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25 outubro 2010

De Graham Greene a Donnie Darko ao Coringa

Quero dividir com vocês a descoberta de uma referência em cadeia entre obras distintas. O que The Destructors, de Graham Greene tem a ver com Donnie Darko, filme cult de Richard Kelly e o recente blockbuster O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan?

Primeiro, assistam essa cena de Donnie Darko, onde o protagonista (vivido por Jake Gyllenhaal) e sua professora (Drew Barrymore) analisam, na aula de literatura inglesa, o conto The Destructors, de Graham Greene:

No final do diálogo Donnie dá seu parecer sobre a obra analisada:

"Destruição é uma forma de criação. Dessa forma o fato deles queimarem o dinheiro é irônico. Eles só querem saber o que acontece quando destroem o mundo. Eles querem mudar as coisas."

Como não li tal conto, não sei até que ponto esta análise é precisa, mas reparem como, quase 10 anos depois que o filme foi feito, outro personagem usa a mesma metáfora, de uma forma que é impossível acreditar que seja coincidência:


Sim, ele queima uma pilha de dinheiro, com a intenção clara de mudar as coisas.

Vemos aqui o exemplo claro de uma referência literária sendo usada de duas maneiras, ambas com o intuito de aprofundar o personagem. Donnie Darko, após aquela cena, entra num ciclo destrutivo, impulsionado por uma visão ("Frank"). A cena da análise do livro explica suas motivações. No caso do Coringa, ele possui as mesmas motivações dos personagens de Graham Greene, sem tirar nem por.

Essa sopa de referências cruzadas no ensina muito sobre o processo de criação de um personagem através de reuso de materiais previamente escritos. No caso de Donnie Darko a referência é explícita. Já no caso do Coringa, ela é implícita. Mas em ambos os casos extremamente relevantes.

Isso é dar dimensão a um personagem. Um brinde à Graham Greene, Richard Kelly e Christopher Nolan.

02 fevereiro 2010

Tarantino e a mediocridade narrativa

Finalmente assisti a tão alardeada "obra prima" de Quentin Tarantino, Inglourious Basterds (ou, como foi traduzido por aqui, Bastardos Inglórios).

E qual foi o meu veredito?

Decepção completa.

O filme é uma porcaria. Não em termos técnicos. A direção de arte é primorosa. A edição espetacular. A fotografia belíssima. Mas tudo isso em cima de um roteiro rasteiro, pedante, auto indulgente, com personagens rasos como uma pizza e um "arco dramático" pra lá de imbecil. Fora as atrocidades históricas que deveriam levar qualquer pessoa que estudou o MÍNIMO da Segunda Guerra Mundial no colégio a arrancar os cabelos em desespero. Não, não estou exagerando.

O que levou Tarantino a produzir uma bomba como essa? Nunca o considerei um grande expoente cinematográfico, mas seus filmes anteriores tinham seus méritos. Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992) era interessante. Pulp Fiction (1994) trazia finalmente para o cinema pop a narrativa não linear (e um pouco da irreverência de Cães de Aluguel). Até mesmo a "bilogia" Kill Bill (2003) acertava no quesito divertimento, justificando seus exageros pelo tom farsesco da trama. Nada genial, nada revolucionário, mas no fim das contas funcionava.

Daí veio essa porcaria que é Inglourious Basterds. Nele vemos um Tarantino descontrolado, abusando de longos e maçantes diálogos (que, dizem, é seu ponto forte), cenas absurdas injustificadas e toneladas de referências jogadas sem a menor necessidade. Tarantino acreditou piamente que qualquer bobagem que ele escrevesse seria tratada como um produto de uma mente genial. Pelo burburinho da mídia percebemos que ele tem razão. Mas a mim o senhor não engana, Tarantino.

Sua obra pode ser comparada a um Ovo Fabergé: uma casca linda de se ver, mas vazia de significado, sentido ou qualquer sombra de relevância. É um filme que se sustenta num "estilo" pretensioso e oco. Um exercício de estilo pelo estilo, pura e simplesmente. Uma obra que nada se tira e nada se leva. Completamente descartável. Após tantos anos ouvindo de todos os lados exaltações a sua "genialidade" posso dizer a plenos pulmões: Tarantino, você é uma fraude. Sua máscara finalmente caiu.

Quando terminei de assistir ao filme, em meio a raiva e a frustração por ter desperdiçado duas horas de minha vida nessa porcaria, pensei em todas as críticas positivas que ouvi antes de assistir o filme. Pensei comigo mesmo: "Será que só eu vejo o quão ruim é esse filme?".

Aparentemente sim.

Daí fiz uma analogia que sempre faço. Cada vez mais vejo escritores iniciantes "vestindo a camisa" de um estilo x ou y. "Ah, eu escrevo sobre vampiros". "Ah, eu escrevo ficção científica¨. "Ah, eu escrevo fantasia". E blá, blá, blá, etecétera e tal. Não estou criticando os (poucos) bons escritores de gênero dessa nova geração que estamos vendo despontar. Escritores que optaram escrever em determinado gênero, mas não se limitam a ele. Falo sim dos autores que praticamente xerocam seu livro predileto. Esquecem que toda boa história tem um TEMA.

Não basta me dizer que você escreve "histórias de vampiros". Vampiros não são tema. São alegoria. Nem que você escreve "histórias de FC". Ficção científica é muito mais que naves espaciais, armas laser e alienígenas exóticos. É um estudo que pode ser sociológico, futurólogo e até mesmo psicológico, utilizando cenários futuristas apenas para ilustrar esses temas.

E o que é um tema? De acordo com Milan Kundera em seu "A Arte do Romance" (1986, Companhia de Bolso), um tema é "uma interrogação existencial". É algo que mira para além da superfície, que lida com temas profundos da existência humana. São os sentimentos, as emoções. Eu não escrevo terror. Eu escrevo histórias de amor, de coragem, de sacrifício, lido com o medo, as fobias, a consciência, as frustrações do leitor. Todo o resto são decisões de estilo para que o leitor receba aquele tema de maneira eficiente quando terminar de ler. Que o faça pensar. Toda boa história deve ser epifânica. Tendo vampiros, lobisomens ou caçadores de nazistas nela ou não. Escrever bem vai muito além de acertos ortográficos ou gramaticais (estes são valores essenciais). Escrever é uma arte. E toda arte deve transmitir alguma coisa a seu receptor. Ou então sua história será como o filme de Tarantino: uma casca de ovo belamente decorada, mas recheada apenas de mediocridade.

E fadada ao esquecimento

08 junho 2009

Crítica: Bathory (2008)

Finalmente consegui assistir ao filme Bathory, que citei neste post aqui. Sim, aquele que se propõe a ser uma verdadeira "cine-biografia" da famigerada condessa Erszebet Bathory, que separaria o mito da verdade e contaria o que realmente se passou nas terras altas da Hungria no final do século XVI e início do XVII.

Pois bem. E o diretor eslovaco Juraj Jakubisko conseguiu o que inicialmente havia proposto? A resposta é, infelizmente, "em partes". Mas, claro, me adianto.

Em termos biográficos o filme é fiel o suficiente quando trata da história da condessa em si. As passagens históricas conhecidas estão todas lá, sem floreios. O noivado, o casamento, a vida, o julgamento e a morte estão fielmente retratados (com uma atuação surpreendente, apesar de alguns tropeços, de Anna Friel), utilizando poucas licenças poéticas, como no caso da morte que, apesar de inacurada, criou uma metáfora visual bem interessante. Foi usado como base para o argumento a trama de difamação perpretada pela nobreza húngara em conluio com a Igreja Católica que, mesmo interessante, tem poucas evidências factuais. Mesmo assim é uma proposta corajosa do diretor que merece, se não aplausos, ao menos respeito. A tentação de deixar a história cair para a caricatura era grande demais, visto o impacto cultural da condessa Bathory nos dias atuais. Ponto para o filme.

Aliás, outros pontos a favor do filme são a fotografia e a produção de arte. Em momento algum a obra perde o clima certo da época retratada, e o tom de "épico histórico" é presente em grande parte da película (mesmo nos momentos onde vemos uma influência gigantesca de Peter Jackson e seu O Senhor dos Anéis, mas nada que comprometa). Os figurinos estão belíssimos e condizentes. Percebe-se uma preocupação bastante grande com a fidelidade até mesmo nos apetrechos utilizados.

Agora nem tudo são flores. O filme peca em alguns pontos importantes. O mais gritante numa primeira vista são os personagens do monge Peter e seu noviço Cyril, sendo o primeiro o narrador da história. Completamente fictícios, foram um artifício do roteirista (que também é o diretor) criados meramente para "explicar" a propagação de certos momentos históricos até o tempo atual. Esquemáticos e desnecessários, apenas servem para tentar prover um alívio cômico numa trama que, sinceramente, não necessitava deste recurso. Protagonista de inconvenientes cenas "cômicas", onde vemos os dois testando inventos produzidos pelo padre, os personagens servem apenas para quebrar o ritmo com piadinhas rasteiras, em nada colaborando com o enriquecimento da história. Muito pelo contrário, pois em certos momentos não sabemos de que lado estão os religiosos (são espiões do cardeal, mas ajudam a condessa em diversas ocasiões chave). Fora o irritante fato do noviço ter a mania de "uivar" toda vez que vê um seio nu, em cenas que me lembraram muito uma pornochanchada, o que conta muito contra a seriedade deste projeto.

Pecando por um ritmo um pouco episódico demais, vemos personagens que deveriam ter um peso maior na história tendo papéis de "figurantes com nomes", como nos casos de Fizcko (um mero capataz mudo até o terceiro ato, quando de repente ele se torna um "cúmplice" importante) e Dorota Sentes. Quando testemunhamos eles sendo torturados, pouco nos importamos com seus destinos, visto que até aquele momento simplesmente não conhecíamos os personagens, o que é uma pena.

Outra inclusão completamente fictícia é a do pintor milanês Michaelangelo Merisi Caravaggio como amante da condessa. Mas esta inclusão se mostrou acertada, ao menos em termos narrativos, pois exemplifica de maneira bastante lírica a obsessão da condessa Bathory pela própria imagem e juventude. Mas nada na biografia do pintor ou da condessa leva a crer que esta história não seja totalmente inventada. Confesso que não compreendi a necessidade de usar um pintor famoso para este papel (qualquer retratista serviria) mas o resultado final não compromete.


De interessante na obra podemos tirar a "explicação" pelas crises assassinas da condessa (uma "doença no sangue" que me deixou bastante feliz, pois pareceu que o diretor/roteirista leu meu livro) e o respeito com que alguns personagens históricos foram retratados (especialmente Ferenc Nadasdy e o rei Mathias d'Habsburgo). Já a "vilanização" do conde Gyorgy Thurzo surge artificial e despropositada.

Não é um filmão nem uma obra de arte absoluta, mas é um filme que merece uma espiada, nem que seja apenas por curiosidade. É uma obra irregular, sim, mas que tem seu mérito. Só espero algum dia pegar uma cópia decente (a minha é um scan de uma exibição especial do filme para a STV eslovaca, dublada em eslovaco) de modo a avaliar melhor as atuações. Mas fica a dica para quem está curioso por conhecer um pouco mais da vida dessa personagem tão interessante.

12 abril 2009

The Countess - Julie Delpy como Bathory nos cinemas

Na carta de apresentação que redigi para as editoras quando tentava publicar "O Legado de Bathory" escrevi:

"Recentemente, foi anunciada a produção de um longa-metragem contando sua história, protagonizada por Julie Delpy e Ethan Hawke. A previsão de lançamento é para meados de 2007."
Pois bem, alguns anos se passaram, o livro foi lançado no final de 2007 e nenhuma notícia desta produção surgiu. Cheguei a pensar que o filme havia sido até cancelado. Acontece, especialmente sendo um tema considerado pouco digerível pelo público médio E sendo o filme de estreia da bela francesa na direção. Daí encontro, por acaso no blog Rosebud é o trenó, uma notícia que linka ao trailer da produção, agora nomeado simplesmente "The Countess" e sem a presença de Ethan Hawke (mas com a adição de William Hurt no papel de Gyorgy Thurzo). Comentários meus após a visualização do trailer.



E aí? Gostou? Eu não sei. Quando li as primeiras entrevistas de Delpy a respeito da produção eu tive alguma esperança. Ela pretendia fazer algo mais calcado na realidade, deixando de lado (ou explicando melhor) grande parte dos mitos que envolviam a condessa. Mas ao ver a famigerada "cena do toucador" (quando o mito diz que Bathory descobriu os poderes curativos do sangue de virgens) dei uma broxada. Quem leu meu livro (e especialmente a nota histórica ao final) sabe que esta cena é comprovadamente fictícia, tendo sido criada bem posteriormente em romances e transformadas em "verdade" pelo boca a boca. Não sei. Além disso tentar racionalizar os crimes criando uma história de amor com um homem mais jovem (e a partir disso explicar a obsessão pela juventude eterna) é uma estratégia barata que o cinemão adora fazer. Não assisti o filme ainda, vou fazer, mas minha expectativa caiu bastante.

Aproveitando o tema, em 2008 o cultuado diretor tcheco Juraj Jurabisko produziu uma cinebiografia da condessa que foi lançado apenas em alguns festivais pelo leste europeu (mesmo o filme sendo estrelado por Anna Friel (a simpática Chuck do razoável Pushing Daisies) e falado completamente em inglês). Parece uma produção muito mais séria e bem menos poeticamente licenciada (!). O trailer é esse aí embaixo. Também não vi e não encontrei em lugar algum. Caso alguém saiba onde encontrar, me avise.


03 novembro 2008

Tributo à capela para John Williams



Pra quem não percebeu (e com certeza vai ter que assistir de novo) toda a letra homenageia o universo Star Wars.

É oficial: o mundo é dos nerds.

Achei aqui.