Tudo bem, pode ser o 3.5G mesmo. É só pra mandar um e-mail...

- O que o senhor disse?

- 3.5G.

- Nunca ouvi falar. Ah, claro! Me desculpe. Esqueci completamente que o 3G de vez em quando exagera no RedBull e se acha mais rápido do que realmente é.

- Tudo bem, pode ser o 3G mesmo.

- Estou verificando por aqui, mas não sei o 3G se encontra neste momento. Ele assinou a folha de ponto, está dentro da área de cobertura, mas por algum motivo não consigo localizá-lo. Provavelmente está no banheiro. Sabe como é, né? Muito RedBull...

- Será que ele demora? Eu estou com um pouco de pressa.

- Não sei. Mas olha, se o senhor quiser posso chamar o EDGE.

- EDGE? Eu nem sabia que isso existia ainda.

- Pois é, ele já devia ter se aposentado. Aliás, acho que até já se aposentou. Mas ele não vai embora. A gente fica com dó e deixa ele ficar. Pra mandar um tuíte ou coisa assim. Ele é um pouco devagar, mas se o senhor tiver um tempinho tenho certeza que ele cumpre a tarefa. Eventualmente. Se não cair.

- Cair?

- É. Ele está meio velhinho, sabe? Anda mal das pernas. Cai o tempo todo. Tecnologia defasada, essas coisas. Mas se for só pra mandar um e-mail pode ser que ele dê conta do recado. Quer que eu o chame?

- Tem certeza que não dá pra encontrar o 4G ou o 3G por aí?

- Vou fazer o seguinte: vou chamar o EDGE e, enquanto a gente espera tenta encontrar o 3G ou o 4G. Tá bom assim?

- Pode ser.

- Tá bom. Então só aguar...

- Alô? Alô?

- Sua bateria está fraca. Conecte a um carregador.

- Não tem tomada aqui, mas é só pra mandar um e-mail. É urgente!

- ...

- Você está aí ainda?

- Bom dia! Em que posso ajudá-lo?

- Uma conexão! Pra mandar um e-mail!

- Desculpe, mas entramos no modo de economia de bateria. Todas as conexões foram desabilitadas.

- É só um e-mail! Pelamordedeus, é importante!

- Desculpe, não posso fazer nada. Conecte a um carregador.

- Não tem tomada aqui perto!

- Desculpe. Não posso fazer nada.

- Eu te odeio.

- Você quis dizer "Eu te amo"?

- Não.

- Ok. Vou desligar agora.

- Não, espera!

- Tchau.




13 setembro 2013

Jurandir


Nunca chamei Mãe de “maínha”. Nem de “mãezinha” nem de “mamãe”. É só Mãe mesmo, substantivo próprio, com inicial maiúscula e tudo o mais. Construiu sua força com muita bordoada que levou da vida. Mas nunca caiu de cabeça baixa. Engoliu orgulho e lágrimas junto com farinha de rosca, por muitas vezes a única coisa que sobrava pra comer. Chicão, o marido dela, fazia uns bicos na padaria. Trazia pão velho todo dia. De vez em quando alguma mistura. Lascas de queijo, mortadela e presunto que ele juntava dos lados da fatiadora. O dono da padaria não gostava que ele fizesse aquilo. Dizia que não era higiênico, essas coisas. Agora a gente tem que morrer de fome pra não correr o risco de ficar doente? Tinha dia que ele trazia um requeijão que tinha vencido fazia pouco tempo e que iam jogar fora. Dia de Requeijão era uma alegria. A Maninha adorava. Tão bonitinha era a Maninha. Mesmo magrinha e frágil que nem um pardal, ainda mantinha as bochechas do tempo de nenê. E aquele sorriso cheio de esperança inocente. Saudades daquele sorriso.

A Mãe e o Chicão viviam brigando. Lembro-me de quase todo santo dia ver Chicão berrando e esperneando, enquanto a Mãe só ficava parada, os braços cruzados, falando pouco, mas com a firmeza de um pilão. A briga sempre terminava com Chicão saindo pra gastar o resto dos trocados com cachaça. Tinha que implorar, se desculpar, se humilhar pra voltar. A Mãe nem sempre perdoava. Chicão já teve que dormir no relento mais de um par de vezes. De manhã ela o acordava com um copo de café e muito silêncio. No final faziam as pazes antes mesmo dele sair pro trabalho. De noite começava tudo de novo.

Um dia a briga foi feia e ele não voltou. Na primeira noite ela não disse nada. Só mandou a Maninha calar a boca quando começou a reclamar de fome. Comemos um resto de pão seco e fomos dormir. Na segunda noite não tinha nem resto de pão, nem nada pra comer. Fomos dormir bem cedo pra tentar esquecer a fome. No meio da noite a Maninha começou a ter uma tremedeira na cama. A Mãe olhou pra ela, botou a mão na testa e falou pra eu cuidar dela que ela ia arrumar leite com alguém, que a Maninha estava muito fraca e que eu não devia deixar ela dormir de jeito nenhum. Foi difícil. Tive que dar uns tapinhas e uns beliscões nela pra conseguir. Ela não tinha força nem pra chorar. A Mãe apareceu com meio copo de leite e deu pra ela. A tremedeira diminuiu, mas ela continuava pálida. Velamos por ela a noite toda. Logo de manhã a Mãe me pediu pra ir até a venda e trazer alguma coisa pra ela comer. Qualquer coisa. Faz fiado, mendiga. Mas traz comida pra essa menina. E eu fui. Entrei na venda, peguei pão, queijo, presunto e leite. Coloquei no balcão e pedi pro Portuga fazer fiado, que o Chicão depois pagava. Ele disse que a conta do Chicão estava grande demais e que não ia fazer fiado coisa nenhuma enquanto ele não pagasse pelo menos uma parte. Pedi por favor, contei que minha irmã estava morrendo de fome, mas ele não cedeu. Até me enxotou pra fora da venda. 

Fiquei desesperado. Não tinha mais ninguém pra recorrer. Comecei a implorar por uns trocados pra quem passava na rua, mas a maioria ou me ignorava ou pedia desculpas com uma cara de piedade falsa. Você sabe como, não sabe? É, a gente também sabe. Aquilo foi subindo meu sangue, me dando uma raiva. Eu não estava pedindo muito. Só queria uns trocados pra comprar comida pra minha irmã não morrer de fome. Mais nada. Mas ninguém tinha nada. Estavam todos atrasados. Não era irmã deles. Um menino forte como você não devia estar mendigando. Devia estar na escola ou trabalhando. Eu estava na escola. A Mãe nunca me deixava faltar. Não estava lá naquele dia porque era uma emergência. Não quero sua piedade. Não quero lição de moral. Quero sua ajuda, pelo amor de Deus!

Daí eu vi entrar na venda uma menininha de uns nove ou dez anos. Um pouco mais velha que minha irmã. Entrou sozinha e saiu logo depois com um saco de compras. Fui atrás dela, na esperança de que uma criança ainda tivesse um coração caridoso. Ou que fosse mais fácil de roubar. Esperei ela chegar numa rua mais vazia e parei na sua frente. Ela se assustou e nem me ouviu. Agarrou o saco de compras e começou a gritar. Tentei arrancar o saco de compras e sair correndo, mas ela estava tão agarrada que não consegui de primeira. Ela continuou gritando. Dei um tapa na cara dela e mandei calar a boca. Só piorou. Ela começou a chorar e a espernear. Tentei tapar a boca dela com a mão, mas ela me mordeu. Tive que bater forte na cara dela pra ela soltar. Ela soltou e caiu no chão, toda torta. Bateu a cabeça e apagou. Lembro que começou a sangrar na calçada. Fiquei um segundo indeciso se a ajudava ou se pegava as compras que tinham se espalhado no chão, quando ouvi alguém gritar. Saí correndo. Fugi mesmo. O que mais eu podia fazer? Quando eu vi tinha dois guardinhas me perseguindo. Levei um tempo pra despistá-los, e tive que ficar escondido enquanto me procuravam. Só consegui voltar pra casa era mais de meio dia. 

Cheguei e a Mãe não estava lá. Fui até o quarto e encontrei minha irmã esparramada de cara no chão. Corri até ela e deitei-a no meu colo. Ela mal respirava, mas quando conseguiu foi só pra sussurrar uma palavra: “Fome”. Foi a última palavra que ela disse. Tentei não deixá-la dormir, sacudi, bati em suas bochechas, berrei. Não adiantou. Quando a Mãe chegou, eu ainda estava chorando com ela no colo. Ela esfregou minha cabeça e pegou o corpinho de mim. Ajeitou seu cabelo e ninou a filha como se ela estivesse dormindo. Cantou pra ela. Por um instante acreditei que aquela canção iria trazer minha irmã de volta à vida. Juro que acreditei. Mas não funcionou. Não funcionou.

Maninha morreu.


A Mãe aguentou firme a provação de enterrar a caçula. No final perdoou Chicão, afinal ele também tinha perdido a filha. Ao invés de afastar, a dor os uniu mais ainda. Passado o luto, Chicão parou de beber e se endireitou. Entrou para uma igreja e renasceu em Cristo. Arrumou um emprego melhor. Botava dinheiro em casa e sempre trazia comida. Pouca coisa, mas já dava pra sobreviver. Ele e a Mãe quase não brigavam mais. Entre eles, porque comigo brigavam o tempo todo. Por causa de minhas notas na maioria das vezes, mas muitas vezes por qualquer motivo besta. Chicão vivia me chamando de “desocupado”, “inútil”, dizia que já que eu não ia me esforçar nos estudos, então eu tinha que sair da escola, arrumar um emprego, botar comida em casa. Mas a Mãe não ia permitir isso. Queria um futuro melhor para o filho. Pra que eu não passasse pelo que ela passou. Ela me dizia isso pra cada nota vermelha que eu tirava. E eu a amava por isso. Mas ao mesmo tempo eu concordava com o Chicão. É legal pensar no futuro, mas e se a fome chegasse antes do futuro? Ela já tinha feito uma vítima na família. Eu precisava ajudar. Já tinha idade. Depois eu voltava para a escola. Quando eu pudesse parar de pensar só no presente.

Eu tinha recém completado dezesseis anos quando veio a bomba: a Mãe estava grávida. Chicão comemorou como se fosse final de campeonato. Gritou aleluias pro céu e agradeceu sua bíblia surrada às lágrimas. A Mãe parecia feliz, mas era aquela felicidade culpada, como se fosse uma ofensa a Deus não ficar feliz com o nascimento de uma criança. Eu sabia o que ela estava pensando. Era mais uma boca. Mais uma despesa que teriam que arcar. Chicão estava melhor, mas não o suficiente pra sustentar de novo três pessoas. Ela já tinha perdido uma filha. Pela primeira vez vi a Mãe fraquejar. Foi só um instante, mas havia uma rachadura. Uma falha que poderia ruir toda sua fortaleza meticulosamente construída. Eu vi, e sei que ela viu que eu vi. Tanto que a primeira coisa que ela me disse quando fui cumprimenta-la foi para que eu não saísse da escola. Me fez prometer. E eu prometi.

Naquela noite o Chicão veio falar comigo. Falou um monte de abobrinha sobre Jesus e Deus, e umas coisas de desígnios divinos e de redenção. Disse que até já tinha conseguido arrumar um emprego pra mim junto com o pessoal da igreja, mas que a Mãe não tinha permitido. E nunca iria permitir. Não enquanto eu não me formasse. Ouvi sem retrucar, pois eu sabia que ali vinha bomba. E não deu outra. O desgraçado encontrou um jeito de botar em mim a culpa pela morte de minha irmã, e que ele não ia permitir que acontecesse a mesma coisa com seu próximo filho. Disse que naquela casa a partir de agora só teria comida para eles e para o bebê. Que o melhor pra todo mundo seria que eu fosse embora e me arrumasse sozinho. Disse que até pagava a passagem, desde que eu não dissesse nada pra Mãe.

Eu sabia que ele tinha razão. Não dava mais pra adiar. Depois que todo mundo foi dormir eu juntei minhas coisas, peguei o dinheiro que o Chicão me deixou e parti pra capital. Deixei uma carta pra Mãe, mesmo sabendo que aquilo não me redimiria. Prometi que um dia eu voltaria com um canudo debaixo do braço e dinheiro no bolso. Que ia ajudar ela a sair daquela situação. 

Mas eu sabia que era tudo mentira. 

Porque eu descobri da pior maneira que na cidade a vida pode ser muito pior. Muito mais perversa. Não interessa o quanto você queira, o quanto você reze, o quanto se esforce. Cada degrau que você sobe, escorrega outros dois. Aqui não dá pra subir sem ajuda. Sem uma mão amiga que, mesmo não conseguindo me puxar pra fora do poço, me ajude a evitar que eu caia no fundo dele. Pra escuridão da fome. Para um túmulo de promessas vazias e orgulhos dilacerados. 

Eu só queria poder voltar pra casa. 

Tem um trocado?

--
O texto acima é um estudo para um personagem que precisei construir como parte do Curso de Teatro que estou fazendo no Espaço Recriarte.

31 dezembro 2010

Kit Ressaca


- Pois não?

- Boa noite. Vou querer um Kit Ressaca.

- Claro. Engov, aqui está. Sal de frutas. Tem preferência de sabor?

- Sem sabor.

- Caubói então. Alguma preferência de analgésico? Temos Aspirina, Cafiaspirina, Advil, Melhoral, Tylenol, Neosaldina, Cibalena...

- Nossa, ainda existe Cibalena?

- Clássicos nunca morrem.

- Tem Cefaliv?

- Ah, agora estamos conversando. Mais alguma coisa?

- Tem Luftal?

- Está com medo de peidar na farofa?

- Ahahah! Não. A mulher pediu.

- Aqui. E leva um Atroveran também. Só pra garantir.

- Boa! Valeu.

- Feliz Ano Novo.

- Pra você também.

(Baseado em fatos reais e recentes. Adoro a Vila Madalena. Feliz 2011 pra todos)

18 outubro 2010

Liberdade


Ela puxou o longo vestido com as mãos enluvadas, evitando sujar a barra e os tafetás na poça imunda do meio fio. Teve que se equilibrar sobre o salto agulha do sapato de impecável pelica, branca como o resto do vestido. Em uma das mãos segurava junto ao peito um buquê de rosas brancas e lírios escolhidos naquela manhã. Com a outra ajeitou na cabeça a tiara presa à longa grinalda que jazia enrolada em seu braço. Toda branca, toda pura, exceto pelas cascatas negras que escorriam por sua face. Evitou todo e cada um dos olhares que se fixavam nela. Sabia ser uma figura antagônica, uma noiva entre malas, lanches, recomendações e agasalhos de moletom. Caminhou resoluta até o guichê e pediu uma passagem. Tirou o dinheiro de uma bolsa não condizente com o resto dos trajes e agradeceu com um suspiro. Portou o bilhete firmemente nas mãos até chegar ao local do embarque. Não havia ônibus algum lá, então ela tirou a tiara e esperou. As cascatas negras voltaram-se para a entrada da rodoviária duas vezes apenas. Uma quando o ônibus finalmente chegou. Outra quando ela entrou, apertando a imensa saia junto ao corpo. Ao passar por um grupo de garotas que aguardavam sua vez de embarcar, abriu a janela e atirou-lhes o buquê, o sorriso desviando as lágrimas.

25 agosto 2010

O Meme Egoísta*


– Oi.

– Oi. O senhor não me conhece, mas eu sou a Vânia, do 12. Olha, desculpa incomodar...

– Não, tudo bem. Está no intervalo. Pois não?

– Então, o senhor me desculpe, mas eu e minha família estamos tentando jantar e...

– A TV está muito alta?

– Não, nada errado com a TV. Meu marido também está assistindo ao jogo. É que...

– Sim?

– Bom, você sabe, somos uma família tradicional. Não nos agrada jantar ouvindo certos... Ruídos.

– Ruídos? Que ruídos? Estou aqui, sozinho, tomando uma cerveja, assistindo ao jogo. Tem certeza que foi daqui?

– Sabe, eu entendo que o senhor deve morar sozinho. E quando estamos sozinhos nós ficamos menos... inibidos. Mas acho que tem um certo... limite, entende?

– Não.

– A liberdade termina onde começa a liberdade de outro. Entendo que o senhor queira relaxar e assistir ao jogo. E você tem todo direito de querer isso. Só que nós também temos o direito de jantar em paz e...

– Como é que é?

– … como sou membro do conselho administrativo do condomínio e posso reclamar com o síndico e o senhor pode ser multado...

– Calma aí. Se eu estou sendo acusado de alguma coisa me diga do que é. Que tipo de barulho estamos falando aqui?

– Você sabe do que estou falando.

– Não faço a mínima. Estou aqui deitado no sofá, tomando uma cerveja, assistindo ao jogo, que aliás já começou, e de repente sou acusado de transtornar a vida de alguém. Ao menos quero saber o que estou fazendo de tão errado que justifique uma multa!

– Seus arrotos.

– Como é?

– O senhor arrota muito alto.

– Meus arrotos?

– É. Eles são muito altos. E longos. E às vezes parece que o senhor se esforça em ser criativo. Às vezes dá pra ouvir até você engasgando e tossindo. Desculpe-me mas é nojento.

– Você quer me multar por causa de meus arrotos?

– Não quero, mas...

– É sério? Não acredito! Me multa. Por favor me multa! E por favor especifique na multa que é porque eu arroto muito alto. Faço questão.

– O senhor está sendo irônico?

– "Sarcástico", mas tudo bem. Não estou. Juro. Pode me multar. Eu não vou parar. Uma das maiores alegrias de se viver sozinho é não precisar controlar suas necessidades básicas por causa de ninguém. Todo mundo arrota. Todo mundo peida. A senhora peida que eu sei. Só que se você peidar no meio da sala sua família vai ficar indignada. Aqui no máximo posso indignar meu gato, mas ele já passa o tempo todo indignado mesmo então não importa. Então se você quer me multar me multe. Sou culpado, admito. Mas por favor escreva na multa o motivo. Escreva que meus arrotos são muito altos.

– Por quê?

– Por quê? Pra colocar na internet, é óbvio. Imaginou? Meus amigos vão pirar! Vão querer vir aqui e conhecer a senhora. Se bobear a história se espalha. Vão xingar muito no Twitter. Quem sabe até conseguimos um TT!

– Um o quê?

– Uma multa de condomínio por causa de arrotos muito altos! Isso é genial! É instigante. É escatológico. Vai ser um hit, com certeza.

– Não estou entendendo o que você está falando.

– Tudo bem. Faz assim: eu fico aqui e continuo arrotando. A senhora liga pro síndico. Se der pede pra ele vir aqui em pessoa pra falar comigo. Monto a webcam em dois minutos aqui perto da porta. Eu filmo tudo. Pra corroborar a imagem da multa. É perfeito, perfeito. E quando forem fazer a multa não esquece: coloca que é por causa de meus arrotos muito altos.

– O senhor é maluco!

– Vamos lá! Não seria legal? Nos trendig topics do Twitter! Imaginou? A senhora não quer ficar famosa?

– Valha-me Deus!

– Isso, vai lá. Chama o síndico. Vou continuar arrotando aqui. Dois minutos eu monto a webcam. Você vai ver. Vamos ser um sucesso. Um SUCESSO. Vai lá. Pode fechar a porta. Isso. Tchau. Ah, vatomanocu, velha desgraçada.


18 agosto 2010

Turistas do Tempo



O primeiro foi em uma maternidade. “Eu queria me ver nascendo”, disse o rapaz que invadiu a sala de parto. Na delegacia explicou que viera do futuro, que usou uma máquina do tempo e que já tinha viajado por todos os melhores momentos de sua vida. Que havia deixado o nascimento para o final. Mas por que alguém com a capacidade de viajar no tempo viajaria para a própria história, a qual já havia sido testemunha? Por que não voltava, por exemplo, para o nascimento de Cristo então? “Não é assim que funciona”. Arrancou risadas dos policiais que o prenderam. Não aceitaram seu cartão de crédito como documento. Não interessa que tem foto! Senta aí, vagabundo. A notícia foi registrada em uma nota de rodapé nos jornais apenas graças à sua fuga naquela mesma madrugada. Sem arrombamento, sem invasão, sem truques. Nada. Tinha simplesmente sumido.

A investigação da corregedoria mal havia começado quando outros relatos semelhantes surgiram. Reclamações reincidentes de malucos invadindo casas se dizendo versões mais velhas de alguém. Apareciam e desapareciam. Uma epidemia. Surgiam normalmente em aniversários, formaturas, casamentos, primeiros beijos. Sempre muito emocionados. Não incomodavam. Eram apenas testemunhas. Por que não tentavam mudar alguma coisa? Corrigir algum erro, reconquistar um grande amor, evitar um grande prejuízo? “Não é assim que funciona”, respondiam sempre. E como funciona? Sorriam respostas.

Logo o fenômeno foi rotulado. Catalogado. Teorizado. Assimilado. Aguardado. Cada momento especial só estaria completo com uma auto-visita de seu eu-futuro. Ou então não seria tão especial assim. Olha, não vai rolar, tá? É que eu não apareci então acho que isso não tem futuro. Sou eu, não é você, entende? E todos entendiam. E desesperavam. E deprimiam. Quem se matava por não receber uma visita imediatamente se tornava um paradoxo. Não havia voltado no tempo por não ter um simples momento digno de revisitar ou porque se matou antes da tal máquina ter sido inventada? Filósofos se engalfinhavam nos corredores.

Maternidades começaram a reservar lugares nos quartos para auto-visitas. Pais e mães recebiam com abraços os filhos do futuro. Todo momento se tornou um evento, algo a ser lembrado em uma potencial revisitação. O sucesso de cada situação era medido pela presença ou não de algum viajante do tempo. Mas foi um beijo tão bom! Mas está um dia tão lindo! O que está faltando para se tornar realmente memorável? Por que escolhiam um momento em detrimento do outro?

“Não é assim que funciona”.

12 abril 2010

Colméia


Nós pousa. Mãe sabe. Mãe sentiu impacto quando nós sentiu. Nós sai. Nós engasga. Ar pesado. Muito oxigênio. Nós cai um. Cai dois. Nós volta. Mãe dá bronca. Nós é dispensável. Nós são nós, não é malha. Malha não desfaz com queda de alguns nós. Mãe manda respirar fundo. Nós obedece. Nós cai três, quatro. Mãe manda ficar. Nós fica. Cai cinco, cai dez, cai cem. Nós continua. Mãe manda. Nós fica. Nós não tem medo. Nós sente mudança antes de mãe avisar que nós vai mudar. Nós respira. Nós adapta. Nós sobrevive.

Nós invade.

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Texto escrito durante a oficina "O conto de ficção científica", ministrado por Nelson de Oliveira, e publicado a pedidos.

03 abril 2010

Uma Ideia Hipotética (Parte Final)


Seu nome era Metafórico. Ele era um cidadão hipotético vindo da classe trabalhadora, estereotipado como todo o resto. Mas quando chegou na idade madura, percebeu que algo estava errado, que havia algo ruim na verdade proferida pelos seguidores do Novo Estereótipo. Começou a juntar pessoas que pensavam como ele e caminhou pelas vilas espalhando sua palavra de revolta. Infelizmente, foi preso pelos Ortodoxos, graças a uma traição de Expiatório, um de seus seguidores mais fervorosos. Após um curto julgamento, foi torturado e morto.

Usurpador, outro dos seguidores, percebeu que poderia transformar a figura de seu antigo líder em um autêntico mártir hipotético. Juntou-se a outros antigos seguidores e começou sua pregação, fugindo para terras onde o poder dos Estereótipos ainda não havia chegado. Lá, Usurpador e os outros escreveram a hipotética história de seu mestre. Assim surgiram os Evangelhos Metafóricos, que seriam a base para a nova Instituição que se seguiria.

Com o passar dos anos Estereotipados e Metafóricos iam se espalharam pelo mundo conhecido. Tiveram contato com outros povos, que imediatamente consideraram novos Heterodoxos, cada um à sua maneira. Guerras se seguiram, com milhares de mortos. Os Estereotipados acabaram expulsos do Vale da Hipótese pelos Beligerantes, antigos proprietários daquelas terras, e sua guerra se estende por séculos.

Alheios a isso, os Metafóricos continuaram a crescer. Eventualmente seus seguidores acabaram por cometer os mesmos crimes que vitimaram seu mártir, mas poucos se importaram com isso. Descendentes do Usurpador original perceberam que haviam grandes falhas nos Evangelhos Metafóricos, e histórias que não deviam ser ditas, pois contradiziam seus interesses mais diretos. Por essa razão re-escreveram os textos, criando o Novo Evangelho Metafórico, revisado e com diversos cortes (o maior dele foi o capítulo escrito por uma discípula ferrenha, Apócrifa, que alegava ter tido um caso tórrido com Metafórico). E, graças a um período onde apenas os líderes metafóricos sabiam ler e escrever chamado Idade Excessivamente Romantizada, a ideia funcionou. Os Metafóricos enriqueceram e devido a isso diversos grupos dissidentes surgiram (primeiro os Reclamantes, que queriam uma parte dos lucros para eles, depois os Fantasmagóricos e finalmente os barulhentos Hipócritas), graças aos cada vez menos claros Evangelhos Metafóricos. Os Estereotipados, por sua vez, mesmo sofrendo uma perseguição ou outra, também prosperaram, especialmente graças a uma forte campanha publicitária.

Essa história não termina. E poucos se recordam dos tempos antes das ideias hipotéticas, estereotipadas ou metafóricas, onde todos eram felizes, mesmo apesar dos problemas, pois ninguém precisava usar mentiras e invenções para responder às pertinentes questões de Metafísica.

02 abril 2010

Uma Ideia Hipotética (Parte 2/3)


– Eu tenho as respostas para as questões de Metafísica! – Berrou o velho Estereótipo, fazendo uma pequena pausa dramática enquanto esfregava as mãos e sorria com o canto da barba. – Descobri que somos criação de uma divindade assombrosa, uma criatura tão sábia e poderosa que não só criou todos nós, mas também todo o mundo, o céu e as estrelas. E, assim que cheguei a esta conclusão, ele pessoalmente surgiu à minha frente e me explicou de onde viemos, para onde vamos e porque estamos aqui. É por isso que voltei, para redigir estas instruções, para que sejam seguidas por todos nós.

– E qual o nome dessa divindade? – perguntou Cético, pouco satisfeito com a explicação.

– Ele não tem um nome, mas como ele se manifestou a um de nós creio que podemos considerá-lo um dos nossos. Desta maneira vamos chamá-lo, a partir de hoje, de Deus Hipotético.

A vila, com exceção de Cético, que ainda não estava completamente satisfeito, exultou e uma grande festa se seguiu. Estereótipo levou meses para finalizar o que chamou de Evangelhos Hipotéticos, e rapidamente aquelas palavras se tornaram verdades absolutas, afinal, haviam sido ditadas pelo Deus Hipotético em pessoa! Os ensinamentos de Estereótipo traziam a chave para a felicidade não só terrena, mas também celestial. E os cidadãos hipotéticos os seguiam à risca.

A vila prosperou nos anos seguintes. Estereótipo, que já não era nenhum moço, adoeceu e caiu de cama. Seu jovem aprendiz, Coadjuvante, cuidou dele o tempo todo. E quando estava às portas da morte, Estereótipo chamou-o ao pé de seu leito.

– Coadjuvante, já é hora de você tomar conta de tudo. A mensagem foi passada, e só tenho mais um ensinamento a transmitir antes de minha morte.

– Sim, o que é mestre?

– Eu nunca falei com porcaria de divindade nenhuma – Pausa para a tosse. – Nada do que está escrito sobre isso nos Evangelhos Hipotéticos é verdade. Eles precisavam de respostas que eu não podia dar, e simplesmente inventei-as. Eles ficaram felizes com minhas mentiras, e pude manipulá-los para alcançar a paz que tanto prezamos. É hora de você continuar com essa história. Abandone o nome que tens, e adote um novo. A partir de hoje, deixas de ser Coadjuvante e torna-se Protagonista. – E em seguida o velho morreu.

O recém nomeado Protagonista ficou ao lado de seu mestre por bastante tempo, meditando a respeito do que acabara de ouvir. Horas depois saiu da casa e convocou nova reunião, onde contou que, no leito de morte do velho Estereótipo ele recebeu a visita do Deus Hipotético em pessoa, que o nomeou como seu sucessor. Portanto, a partir daquele dia ele seria o Novo Estereótipo, o representante terreno do Deus Hipotético.

E como primeira medida, Protagonista revisou os Evangelhos Hipotéticos, adequando-os à nova realidade. Criaram-se assim os Evangelhos Estereotipados, que alguns (liderados principalmente pelo filho de Cético, Crítico) viram como um veículo para que Protagonista tivesse mais poder, mas eram uma minoria, e logo suas vozes foram abafadas. Em poucos anos a Instituição criada pelo Protagonista já englobava não só a vila Hipotética, mas também todo o Vale da Hipótese. E sua palavra era lei, mesmo quando poucos entendiam suas razões. Protagonista enriqueceu e prosperou, mesmo sua terra ficando cada dia mais empobrecida e abandonada. Mas a isso ele retrucava que de que adianta uma fartura nesta terra, se o que realmente interessava era a eternidade ao lado de nosso querido Deus Hipotético?

E a maioria aceitava muito bem esse destino redentor. Com o crescimento desenfreado do número de fiéis, o Novo Estereótipo logo tratou de nomear ajudantes entre os que provavam sua verdadeira fé mais fervorosamente, que ele chamou de Ortodoxos. A eles era dada a missão de converter os infiéis Heterodoxos, que lutavam pelos antigos ideais do Velho Estereótipo, por bem ou por mal. Foi uma época triste, com muitos supostos Heterodoxos sendo torturados e mortos. Cético e seu filho Crítico não escaparam, assim como seus primos diretos, Racional e Coerente.

Até que, certo dia, um rapaz com ideias novas surgiu.

--
(Conclui amanhã)

01 abril 2010

Uma Ideia Hipotética (Parte 1/3)


(Já que o assunto é mentiras...)

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Era uma vez uma vila chamada Hipotética. Nesta vila viviam diversos moradores (Hipotéticos), com todos os problemas comuns de todos os dias, mas eles eram felizes. Caçavam, pescavam,
plantavam, cantavam, e viviam. Ocasionalmente envolviam-se em disputas e brigas por pequenos surtos de ganância e mesquinharia, mas estas eram raras e os prejuízos insignificantes.

Até que certo dia um morador começou a fazer algo que não era muito usual: perguntas. Seu nome era Estereótipo, e graças a sua grande capacidade inquisitória em pouco tempo ele tornou-se conhecido como a pessoa a quem deveriam recorrer em caso de dúvidas, pois, além de perguntas, ele buscava incansavelmente por respostas.

Eis que, certo dia Estereótipo foi visitado por três aldeões com perguntas esquisitas. Por que existimos, de onde viemos, para onde vamos, é bonito lá? Estereótipo, que até então nunca havia se preocupado com essas questões, voltou-se para a mulher que aparentemente os liderava: – Minha cara senhora, qual seria seu nome?

Metafísica, respondeu. E ao seu lado estavam Mero, o Figurante e Vaca, de Presépio. “Mas eles não são de falar muito”.

Estereótipo esfregou a icônica barba grisalha, avaliando se teria condições para responder àquelas perguntas de Metafísica. Pensou mais um pouco e então, esmurrando a mesa, exclamou que não sabia. Pombas!

Os aldeões saíram correndo, envergonhando o velho Estereótipo, que naquele momento decidiu que não daria as costas às perguntas de Metafísica. Imediatamente colocou-se a pensar, estudar e resmungar. Dias depois, sem encontrar as respostas que buscava por conta própria, decidiu retirar-se até um monte próximo, onde meditaria em jejum até encontrar explicações. Sentou-se embaixo de uma árvore frondosa por dias, semanas, trazendo preocupação aos aldeões hipotéticos, pois o sábio Estereótipo definhava a olhos vistos.

Mas ele não morreu. Num dia especialmente chuvoso retornou à vila e chamou todos os habitantes para uma reunião em sua casa. Lá, refeito após um farto banquete, bradou aos ventos:

– Eu tenho as respostas para as questões de Metafísica!

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(Continua amanhã)

24 março 2010

Não Nana Nenê


Papai tchau-tchau. Mamãe não aqui. Nenê gosta mamãe. Mamãe beija nenê. Quente-quente aqui. Nenê tosse-tosse. Nenê quer suco-suco. Tetê. Mamãe dá tetê Nenê. Nenê gosta tetê. Nenê quer colo. Nenê aqui e papai tchau-tchau. Quer Mamãe Nenê. Mamãe dá Dedé abraço Nenê. Sai Dedé. Quente-quente. Nenê quer tetê. Nenê chora. Nenê aqui carro corre-corre. Carro corre não-não. Quente-quente. Nenê quer casa. Quer vesseiro. Chora mais Nenê. Pepeta cai boca Nenê. Nenê chora mais. Nenê quer pepeta. Pega pepeta Nenê, Dedé. Dedé pega pepeta não. Dedé bobo. Nenê quer água. Nenê caca nariz. Mamãe limpa Nenê. Nenê gosta mamãe. Mamãe não aqui. Nenê chora. Nenê cansa. Tosse-tosse. Moça fora carro corre-corre. Moça vê Nenê. Moça fala. Nenê chora. Moça bate-bate janela. Moço bate-bate porta. Nenê cansado. Quer naninha. Quer vesseiro. Quer Dedé. Nenê quente-quente. Nenê tetê não. Moço grita. Moça grita. Grita não moça. Nenê soninho. Grita não moço. Nenê quer naninha. Tum, tum janela. Nenê chora. Nenê não chora. Nenê soninho quente-quente. Dedé pepeta tetê soninho. Quente-quente. Nenê quer mamãe. Moça não mamãe. Moço não papai. Soninho... Tum, tum. Acorda Nenê. Nenê chora. Nenê não chora. Janela bum. Nenê pula. Moça pega Nenê. Nenê soninho. Moça upa-upa Nenê. Nenê não chora. Nenê soninho. Moça upa-upa. Papai grita Nenê. Mamãe não grita Nenê. Nenê quer chorar. Nenê soninho. Papai upa-upa Nenê. Soninho... Moço fuu boca Nenê. Tosse-tosse. Fuuu. Nenê quer mamãe. Nenê quer tetê. Nenê quer Dedé. Nenê pepeta Dedé tetê. Papai chora. Soninho. Fuuuu. Mamãe nenê colinho vesseiro Dedé tetê papai. Soninho Nenê. Nenê dorme.

Nenê não chora.

17 março 2010

Nota de Falecimento


Morreu esta madrugada, em pleno exercício de inflamada hipérbole, aquele gigantesco perdulário. Aquele que desperdiçava nossas sagradas horas com seus intermináveis e desnecessários adjetivos. Que frequentemente maculava nossa fluidez com notadamente inócuos advérbios. Foi encontrado em decúbito dorsal, como convinha para a foto, o cadáver em rigor mortis repleto de irrelevantes termos técnicos. Morreu como queria, afogado no próprio vômito e debruçado numa rima sem teto. Deixa três gavetas e um romance, que sem sua obstinada persistência sequer existiriam senão numa metáfora óbvia. A polícia ainda não tem pistas de quem possa ter perpetrado essa grata contravenção, mas todos sabemos o porque. Por uma morte noir e estilosa, como em um conto policial formulaico. Uma morte sobrenatural, inexplicável. Um mistério a ser desvendado. Ao invés de o nome do carrasco, escreveu um enigma de próprio pulso. Um estereotipado detetive cuidará do caso. “Nós não podemos nos esquecer de tudo que ele nos trouxe. Devemos-lhe o devido respeito”, disse o detetive, cheio de pronomes e intervenções. Foi uma morte arquetípica, privada de sinônimos. Morreu e não deixará saudades.

Eu sou Ferdinando Galvão, o assassino do Chavão.

--
N. do A.: Este texto foi o resultado de um exercício proposto na aula de Marcelino Freire durante a minha Pós Graduação de Criação Literária. O exercício me deu três elementos: o nome do personagem (Ferdinando Galvão), sua profissão (locutor) e o início do texto ("Morreu nesta madrugada..."). O resultado foi esse aí. Desculpem se o título assustou alguém.

12 fevereiro 2010

(Banho de) Chuva de Verão


Escurece.
(Aí vem ela)
Faísca
e ronca.
Pinga.
Pinga.
Pinga, pinga, pinga.
E brilha
E geme
E treme
E cai.
Bate, molha, respinga.
(Onde você vai?)
E aumenta. E sopra. E uiva. E assovia.
E brilha!
E quebra!
(Esse caiu perto)
E encharca. E alaga. E retumba.
E derruba. E balança. E sacode.
E assusta.
E carrega.
E lava.
Enxágua.
Diminui.
Escorre.
Esvai.
E acaba.
(Tem uma toalha?)

05 janeiro 2010

Boceta - Ensaio Étimo-Ginecológico

boceta (ê)
s. f.
1. Pequena caixa de fantasia.
2. Cal. Vulva.

boceta de Pandora: origem de todos os males.



Quando somos crianças é simples. Menino é diferente de menina pois menino tem pipi. Fácil assim. Você é menina? Então você não tem pipi. Moleza. Nem cogitávamos nomear o que era aquele não-pipi que elas tinham. E também pouco interessava o tipo da torneira que elas usavam para urinar. Filosofia infantil é tão etérea quanto brigadeiro de festa.

Crescemos e começam as crises de identidade. Já ouvi dezenas de nomes diferentes. Alguns tentando debilmente imitar a sublime simplicidade de sua contra parte (“pipinha”, “xaninha”), alguns fazendo obscuras alusões a animais (“periquita”, “perereca”), outros bizarros e fadados à galhofa que nem merecem citação. Até que finalmente elas encontram uma que todas adotam até o princípio da puberdade.

Xoxota.

De minha parte acho um nome feio para algo tão bonito. Felizmente com o passar do tempo este termo também cai em desuso, sendo usado apenas em legendas malfeitas de filmes pornôs idem (“Oh, baby, lambe minha xoxota...”). Depois começa a fase ginecológica. É vagina mesmo. Parece nome de doença. Talvez resquício de uma sociedade patriarcal, mas analisar isso foge do objetivo deste texto. Vagina é uma denominação genérica. Até minha avó tem vagina. Definitivamente é um nome que não diz nada.

Mas nós, meninos, sabemos como chamá-la antes mesmo de saber o que fazer com ela. O nome sempre surge, murmurado por um tio, engasgado por um colega que ouviu de outro colega que tampouco sabe o que é. Mas sabemos que é ali que devemos nos concentrar. É ali que devemos entrar com nosso ex-pipi (agora já denominado “pau”, “pinto”, “cacete” e, glória das glórias, “caralho”). Mesmo que no começo confundamos o chumacinho de pelos que a recobrem com a propriamente dita.

Quem?

A Boceta.

Acabamos descobrindo-a aos poucos. Um sentido de cada vez. Primeiro é o tato. Dedos trêmulos invadindo uma calcinha. Roçando pelinhos pubentes. Tocando as bordas exteriores. Sentindo o calor. Depois a visão, quando finalmente fugimos dos cantos furtivos e as despimos na intimidade. O olfato é aproveitado apenas segundos antes do paladar. A audição é atiçada quando ouvimos o delicioso chec-chec úmido de nossas carícias. Todos os sentidos em um único ponto.

E quando descobrimos que aquele único ponto tem diversos outros pontos? Lábios externos, lábios internos, clitóris... Cada ponto, cada reintrância deve ser tocado, acariciado, aproveitado. Nada como uma boceta bem tratada para arrancar gemidos de suas profundezas. Penetre-a com carinho na primeira vez. Em todas as primeiras vezes. Depois apenas siga seu ritmo. Ela que manda. Ela que guia. Sinta-a. Ouça-a. Ela sabe o que faz.

E quando ela sabe, você sabe.

E quando você sabe, elas voltam.

30 dezembro 2009

Memórias de um Diálogo Reincidente

– Por que você é cabeludo?

Porque sim, oras.

– “Porque sim” não é resposta.

E qual é o problema?

– Problema nenhum. Só acho estranho um cara com mais de trinta e cabelo comprido.

Mais de trinta? Você está dizendo que cabelo comprido é coisa de moleque?

– E não é?

E que eu, mantendo o cabelo comprido, estou tentando parecer que faço parte de uma faixa etária que já não pertenço mais?

– Ou isso ou...

O quê?

– Ah, você sabe. Esquece.

Bicha?

– Isso.

Não sou. Mas não expulsaria o Mick Jagger de minha cama.

– Hã?

Referência. Hair. Sabe? A peça, o filme. Achei adequado. Esquece.

– Não assisti.

Imaginei.

– Então por quê?

Eu não queria falar nisso, mas... Minha religião não permite.

– E qual é a sua religião?

Sou ateu.

– Besta.

Tenho o cabelo comprido porque gosto. Só isso. Gosto mais de me olhar no espelho cabeludo do que de outro jeito. Pelo mesmo motivo que você.

– Vaidade?

Também. Mas não só isso.

– Dá pra perceber.

Como é?

– Teu cabelo não é... Como posso dizer? Dos mais bem cuidados, né?

Cuido o suficiente.

– Há controvérsias.

Tá, cuido pouco. Cuido mais que a maioria. Uso shampoo específico, passo cremes, máscaras...

– Vai no cabeleireiro?

Vou. De vez em quando. Pra cortar as pontas.

– Já pensou em fazer escova progressiva?

Aí já é exagero. No máximo uma hidratação. Mas eu tenho mania de prender o cabelo molhado.

– Tá explicado o frizz...

Né? É um saco. Quando vou escolher um shampoo levo no mínimo meia hora. Tem que ser uma marca boa. Tem que ser do tipo específico do meu cabelo. Tenho que ler as instruções, e sempre que leio as instruções eles me induzem a comprar toda a “linha de tratamento”. E eu vou lá e compro a porcaria da linha de tratamento inteira. Shampoo, condicionador, creme para pentear, creme pra passar de duas a três vezes na semana, creme pra passar uma vez por semana. Silicone pras pontas. Pente de madeira. Elástico sem junção de latão pra não quebrar os fios. E mesmo assim fica essa nuvem ressecada sobre minha cabeça.

– É o preço da vaidade. Tudo bem. Entendi. Agora...

O quê?

– E essa barba?

Não quero falar sobre isso.

– Mas...

Deixa minha barba em paz!

12 novembro 2009

[Exercício Borgeano] A Baleia - Herman Melville

Caso fosse perguntado em seu leito de morte qual de suas obras tinha mais orgulho de ter criado, Herman Melville provavelmente não teria citado aquela que o levou à posteridade. Escritor propenso à aventuras (não só literárias), experimentou o sucesso com seus primeiros livros, Typee (1846) e Omoo (1847), inspirados em suas reais aventuras no mar, quando finalmente decidiu arriscar-se, suplantar a barreira do “autor de massas” e tornar-se um artista respeitado. Para essa empreitada ele inspirou-se em um trágico evento real: em 1820 o baleeiro Essex foi afundado por uma baleia no meio do oceano pacífico, vitimando dezesseis dos dezenove tripulantes da embarcação. Melville fez uma intensa pesquisa investigativa sobre o caso, chegando a entrevistar os sobreviventes pessoalmente. Assim surgia, em 1848, A Baleia, longa e minuciosa reportagem a respeito não apenas do incidente, mas dos torturantes dias que os marinheiros lutaram contra a natureza e a loucura enquanto navegavam a deriva pelo oceano, longe de quaisquer rotas ou esperanças de resgate.

Infelizmente dois fatores contribuíram muito para o fracasso editorial de A Baleia. Primeiro o tom folhetinesco com o qual Melville tratou a tragédia. Um dos sobreviventes, Thomas Nickerson, chegou a ameaçar processar o autor, mas o processo não avançou pois na mesma época Nickerson teve sua vida devastada com o descobrimento que ele e os outros dois remanescentes do afundamento do Essex recorreram ao canibalismo durante seus aflitivos dias à deriva. Pior: chegaram a realizar sorteios para decidir quem seria executado e servido aos restantes. O escândalo preocupou os editores de Melville, que recolheram a obra das livrarias poucos dias após seu lançamento.

Capa da única edição remanescente de "A Baleia",
atualmente exposta no Museu Herman Melville em ArrowHead

Desesperado, Melville percebeu que, de modo a conseguir aproveitar aquela história e, ao mesmo tempo, ser reconhecido como artista de respeito, deveria adaptá-la. Desconstruí-la como fato e reconstruí-la como alegoria. Precisava se afastar dos detalhes mais grotescos e aprofundar-se na alma dos personagens. Assim nasceram tanto Moby Dick, a baleia, quanto Ismael e Ahab. Do original sobrou apenas o fato de uma baleia ter afundado um navio. Até a raça da baleia ele mudou, trocando a cinzenta cachalote pela poética baleia branca. Em 1851 Moby Dick chegou às livrarias.

Mas Melville se precipitou. Lançou sua obra mais ambiciosa apenas três anos após o estouro do escândalo do canibalismo no Essex. Seu livro foi recebido com frieza tanto pelo público quanto pela crítica, o que o fez retornar de vez à literatura de aventura. Diferente de Ahab em seu derradeiro encontro com Moby Dick, Melville não deixou que sua criatura o arrastasse às fossas de uma obsessão.

Mas é em A Baleia que vemos um outro Herman Melville. Vemos lá um autor dando os primeiros passos em direção a uma maturidade artística. Maturidade essa que podemos comprovar, a despeito do fracasso em seu lançamento, em Moby Dick. Mas também vemos lá uma obra que, caso fosse lançada em outras circunstâncias, poderia retirar de Truman Capote o título de criador do estilo “romance não ficcional” com seu A Sangue Frio, lançado mais de cem anos depois.

Ironicamente, em 2001 o autor americano Nathaniel Philbrick lançou o livro No Coração do Mar, que narra a tragédia do Essex nos mínimos detalhes jornalísticos. A obra foi baseada nos diários do próprio Thomas Nickerson, que encontravam-se perdidos até 1980. Por este livro Nathaniel ganhou o National Book Award daquele ano.

Em seu leito de morte provavelmente Herman Melville não citaria nem A Baleia nem Moby Dick, o que é uma pena. Mas tudo bem. Caso A Baleia tivesse sido um sucesso em seu lançamento, provavelmente nunca conheceríamos Moby Dick, uma das obras mais influentes da literatura mundial.


Este texto foi escrito em resposta a um exercício baseado num trecho de Ficções, de Jorge Luís Borges, que disse: “Desvario laborioso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas páginas uma ideia cuja exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que estes livros já existem e apresentar um resumo, um comentário”. Ou seja, o tal "livro perdido" de Melville não existe.

16 agosto 2009

Uma Questão de Perspectiva

Maria sempre foi um doce de pessoa. Linda e simpática, aos quatorze anos foi eleita por unanimidade Rainha da Primavera na escola, título que a levou a ingressar um uma bem sucedida carreira de modelo. Aos dezessete já havia ganhado mais dinheiro com sua estonteante beleza que seus pais durante toda a vida. Desfilou em Milão, Madri e para costureiros consagrados em Paris. Mas mesmo com todo o sucesso conseguiu manter a humildade e a simpatia que a tornaram tão famosa.

Mas a carreira de modelo teve vida curta e, aos 23 anos, arriscou-se no cinema. A nova carreira não lhe rendeu os frutos esperados, mas rendeu um casamento com um diretor de Hollywood, numa daquelas histórias típicas de contos de fadas. Casaram-se após um curto namoro, tamanha a intensidade da paixão que sentiam. Mudaram-se para uma portentosa mansão em Beverly Hills, onde conseguiam ficar longe da atenção exagerada dos paparazzi. Maria vivia um sonho encantado.

Mas certo dia a filha do primeiro casamento de seu marido foi expulsa do colégio interno que frequentava e então mudou-se para a casa de Maria, que se esforçou ao máximo para recebê-la bem. Surpreendeu-se com a beleza da menina, com seus cabelos negros como ébano, seu lábio vermelho como sangue e, sobretudo, com a pele, branca como a neve. Enxergou na menina um pouco de si própria. Numa conversa com o marido, pediu permissão para iniciá-la na vida de modelo.

Mal sabia ela que aquele seria o princípio de seu fim.

A menina, apesar de bela como uma antiga boneca de porcelana por fora, possuía um estofo repleto de maldade e de rebeldia adolescente. Por mais que a pobre Maria tentasse, não conseguia domar a jovem fera. Era frequentemente desrespeitada em público, vítima de birras, xiliques e de brincadeiras cruéis por parte da enteada. Mas tudo sempre longe das vistas do pai, que sempre a descrevia como um anjo sem asas que havia aterrisado em suas vidas. Maria evitou ao máximo contar sobre suas agruras para o marido, temendo ser mal compreendida. Ao invés disso tomou para si a missão de fazer a garota amá-la verdadeiramente.

Durante as produção de seu novo filme, o marido de Maria se ausentou, deixando-as sozinhas na casa. Maria viu nisso uma oportunidade para se relacionar com a enteada. Tentou ao máximo compreender o estranho gosto musical da menina, as manias e trejeitos. Tudo em vão. Quanto mais Maria se esforçava em busca do afeto da enteada, mais elas se afastavam.

Um dia a garota disse que gostaria de fazer compras na cidade. Maria se ofereceu para acompanhá-la, mas ela obviamente recusou. Como era menor de idade, não convinha deixá-la ir sozinha. Pediu que seu motorista, o fiel Hunter, a acompanhasse. Inquirida pelo motorista se haveria alguma ordem ou disciplina a ser seguida, ela respondeu com a sinceridade da maternidade frustrada: “Faça tudo o que ela pedir. Tudo o que desejo dela é seu coração”.

No final da tarde Hunter retornou. Sem a garota. Disse que ela o havia enganado e fugiu na multidão. Passou a tarde procurando-a, em vão. Em pânico Maria decidiu não alertar as autoridades, com medo que o escândalo na mídia assustasse o pai, que estava longe demais para ajudar. Ao invés disso ordenou que Hunter a procurasse onde quer que fosse. Conseguiram, após dias de buscas, descobrir que a garota havia fugido para um apartamento no bairro latino. Por alguma razão desconhecida ela havia se infiltrado numa incomum gangue de anões intitulados “The Diamond Diggers”.

De posse do endereço, Maria sabia que de nada adiantaria ela aparecer lá e simplesmente resgatá-la. A rebelde garota não voltaria para casa de livre e espontânea vontade. Com isso em mente ligou para sua maquiadora e pediu a ela que a disfarçasse o máximo possível. A maquiadora levou horas, mas conseguiu transformá-la numa autêntica velha. Também embebeu uma maçã, a fruta preferida da menina, em calmantes. Com ela entorpecida seria mais fácil trazê-la de volta para casa, onde poderiam lidar melhor com a crise familiar sem a interferência de estranhos. De posse da suculenta maçã e completamente irreconhecível com a maquiagem de velha, partiu em direção ao apartamento dos anões.

Foram necessárias algumas horas de vigília até que eles tivessem certeza que a garota estaria sozinha no apartamento. Quando o último dos anões saiu ela se dirigiu até a porta e tocou a campainha. Seu estômago se revirou quando viu a moça pelo vão da porta. “Quem é você?”, perguntou ela, petulante. “Sou a vizinha do andar de baixo”, respondeu Maria com o texto previamente planejado. “Percebi que você se mudou recentemente e é um costume do condomínio recepcionar novos moradores com um gesto de boas vindas”. “Que gesto?”, perguntou a garota, desconfiada. Maria estendeu a lustrosa maçã. A garota, com um ar enfastiado, pegou a fruta e mordeu, sem ao menos agradecer. Maria ficou observando quando a garota engasgou com o naco mordido e começou a se estrebuchar em pânico. Desesperada, Maria tentou ajudar, mas a garota caiu no chão, ainda se debatendo. Em pouco tempo desmaiou, incapaz de respirar. Maria sacou o celular e ligou para emergência. A ambulância chegou em poucos minutos. Viu quando a enteada foi atendida por um jovem e bonito paramédico, que conseguiu retirar o pedaço de maçã de sua garganta e a ressucitou com uma respiração boca a boca.

Neste meio tempo os anões retornaram e, não reconhecendo aquela velha estranha como vizinha ou como a madrasta de sua protegida, perseguiram-na. Maria tentou fugir, mas em seu desespero para chegar ao carro atravessou a rua sem olhar para os lados, sendo atropelada em cheio por um ônibus que passava.

No final das contas a garota acabou se envolvendo com o paramédico que salvara sua vida e nunca mais voltou para casa. Já a pobre Maria, incapaz de se defender das inevitáveis fofocas dos tablóides sensacionalistas, ficou para sempre conhecida como a cruel e invejosa madrasta que havia morrido logo após tentar sufocar a bela enteada.

Pobre Maria.

30 julho 2009

Arrebatamento


Asneiras!, gritava o decano com sua voz rouca de maços e maços, sempre que recebia mais um elogio. Bajulações estapafúrdias!, guinchava, sacudindo de leve sua bengala. Todos sorriam de sua modéstia agressiva. Ele tinha crédito. Ele tinha aval. Ele havia escrito "A Penumbra Outonal". Ele havia chegado na perfeição absoluta do uso da língua. Não só isso. A associação de idéias revolucionárias entre si. A fluidez da trama ágil e ao mesmo tempo detalhada. Tudo sem exageros. Sem devaneios. Tudo perfeito. Uma obra a ser analizada por gerações e gerações.

Os poucos que o liam antes de "A Penumbra Outonal" diziam que seus textos eram bons. Bem razoáveis até. Mas ninguém nunca entendeu como de repente uma obra tão maiúscula havia surgido de um escritor tão... medíocre. Havia potencial, claro. Mas também havia obsessão. Havia uma paixão que ardia tanto que transformava o ato da criação em um parto explosivo. Mas sempre insatisfatório. Sempre autocrítico. Estava bom mas... Algo faltava. Naquela época ele ainda aceitava os elogios. Dizia que o incentivavam, mas era apenas a educação mascarando a frustração crescente. Ele podia mais que aquilo. Sabia que podia.

E então surgiu. No átimo final da crise de desespero. Em uma entrevista após o lançamento ele declarou que tinha sido algo semelhante a "um tapa de uma divindade qualquer em minha face, retirando todas as dúvidas e me mostrando o caminho". Se arrependeu por anos por essa afirmação, vendo ela sendo deturpada para fins fora do contexto original. Mas colheu em vida os louros do sucesso, coisa rara no meio artístico. Desfrutou da fama e dos prazeres por ela propiciados. Por meses a fio não escreveu uma linha sequer. Ele já podia morrer. Tinha escrito sua obraprima.

Mas não morreu. E com o tempo o vinho perdeu o sabor e o sexo se tornou um monótono clichê. E ele decidiu que era hora de voltar a escrever. E escreveu sem parar. Contos, novelas, romances. E foi sempre muito elogiado por todos seus trabalhos posteriores. Seus livros sempre vinham com "Do autor de 'A Penumbra Outonal'" em cima do título. E sempre vendiam muito.

Mas mesmo com o sucesso a amargura cresceu. A autocrítica ainda estava lá, firme e forte. Ele havia superado seus limites. Elevou a barra num patamar tão alto que não tinha mais como alcançá-la. "Eu poderia escrever sobre galinhas d'angola gagas por quatrocentas páginas e as pessoas ainda comprariam e elogiariam", reclamou ele em uma entrevista recente. E a platéia riu. Riu de sua desgraça. Riu de seu desespero.

Quando foi encontrado estava debruçado em sua escrivaninha, como que dormindo. A expressão não era da costumeira paz cadavérica, mas dura e pesada, como se ele tivesse finalmente sucumbido ao cansaço de aguardar pelo retorno daquele divino tapa que ele nunca mais levou.

01 abril 2009

Identidade nos Tempos de Twitter


– Você entrou no Twitter, pai?

Tentou decifrar a linguagem em código da filha. Não queria parecer antiquado como seu próprio pai, mas estava cada dia mais difícil. Calma. Ganha tempo. Finge que estava distraído.

– Entrou no que, minha filha?

– No Twitter. Não me enrola.

– Do que você está falando?

– Mãe! O pai tá fazendo aquilo de novo!

– Deixa ele, minha filha...

– Que papo é esse? Encontrou alguma coisa minha aí no teu notebook?

Péssima estratégia. Tinha sido só uma vez. E nem tinha achado bom. Tanta janela aberta o fazia sentir meio exposto. E tinha apagado o histórico, não tinha? Não faz cara de preocupado.

– Vai me dizer agora na minha cara que @RonaldoSiqueira não é você?

– Depois do arroba meu nome é esse mesmo.

– Eu sabia! Ah, eu não acredito!

Passos pesados e o estrondo de uma porta batendo encerraram a conversa.

@

– Ela está brava comigo ainda?

– Também não é pra menos, né Ronaldo? Que absurdo!

– Ah, nem começa. Foi só uma vez. Fui abrir o anexo de um e-mail do Marco e tudo começou sem que eu pudesse evitar. E eu tentei! Mas foi uma confusão tão... Que eu...

– Do que você está falando?

– Nada. Que foi que eu fiz que eu nem sei?

– Olha, pode brincar com o Twitter à vontade. Não é esse o problema. Mas não precisa seguir a menina, precisa? Deixa ela em paz.

– Seguir? Mas eu não sigo ninguém!

– Estava seguindo quarenta e cinco ontem de noite que eu vi. Sua filha inclusive.

– Quarenta e...

– Francamente, Ronaldo!

@

Levou algum tempo até que ele compreendesse tudo aquilo. Mal tinha acabado de decifrar o conceito de comprar um livro numa página de internet e foi apresentado ao universo do microblogging, dos cento e quarenta caracteres, de falar com ninguém e ao mesmo tempo com todo mundo, essas coisas. Achou uma tremenda bobagem. O que ele iria contar de interessante?


07:12 Cheguei atrasado. De novo. Espero que meu chefe não repare.

07:14 @Chefe Bom dia para o senhor também.

11:55 Cinco minutos para o almoço. Espero que tenha tiramissu hoje.

13:47 Não tinha. Comi torta holandesa. Muita manteiga. Quase duas horas de almoço mas valeu a pena #siesta

13:48 @Chefe Também acho. Com certeza. Não vai se repetir.

E por aí vai. Quem se interessaria por isso? Ele tinha mais o que fazer do que ficar narrando a própria vida.

Ou não tinha?

@

E quem era esse outro Ronaldo Siqueira? Um homônimo? Muito provável. O fato deste outro ter começado a seguir sua filha podia ser apenas uma coincidência. Uma coincidência estranha, mas apenas isso. Não era?

Começou a acompanhá-lo. O cara parecia legal. Tinha uma vida agitada. Fazia piadas o tempo todo. Sempre espirituosas e engraçadas. Mandava links interessantes. Entrava em sua página sempre após o almoço, quando se lembrava. Quando faltava algum dia tentava ver o que tinha perdido, mas era impossível. O cara tinha tanto assunto! Diversificava tópicos, fazia citações, entrava em debates acalorados. Era esperto. Havia conseguido mais amigos em uma semana do que o original durante a vida inteira. Tudo isso sem mostrar ao menos o rosto. A foto em seu perfil era tirada de um desenho animado qualquer. Mas até esse desenho era legal.

– Que filho da mãe!

@

Abriu a página do seu outro antes mesmo de abrir o e-mail. Queria saber o que tinha rolado na festa de ontem. Coisa de agência de publicidade, pelo que ele havia dito ontem no final da tarde. Várias gatinhas. Open bar. Com menos de cento e quarenta caracteres ele havia descrito a festa tão bem que dava pra imaginá-la em detalhes.

07:02 Alguém tem um tylenol? #Ressaca

Onde será que ele estava? Será que já estava no trabalho? Ou mandou a mensagem de casa? Ou da casa de alguém? Imaginou-o alcançando o celular de última geração em cima do criado mudo do quarto de motel e enviando a mensagem enquanto a garota tomava um banho. Muito melhor que numa baia apertada com a cara amassada de sono e a boca com gosto de café instantâneo. É isso aí, Ronaldo!

@

– Paiê! Mamãe mandou você largar o Twitter e vir jantar que já tá esfriando...

– Já vou, filho. Só um instantinho.

21:36 Acho que levei um bolo...

Não, cara, não desiste ainda. Você investiu tanto. Essa tá no papo. Ela atrasou só o que? Meia hora? Calma.

21:42 All by myself...

Paciência, cara. Não se desespera. Você acha que alguém com um nome como @FelinaFogosa ia resistir a seu charme? Tenha um pouco mais de auto confiança. Daqui a pouco ela aparece.

21:45 Opa, o interfone. Depois eu conto como foi. BRB.

– PAI!

– Tô indo, tô indo...

@

O vício cresceu tão rapidamente quanto sua produtividade caiu. Pra que se importar com contabilidade se ele podia estar bolando uma campanha revolucionária para um sabão em pó? Que interessava o resultado do jogo do Palmeiras? Ele era corintiano. Ou era palmeirense? Não, ele era palmeirense. E ele era corintiano. Péra, me perdi.

Ele tinha trocado de carro. Tinha se mudado recentemente. Solteiro convicto. Órfão de pai. Antenado. Falava de tecnologia com naturalidade. Era chamado para festas. Escrevia numa página sobre Design. Tocava violão. Fumava. Bebia sem medo do dia seguinte. Vivia com tamanha intensidade que fazia questão de compartilhar tudo com todos. E tinha certeza de uma coisa:

Todos o invejavam.

@

– Pai, que roupa é essa? E esse óculos?

– Não gostou? É o que tá se usado, não é?

– Até é, pai, mas sei lá... Em você ficou estranho.

– Ah, você tá por fora.

– Mãe?

– Não começa, Ronaldo.

@

– Pai, você levou o notebook pro banheiro?

– É só um instante, filha.

– Ai, que nojo! O que você está fazendo?

– Estou esperando o garçom trazer minha tequila pra brindar com a galera mais um cliente.

– Hã?

@

Em pouco tempo o diálogo ficou impossível. A esposa pensou em levá-lo a um psiquiatra. Já não tinha mais controle sobre o vício. E aquelas histórias todas? Quem ele achava que era?

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A tela apagou. De repente. Ele gritou.

– Xi, acabou a luz.

– Bem na hora da minha novela?

– Que aconteceu?

– Acabou a luz...

– Ah não, justo agora?

– Que foi? Estava fazendo alguma coisa importante?

– Uma conferência sobre redes sociais em São Francisco. Estava quase na hora do coquetel de encerramento.

– Ai, meu Deus...

– Teu notebook tem bateria, não tem? Empresta ele pra mim, por favor?

– Que adianta, pai? Sem luz não tem internet. Calma, daqui a pouco volta.

– Daqui a pouco quando?

– Sei lá, ô! Saco! Vou pro meu quarto.

– Ronaldo...

– Não. É sério. Acabou a luz só aqui ou foi no prédio? Tem alguma LAN House aqui perto?

– Uma o que? Você está maluco? Senta. Se acalma. Cuidado com a mesa! Meu Deus Ronaldo, o que você está fazendo?

Ele a olhou como se não a reconhecesse.

– Eu... Eu não sei. Depois eu te digo. BRB.

– Bê erre... O que você está falando?

Mas a luz voltou.